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| Cinquenta Tons de Cinza | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de fevereiro de 2015 by Lucas Nascimento

1.5

FiftyShadesofGrey
Dakota Johnson e Jamie Dorman

Quando a adaptação do romance erótico Cinquenta Tons de Cinza foi confirmada pela Universal, não consegui me conformar de que uma literatura barata e de qualidade duvidosa realmente ganharia as telas. Quando os primeiros trailers foram lançados, fiquei genuinamente empolgado com o filme de Sam Taylor-Johnson: parecia estiloso, elegante e até sexy, mesmo considerando-se o material original. Bem, fica a lição: dá pra se vender qualquer porcaria com um bom trailer.

A trama segue de perto a obra de EL James, começando quando a jovem estudante de Literatura Inglesa Anastasia Steele (Dakota Johnson) é incubida de entrevistar o bilionário Christian Grey (Jamie Dorman) para seu jornal da faculdade. Não demora para que os dois comecem a se envolver, mas Anastasia precisará lidar com os “gostos peculiares” de Grey, que revela-se um dominador fascinado por sadomasoquismo e bondage.

Juro que não consigo ler a sinopse deste filme sem soltar uma risadinha. Não é segredo nenhum que EL James escreveu sua trilogia (isso aí, preparem-se que ainda teremos mais dois) inspirada no casal protagonista de Crepúsculo, uma referência que eu não classificaria exatamente como exemplar. Anastasia é tão frágil, sem sal e dependente de homens como é Bella Swan, e Grey é misterioso, enigmático e controlador como o vampiro Edward Cullen, e até alguns pontos da trama são assustadoramente similares: caminhadas num bosque, voos para impressionar a menina e uma cidade predominantemente nublada e cinzenta. O roteiro de Kelly Marcel nem disfarça, e ainda traz diálogos pavorosos do tipo “Eu tenho um GPS, e um QI alto” (risos) ou “Eu não faço amor. Eu fodo. Forte” (Risos histéricos) e subtramas que propositalmente vão sendo deixadas sem resolução para que as continuações as explorem.

Nem o casal principal salva, já que não demonstram uma química aceitável para um longa do gênero. Li boatos de que Dorman e Johnson não se suportavam no set, e pelo visto a dupla nem se preocupou em esconder isso aqui. O Grey de Dorman é um estereótipo de “Deus grego moderno” que nunca sorri e beira a psicopatia, quase como o Patrick Bateman de Christian Bale em Psicopata Americano. Johnson é bonita e consegue bons momentos aqui e ali, sendo corajosa em protagonizar cenas de sexo ousadas para o padrão hollywoodiano – mas nem de longe polêmicas quanto o boca-a-boca sugeriu.

A única coisa boa do filme certamente é o visual. A diretora Sam Taylor-Johnson (de O Garoto de Liverpool) revela-se uma autora elegante em seus enquadramentos e nas escolhas de luz e tons com o diretor de fotografia Seamus McGarvey, usando bem do clima nublado de Seattle e os momentos quase surreais em que o cenário adota uma forte coloração vermelha (como a “reunião de negócios” entre Anastasia e Grey. E Johnson até consegue criar um bom ritmo com a ajuda de algumas canções pop (o açoitamento com “Crazy in Love” versão orgasmo de Beyoncé e a abertura com “I Put a Spell on You” são particularmente inspiradas), mas o material realmente não a ajuda…

Cinquenta Tons de Cinza é exatamente o que se poderia esperar de uma obra que assumidamente se inspira na Saga Crepúsculo: brega, estereotipado, machista e protagonizado por um casal sem graça, ainda que seja visualmente estimulante.

| Se Eu Ficar | Crítica

Posted in Críticas de 2014, Drama, DVD, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

1.0

IfIStay
Chloe Grace Moretz corre pelo hospital. Muito.

O que reside além da vida é o mistério definitivo desta. Só de se pensar nas infinitas possibilidades e as questões éticas, morais, metafísicas e sobrenaturais já é empolgante. Como o assunto consegue ser tão entediante e sub como este Se Eu Ficar, é algo digno de reconhecimento.

A trama é baseada no livro homônimo de Gayle Forman, centrando-se na vida de Mia Hall (Chloe Grace Moretz), uma jovem aprendiz que sonha em ser uma grande violocentista. Quando um acidente de carro a coloca em um coma, seu espírito vagueia pelas lembranças de sua vida, relações amorosas e familiares – enquanto decide se seguirá em frente ou permanecerá no mundo mortal.

É uma premissa que já vimos inúmeras vezes, a diferença é que no filme de RJ. Cutter é muito mais sem graça e sem inspiração. Os eventos que a jovem protagonista enfrenta são todos clichês (“devo ir à faculdade ou ficar com o namorado? Ele gosta de rock, eu de música clássica…”), idealizados e com apego barato ao espectador, que é forçado a engolir uma história de amor patética e sonolenta. O roteiro de Shauna Cross até consegue ser pontualmente envolvente quando traz referências musicais interessantes, mas falha ao fornecer força à sua mensagem: nos enche de frases feitas e recorre à colagens de flashbacks da família de Mia, só para atingir uma catarse que falha em decorrência de sua abrupta cena final.

E Chloe Grace Moretz, outrora tão promissora em filmes como Kick-Ass: Quebrando Tudo e Deixe-me Entrar parece estar se acomodando ao ordinário. Sua performance como Mia é boa e tem seus momentos – e a jovem realmente parece ter aprendido a tocar violoncelo, o que é impressionante – mas nada realmente incrível, além de ficar correndo o tempo todo por corredores do hospital. Outra que também prometia muito, Liana Liberato sai de sua performance corajosa e memorável em Confiar para a “melhor amiga” mais desinteressante da História. Só se salva Mireille Enos (da série The Killing), atriz cada vez mais forte em personagens coadjuvantes (você deve tê-la visto como “a esposa” em Guerra Mundial ZCaça aos Gângsteres) e que precisa urgentemente ganhar um papel de protagonista no cinema.

Se Eu Ficar é um drama melancólico, sem graça e tão sem vida quanto sua protagonista desinteressante. Constantemente tenta provocar uma catarse no espectador, mas a única reflexão que me fez enquanto assistia ao filme é se eu iria aguentar ficar até o final.

Novos pôsteres de GAROTA EXEMPLAR

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , , , , , , on 1 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

A dois meses de sua estreia nos cinemas, Garota Exemplar ganhou dois novos pôsteres. As artes são similares, mostrando Ben Affleck assombrado pelos olhos de sua esposa desaparecida, vivida por Rosamund Pike. Confira:

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David Fincher adapta o romance de Gillian Flynn, contando também com Neil Patrick Harris e Tyler Perry no elenco. O grande Jeff Cronenweth retorna para o cargo de diretor de fotografia e os músicos Trent Reznor e Atticus Ross repetem a parceria com o diretor, após A Rede Social e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Garota Exemplar estreia em 2 de Outubro.

Jessica Chastain vai viver Marilyn Monroe em BLONDE

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , , , , , , on 22 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

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Depois de Michelle Williams ter sido indicada ao Oscar por seu retrato de Marilyn Monroe em Sete Dias com Marilyn, é a vez de Jessica Chastain adotar a cabeleira loira e a pinta característica para viver a diva icônica do cinema norte-americano, substituindo Naomi Watts em Blonde.

O projeto é comandado pelo talentoso Andrew Dominik (parça do Brad Pitt, com quem realizou O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e O Homem da Máfia), e promete um biopic incomum ao apostar em um tom mais dark do que a maioria dos exemplares do gênero. O roteiro e baseado no livro de Joyce Carol Oates.

Fisicamente, Chastain perde feio para Williams em termos de semelhança com Marilyn, mas tenho certeza de que a atriz entregará uma baita performance.

Andrew Dominik planeja começar a filmar Blonde em agosto deste ano.

-> Como pude esquecer, Chastain fica uma maravilha loira também!

THE HELP

Confira o primeiro trailer de GAROTA EXEMPLAR

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , , , , on 14 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

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E o novo filme de David Fincher acaba de ganhar seu primeiro trailer. Garota Exemplar é a adaptação do livro homônimo de Gillian Flynn, sobre uma mulher (Rosamund Pike) que desaparece misteriosamente no dia do aniversário de seu casamento, tornando seu marido (Ben Affleck) o principal suspeito.

A prévia já estabelece o tom de suspense e a beleza estética dos filmes do diretor, trazendo um cover de “She”, de Charles Aznavour, com Richard Butler (do Pshychedelic Furs). Promete, confira:

Garota Exemplar estreia no Brasil em 2 de Outubro.

Primeiro pôster de GAROTA EXEMPLAR

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , , , , on 14 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

O novo filme de David Fincher, adaptação do romance Garota Exemplar de Gillian Flynn, acaba de ganhar seu primeiro teaser pôster. A arte é provocativa e minimalista, trazendo elementos de matéria jornalística e a frase “Você não sabe o que tem até que…”, brincadeira com o título original (Gone Girl). Confira:

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Fiquem ligados, o primeiro trailer deve sair ainda hoje!

A trama segue o misterioso desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) em seu aniversário de casamento. Tendo passado por um período tenso na relação, as suspeitas logo recaem sobre o marido, Nick (Ben Affleck), que parte para provar sua inocência e descobrir o que realmente aconteceu. Neil Patrick Harris e Tyler Perry completam o elenco. A própria Gyllian assume o roteiro, e a trilha sonora marca o retorno de Trent Reznor e Atticus Ross em colaborações com Fincher.

Garota Exemplar estreia em 2 de Outubro no Brasil.

Ben Affleck e Rosamund Pike mortos de amor em imagem de GONE GIRL

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , , on 8 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

As filmagens de Gone Girl, adaptação de David Fincher para o livro Garota Exemplar, continuam a todo vapor nos EUA. Agora, a revista Entertainment Weekly divulgou a capa de sua nova edição, que traz um ensaio com Ben Affleck e Rosamund Pike em um clima “lugubremente romântico” em uma sala de necrotério. O próprio Fincher comandou a sessão, confira:

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Gone Girl estreia nos EUA em 3 de Outubro.

| O Maravilhoso Agora| John Hughes ficaria muito orgulhoso

Posted in Críticas de 2014, DVD, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 6 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

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Miles Teller e Shailene Woodley: Química espetacular

“Crescer não é fácil”. Os melhores filmes adolescentes já feitos são aqueles que abraçam de forma honesta o tema citado, vide as geniais comédias de John Hughes (como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Ela vai ter um Bebê) ou até mesmo o recente As Vantagens de ser Invisível, de Stephen Chbosky. Com O Maravilhoso Agora, o diretor pouco conhecido James Ponsoldt se beneficia de um dos protagonistas mais carismáticos já encontrados no gênero, e pode muito bem incluir sua obra no seleto grupo discutido acima.

A trama é adaptada do livro homônimo de Tim Tharp (excelente, por sinal) por Scott Neustadter e Michael H. Weber, mesma dupla responsável por (500) Dias com Ela e pela vindoura adaptação do romance A Culpa é das Estrelas. O espectador acompanha a vida de Sutter Keely (Miles Teller), jovem no último ano do ensino médio que parece ser incapaz de criar planos ou metas para sua vida, optando por viver naquilo que chama de “spectacular now”, o agora espetacular. Depois de levar um fora da namorada (Brie Larson), ele começa a se envolver com a reclusa Aimee (Shailene Woodley), que pode – ou não – lhe servir como uma influência positiva.

O Maravilhoso Agora é um filme muito difícil de se vender, até mesmo para colegas. Isso porque a premissa não oferece praticamente nada de novo e também carece de eventos marcantes, ou uma situação pré-estabelecida que desenvolva a trama toda. Curiosamente, o filme funciona como seu protagonista: aposta no agora, no cotidiano e no rotineiro de Sutter; nas simples situações que se tornam memoráveis graças à força de seu roteiro, que acertadamente evita o uso de flashbacks para explicitar suas subtramas dramáticas, apostando em seus ótimos diálogos e ao espetacular carisma de seu elenco.

A começar por Miles Teller, ator que rapidamente vai crescendo no cinema (sua estreia aconteceu em 2010, em Reencontrando a Felicidade), e pode se revelar um dos grandes artistas de sua geração. Sua construção como um jovem despreocupado, brincalhão e otimista é das mais convincentes, e é de se espantar com a competência do ator ao subverter completamente essa imagem à medida em que a trama vai encontrando áreas mais dramáticas. Fico feliz também em perceber como James Ponsoldt não se preocupa em esconder as marcas e acnes no rosto do ator, garantindo-lhe uma verdadeira autenticidade como adolescente, ao contrário de diversas produções que exageradamente embelezam seu elenco, resultando na artificialidade. O mesmo se aplica à Brie Larson (outra jovem para se ficar em olho) e a já conhecida Shailene Woodley, cuja excelente e tímida performance é reforçada graças a ausência de maquiagem em seu rosto – exigência da personagem que funciona maravilhosamente bem em cena.

O Maravilhoso Agora é um envolvente estudo de personagem que jamais perde seu foco e oferece um eficaz estudo de personagem que fica ainda melhor graças ao talentoso elenco. Seu tom aproxima-se mais do drama do que da comédia mas, ainda assim, deixaria John Hughes orgulhoso.

Obs: Crítica feita após assistir ao blu-ray do filme, ainda indisponível no Brasil – assim como uma tradução do título.

Estranha, Estranha Minha | As Outras Carries

Posted in Especiais with tags , , , , , , , , , , , , , , on 2 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

carrie

Com o lançamento de Carrie, a Estranha se aproximando, nada melhor do que parar e revisitar as versões anteriores da famosa história do escritor Stephen King. Uma breve análise, vamos lá:

Carrie, a Estranha (1976)

4.5

76

Adaptação definitiva da obra de Stephen King, Carrie, a Estranha se beneficia de uma direção espetacular de Brian DePalma – aqui, no auge de sua carreira. Sem falar nas excelentes performances de Sissy Spacek e Piper Laurie, Carrie White e sua mãe Margaret, respectivamente, que movem toda a projeção (e ambas foram indicadas ao Oscar por seus trabalhos). Toma algumas liberdades criativas em relação ao livro (especialmente no final), mas ainda é uma das melhores adaptações de King para o cinema.

Carrie 2: A Maldição de Carrie (1999)

Carrie-2

WTF?! Carrie 2?! Isso mesmo, essa foi minha reação quando descobri a existência de Carrie 2: A Maldição. A trama agora gira em torno de outra colegial que descobre habilidades telecinéticas, para o terror de seus colegas de classe – que inclui a participação de Sue Snell, do filme original de DePalma. Infelizmente (?) não consegui assistir o filme a tempo de lançar este post, mas… fica a dica, eu acho.

Carrie, a Estranha (2002)

3.0

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Muitos parecem esquecer disso (enquanto outros simplesmente não sabiam), mas Carrie ganhou uma segunda adaptação em forma de minissérie para a TV sob o comando de David Carson. Segue bem de perto a narrativa de Stephen King e adiciona um interessante elemento de investigação policial (toda a história da tragédia de Carrie é contada por meio de flashbacks), o que preserva características epistolicas do livro. No entanto, a produção é fadada a efeitos visuais horrorosos, e um elenco fraco em que só se salva a desconhecida Angela Bettis como a personagem-título.

E aí, será que a Chloë Grace Moretz got what it takes? Descobriremos na sexta-feira…

Chloe Moretz stars in Metro-Goldwyn-Mayer Pictures and Screen Gems' CARRIE.

| O Grande Gatsby | Baz Luhrmann apresenta o Fitzgerald Extravaganza

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 4 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

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Old Sport: Leonardo DiCaprio é o Jay Gatsby definitivo

Considerado por muitos um dos “grande romances americanos”, O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald é uma obra requintada que se desenrola com uma sutileza ímpar. Baz Luhrmann, diretor desta glamourosa nova versão, jamais foi conhecido por sua sutileza (afinal, estamos falando do responsável por Romeu + Julieta e Austrália). Pode se dizer que o australiano é uma das pessoas menos indicadas para comandar a história, mas seu estilo grandiloquente – ainda que seja prejudicial em certos momentos – encontra espaço aqui.

A trama é ambientada na Nova York dos anos 2o (período popularmente conhecido como “Era do Jazz”, ou “Geração Perdida” para os menos saudosistas), centrando-se no aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire). Enquanto recupera-se em um sanatório, Carraway compartilha por escrito suas experiências em meio a alta classe social e o mistério em torno do milionário Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), sujeito que esconde uma indestrutível paixão pela casada Daisy Buchanan (Carey Mulligan).

Década de 20 e, ainda assim, temos Jay-Z e Beyoncé na trilha sonora. Muitos críticos estrangeiros apontaram o dedo para a abordagem pop de Luhrmann à história, mas ao meu ver ela pontua com eficiência o clima de exaltação e festa da época – basta lembrar do Gatsby de 1974, com Robert Redford, que era silencioso demais para simbolizar algo como a Era do Jazz. É certo que a obra de Fitzgerald não é tão “aberta” quanto a direção de Luhrmann, que mais de uma vez pára para explicar detalhes que funcionavam por si só de forma sutil (três vezes, e por três personagens diferentes, é explicado o motivo pelas festas grandiosas do protagonista) e momentos mais agitados – ainda que um certo atropelamento seja tão memorável justamente por sua execução escandalosa e a escolha musical.

Também elogio Luhrmann por compreender a importância da luz verde na trama, transformando-a em um poderoso elemento visual e eficiente instrumento narrativo. O cais de Gatsby surge como abertura e encerramento do longa, como se o espectador realmente tivesse entrado e saído daquele universo. É interessante observar que, mesmo tendo sua amada Daisy em seus braços, o personagem continua a contemplar a luz esverdeada irradiando do outro lado da costa. Uma observação sutil que revela uma camada ainda mais complexa de Gatsby, que Leonardo DiCaprio consegue incorporar bem em uma performance multifacetada: seu Gatsby é ambicioso, mas vulnerável; otimista, mas impaciente.

TheGreatGatsby
O figurino vermelho de Isla Fisher contrasta com a tonalidade de seu lar

Impossível não falar sobre o impecável trabalho da figurinista e designer de produção Catherine Martin (que além de tudo isso, ainda é produtora e esposa do diretor). Vencedora de 2 Oscars por suas colaborações com Luhrmann, deve retornar à premiação por recriar fielmente locações e vestimentas da época e ainda oferecer-lhes um toque moderno: o vermelho burlesco predomina na caracterização da Myrtle Wilson de Isla Fisher, o que a torna uma figura assustadoramente contrastante com o cinza escuro e sujo de seu marido e a região onde habitam. A fotografia de Simon Duggan também se adequa com obediência às demandas narrativas, além da facilitar o elegante 3D do filme – que, curiosamente, fica mais profundo graças à artificialidade do greenscreen.

Mas se a artificialidade é um acerto nesse sentido, é o que o filme traz de pior quando analisamos seu roteiro e execução. Em diversos momentos, o filme assume uma postura maniqueísta diante de alguns personagens (o mecânico vivido por Jason Clarke ganha aqui um tratamento de monstro, e o ator nada pode fazer para torná-lo tridimensional) e faz uso. Apostando em velocidade, os montadores insistem em picotar até os mais simples diálogos com uma série de cortes que dificulta a fluência da cena e o desenvolvimento das ações; vide a conversa entre Nick e Gatsby no Rolls Royce amarelo, que surge como uma “metralhadora” de informações e ainda tornam evidentes algumas falhas na mixagem sonora daquele momento – e o que dizer da cena que tenta equilibrar uma conversa silenciosa com uma festa gigantesca?

Filme que certamente merece maior reconhecimento do que a de 1974, O Grande Gatsby impressiona pela produção e os experimentos visuais de Baz Luhrmann (com exceção dos embaraçosos textos sobre a tela). Mesmo que essa exuberância seja também um de seus deméritos, é uma adaptação que ao menos se arrisca a ser algo mais do que o básico. Afinal, de que adianta ser convencional em sua sexta adaptação para o cinema?

Obs: Mesmo que não tragam nada de significante, os créditos finais merecem ser vistos graças ao uso da canção “Together”, do The XX, que oferece um impacto maior após a conclusão do filme. Acredite, vale a pena.

Obs II: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme em São Paulo, no dia 27 de Maio.