Arquivo para neil patrick harris

| Garota Exemplar | Crítica

Posted in Críticas de 2014, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

GoneGirl
Casamento em pedaços

Quando David Fincher faz um suspense, sinto que estou prestes a ver um chef italiano em uma trattoria, um profissional hábil em seu ambiente mais familiar. Seria mais fácil definir quais filmes do diretor não são representantes do gênero, e estaria me referindo a O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social. Com Garota Exemplar, Fincher embarca mais uma vez em sua zona de conforto, e caramba… O cara nunca esteve tão à vontade.

Gillian Flynn adapta seu próprio romance na trama que se concentra no casal Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike). Com o casamento desgastado, a situação se complica quando Amy desaparece subitamente, iniciando uma investigação que coloca seu marido como principal suspeito; ainda que ele insista em sua inocência e tente resolver por si próprio o mistério.

Acho fascinante como Fincher, mesmo atuando diversas vezes no mesmo genêro é capaz de abordar diferentes temas – e de diferentes formas – em suas incursões. Seven – Os Sete Crimes Capitais era puramente sobre a abominação na Terra, Zodíaco se dedicava a analisar a obsessão de um homem por respostas e seu Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres era uma mistureba que trazia temas como credibilidade jornalística e os abusos da mulher na Suécia. Garota Exemplar é uma maravilhosa experiência que se concentra nas hipocrisias do circo midiático e os problemas de um casamento, e o que surpreende é como Fincher e Flynn permeiam a história com um inesperado senso de humor negro e cínico: convenções quanto a formulaica história do “Boy Meets Girl, Boy Loses Girl” são quebradas de forma assombrosa, levando a uma conclusão amarga e da qual é impossível não soltar uma risadinha maliciosa. Até uma gag visual e metalinguística em especial diverte, quando a polícia encontra a “primeira pista”.

Mas há muito mais sob as aparências. Vou ser bem cuidadoso para não revelar spoilers, contentando-me a dizer que o roteiro começa a surpreender à medida em que vamos aprendendo melhor sobre quem é Amy Dunne, e quais os motivos que levaram à sua situação nebulosa. Para isso, o montador Kirk Baxter (aqui, sem o habitual parceiro Angus Wall) equilibra com maestria os flashbacks que nos colocam dentro do diário de Amy, onde esta compartilha não só o início de sua relação com Nick, mas também dos problemas. Baxter é genial ao apostar em cortes sutis e irônicos, como o beijo do casal que é logo interrompido para uma cena em que a polícia colhe uma amostra de DNA da boca de Nick e também seu uso de fades to black para pontuar as transições temporais e as situações mais intensas. E já que falei em pontuar, Trent Reznor e Atticus Ross novamente oferecem uma trilha sonora sombria e distorcida, facilmente criando uma atmosfera pesada.

GoneGirl
Rosamund Pike: sua hora de brilhar

Mas quando falamos de Amy, precisamos falar de Rosamund Pike. O nome é desconhecido para a maioria, mas certamente em algum momento vocês já a viram por aí em papéis menores (vilã em 007: Um Novo Dia Para Morrer, advogada em Jack Reacher: O Último Tiro e recentemente a ex-namorada de Simon Pegg em Heróis de Ressaca). Com sua performance em Garota Exemplar, Pike merece explodir no circuito comercial e também em futuras premiações. Sua Amy é um ser complexo e difícil de se entender, praticamente uma representação carnal do enigma da esfinge egípcia: decifra-me ou te devoro, literalmente. Pike é talentosa em sua atuação cheia de nuances e transformações, juntando-se a Rooney Mara e Jodie Foster como uma das mulheres mais fortes da filmografia de Fincher – ainda que a personagem de Pike penda para um grau de psicopatia.

Aliás, o longa certamente é capaz de despertar debates interessantes, especialmente entre casais, sobre as decisões tomadas pelos personagens. Ben Affleck se sai muito bem no “lado masculino” da discussão, criando um Nick que é muitas vezes burro ingênuo demais, mas também capaz de esconder segredos do público. Fincher sempre incita a dúvida quanto a real posição de Nick na situação, e é delicado ao retratar as mudanças de atitude da polícia (representado pela ótima Kim Dickens) em relação a este. Temos neste universo rico – e lindamente fotografado por Jeff Cronenweth – diversos personagens carismáticos, incluindo o advogado Tanner Bolt (Tyler Perry, casting perfeito), a irmã Margo (Carrie Coon, divertida e leal) e o misterioso Desi Collings (Neil Patrick Harris), cuja construção é repleta de influências hitchcockianas, especialmente a obsessão por loiras vista em Um Corpo que Cai.

Garota Exemplar é um filme poderoso e surpreendente, seja por suas reviravoltas imprevisíveis ou pelo humor negro que adota para retratar temas e situações relevantes no momento – sendo a instituição casamento seu principal alvo. Um dos melhores do ano e também da filmografia do sr. David Fincher.

Anúncios

| Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 21 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

2.5

AMillionWaystoDieintheWest
Seth MacFarlane diverte Charlize Theron e Liam Neeson

Com o sucesso de Uma Família da Pesada na TV e a aceitação de seu divertido Ted, nem em um milhão de anos eu apostaria que Seth MacFarlane apostaria em uma comédia de faroeste como seu próximo projeto. E mesmo que o comediante tenha lá suas boas tiradas e venha evoluindo como diretor, Um Milhão de Maneiras de Pegas na Pistola não é exatamente engraçado ou memorável.

A trama é centrada em um fazendeiro covarde (MacFarlane) que está em depressão após o término com sua namorada Louise (Amanda Seyfried). Quando ele conhece a misteriosa forasteira Anna (Charlize Theron), ela concorda em treiná-lo para ser um exímio pistoleiro, desafiando o novo companheiro de Louise (Neil Patrick Harris) para um duelo.

Primeiramente, vamos só enfatizar o quão idiota e equivocado é esse título nacional: “Pegar na pistola”. Sério mesmo? O próprio protagonista diz em certo ponto que existem “um milhão de maneiras de morrer no Oeste”, e essa é a principal questão do filme, não as diferentes maneiras que existem de se sacar um revólver. Bom, elefante da sala removido, meu problema como o filme transcende o título. Seth MacFarlane não sabia que tipo de filme estava fazendo; é uma comédia, mas também acaba se levando a sério nos momentos errados, como a repentina perseguição de cavalos pelo deserto. Minha teoria é a de que MacFarlane tivesse ficado tão impressionado com as belas imagens capturadas (e são realmente belíssimas) que resolveu fazer algo épico, nem um pouco a ver com sua proposta inicial. Vejam por exemplo Anjos da Lei 2, que aposta em diversas cenas de ação, mas jamais se esquecesse do gênero em que está.

O roteiro assinado por MacFarlane, Alec Sulkin e Wellesley Wild (mesma trinca responsável por Ted) acerta ao tornar o universo e seus personagens completamente anacrônicos, utilizando termos e dialetos que jamais estariam no Velho Oeste, mas sim nos dias atuais. Tal artíficio quase transforma o filme em um desenho animado, que também se traduz nos figurinos simplórios (mocinho usa core mais claras, vilão usa só preto, etc) e no design de produção cartunesco, marcado também por diversos cenários pintados e em greenscreen. A verdade é que MacFarlane parece mais fã de De Volta Para o Futuro: Parte III do que os clássicos do faroeste, já que muitas viradas e situações no roteiro – além da própria trilha sonora de Joel McNeely – lembram muito as do filme de Robert Zemeckis, além de trazer uma saudosa participação especial. Aliás, participações especiais são o que o filme tem de melhor.

O elenco também se sai bem. Especialmente Charlize Theron, que oferece uma construção agradável para sua pistoleira Anna: é ao mesmo tempo destemida e durona, mas também dócil e nada modesta em relação a seus atributos (“Eu tenho peitos incríveis, óbvio”). Já Seth MacFarlane revela-se melhor dublador do que ator, ainda que seu sarcasmo seja bem colocado. E se Liam Neeson como herói durão já é o suficiente para comprar um ingresso, vê-lo como um vilão genérico é bem divertido.

Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola impressiona pela quantidade de trabalho técnico e visual dedicados a uma comédia, mas não faz bonito naquilo que seria sua única prioridade: fazer rir, seja na perda de foco ou na insistência em humor barato.

Poxa, alguém aí ainda acha piadas com peido e diarreia tão hilariantes?

Obs: Fiquem durante E depois dos créditos, há uma participação especial imperdível.