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| Divertida Mente | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

InsideOut
Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza

Ao escrever sobre Universidade Monstros em 2013, discorri sobre como a Pixar manteve uma inacreditável série de sucessos consecutivos que caiam nas graças do público e da crítica – geralmente com uma vitória no Oscar como último estágio. Sem entregar algo realmente digno de sua qualidade habitual desde Toy Story 3, em 2010, o estúdio de volta à boa forma com aquele que pode muito bem ser seu melhor trabalho: Divertida Mente.

A trama é concentrada nas emoções da jovem Riley: Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Nojinho (Mindy Kalling), Medo (Bill Hader) e Raiva (Lewis Black). Estas são responsáveis por controlar o humor, as memórias e a personalidade da garota, dentro de sua mente. Quando Riley enfrenta uma dura fase com uma mudança de cidade, nova escola e colegas, o grupo precisa evitar que esta sucumba a uma depressão.

Só pela premissa já é possível prever que a Pixar almeja por temas mais maduros aqui. Pete Docter (Monstros S.A. e Up: Altas Aventuras) e o co-diretor Ronaldo Del Carmen optam por uma animação com traços mais realistas e orgânicos para suas criações humanas (bem diferentes daqueles vistos em Os Incríveis, por exemplo), e o roteiro assinado por Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley mergulha fundo na psique humana e cria um universo riquíssimo e original, onde ideias e memórias são representadas visualmente através de ilhas, labirintos e grandes desfiladeiros – trazendo à memória os trabalhos de David Lynch (como a brilhante sequência do pensamento abstrato), Tudo o que Você Sempre quis Saber sobre Sexo E tinha Medo de Perguntar (na própria representação de elementos emotivos como figuras físicas) e até A Origem (os labirintos, as grandes construções e o onírico).

Todo o sistema no qual os personagens interagem e se manifestam (até na distribuição de cores, com Raiva assumindo o vermelho e Alegria um forte tom de amarelo) funciona sem se perder na complexidade que certamente deixaria algumas crianças mais confusas. Logo na memorável primeira cena, aprendemos sem nenhuma linha de diálogo como cada emoção reveza a função na “Sala de Comando” e como os elementos inconscientes podem ser afetados por, por exemplo, a protagonista cair no sono – como o Trem do Pensamento. Também encontramos divertidas soluções dos roteiristas para fenômenos comum, tal como uma vinheta antiga que subitamente invade a memória e não sai dali ou a brilhante abordagem à produção de sonhos.

Mesmo que mais maduro do que poderíamos esperar, o filme ainda é uma aventura empolgante com emoções genuínas. É hilário quando necessita (muito se deve a um personagem colorido que prefiro deixar como surpresa) e também emocionante e catártico quando a história avança por terrenos mais complexos, de uma forma que há tempos o estúdio não era capaz de entregar. O inteligente roteiro também é ousado por manter Alegria e Tristeza juntos a maior parte do tempo, ilustrando de uma forma honesta e simples como as duas precisam uma da outra para coexistir, e não numa relação de antagonismo; residindo aí o grande trunfo da produção. E vale apontar que, depois do razoável Tomorrowland e do esquecível Jurassic World, Michael Giacchino enfim traz um grande trabalho este ano com a maravilhosa trilha sonora.

Engraçado, poderoso e completamente imaginativo, Divertida Mente representa o renascimento da Pixar de suas cinzas, finalmente recuperando seu alto posto com uma narrativa corajosa e envolvente. Ah, como é bom estar de volta…

Obs: Fique durante os créditos finais, vale muito a pena.

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| Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , on 4 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

Tomorrowland
A ótima Britt Roberston é Casey Newton

Quando fiquei sabendo do conceito de Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (ufa, título longo) pela primeira vez, logo bateu uma fadiga. Mais uma aventura – Disney – fantasiosa que gira em torno de um lugar mágico que só pode ser acessado por um jovem idealista e corajoso… Blá blá blá. Não fosse a presença do grande Brad Bird na direção, eu provavelmente o teria evitado.

A trama começa quando o jovem Frank Walker (Thomas Robinson, e George Clooney em fase adulta) descobre a utópica Tomorrowland em uma convenção para inventores na, claro, Disneyland. Anos depois, a jovem prodígio Casey Newton (Britt Roberston) começa a receber pistas da existência do local, graças a um pin que lhe foi concedido pela misteriosa Athena (Raffey Cassidy). Curiosa, Britt recorre ao velho Frank a fim de encontrar uma forma de retornar.

Este é o segundo filme live action de Brad Bird, que já havia comandado o ótimo Missão: Impossível – Protocolo Fantasma e as exemplares animações O Gigante de FerroRatatouilleOs Incríveis. Fica evidente que o cara tem talento, e este mesmo que consegue transformar boa parte de Tomorrowland em um filme muito agradável. Bird tem uma câmera inventiva e comanda sequências de ação que sabem muito bem como explorar o humor e objetos de cena (a fuga da casa de Frank é um grande exemplo de uso de props), chegando a impressionar quando embarca em um longo plano sequência que acompanha a primeira visita de Casey em Tomorrowland. Ah, agradeça também à trilha fantástica de Michael Giacchino.

Bird também co-assina o roteiro com Damon Lindelof, e é aí que as coisas começam a desandar. A forte presença simbólica de grandes gênios como Thomas Edison, Nikola Tesla e até o próprio Walt Disney são interessantes, explicando que estes teriam se unido para criar a utopia que da nome ao filme. É uma moral bonita e inspiradora, a de que o futuro pode sim ser otimista e que está nas mãos daqueles que ousarem sonhar com algo diferente, mas acaba tornando-se idealista demais (a sequência de cenas em que Casey desesperadamente tenta chamar a atenção de seus professores pessimistas é digna de um desenho animado, de tão caricata), além de diversas vezes me parecer como se os executivos da Disney estivessem testando ideias para novas atrações de seus parques temáticos.

E se você tremeu quando ouviu o nome de Lindelof, sinto dizer-lhes que ele ataca novamente. O roteirista certamente é muito bom para criar premissas instigantes (“Inventaram algo que não deveriam”, promete o clima de suspense durante a primeira metade do longa), mas decepcionante quando nos revela as respostas. Aqui, todas as boas realizações de Bird são estragadas em um terceiro ato risível que encontra num desperdiçado Hugh Laurie seu antagonista, e seus motivos (e pior, a solução dos heróis) confusos e vazios – ainda que soem minimamente interessantes no papel. E nada legal tentar explorar a capacidade de um robô de amar logo no final do filme, mesmo que a jovem Raffey Cassidy seja imensamente carismática; assim como Britt Roberston, que rouba completamente a cena de George Clooney, mesmo que este surja bem como de costume.

Pensar que Brad Bird trocou o novo Star Wars para fazer Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível é espantoso, porém compreensível. Temos aqui uma obra capaz de divertir e até provocar um efeito positivo, mas que é prejudicada por excesso de confiança e moralismo, desabando em sua errática conclusão.

Obs: Falei de Star Wars? Bird praticamente dirige uma cena do novo filme ao trazer diversos brinquedos da saga de forma NADA sutil em uma sequência de briga.

Obs II: Bird, obrigado por não nos fazer engolir um 3D convertido.

| Os Incríveis | Crítica de 10 Anos

Posted in Aniversário, Aventura, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de março de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

TheIncredibles
Flecha, Violet, Sr. Incrível, Mulher-Elástica e Zezé

Com o anúncio de que a Pixar está desenvolvendo com Brad Bird uma continuação para o sucesso Os Incríveis, resolvi revisitar o filme pela primeira vez em aproximadamente 6 anos. E, contagiado pela absurda dose de energia e emoção desta sensacional animação, minha única alternativa para contê-la – além de repetir o filme algumas vezes e não calar a boca sobre entre colegas – foi escrever esta breve crítica.

A trama é ambientada em um mundo onde os super-heróis, após inúmeras questões legais com a população, foram proibidos e escondidos pelo governo. Nesse cenário, o aposentado Robert Perr (voz original de Craig T. Nelson) sustenta uma família de três crianças com a esposa Helen (Helen Hunt), e é constantemente assombrado pela nostalgia dos tempos de glória. Quando um misterioso empregador requisita seus serviços, ele resolve voltar à ação.

Qualquer um com um mínimo conhecimento de quadrinhos pode reconhecer a influência esmagadora de Watchmen, lendária graphic novel de Alan Moore que seria adaptada para o cinema 5 anos após o filme da Pixar. E não deixa de ser irônico como Brad Bird conseguiu fazer melhor uso do material do que o próprio Zack Snyder em seu longa de 2009, já que seu foco de estudo reside em sua humanidade – ainda que seus personagens sejam seres fantásticos e enfrentem situações absurdas. Seja uma mãe que se faz como escudo em uma desesperada tentativa de salvar seus filhos de uma explosão, uma jovem abraçando os poderes que sempre recusou para proteger seu irmão caçula de uma rajada de balas ou um vilão buscando um mero reconhecimento após uma incrível rejeição na infância. Bird se sai bem melhor do que Snyder nesse quesito, que fez seu Watchmen mais centrado para a ação.

Não que Os Incríveis abra a mão do espetáculo, elemento que Bird domina magistralmente ao longo da projeção; algo que também exploraria bem no live action com o eficiente Missão: Impossível – Protocolo Fantasma. Ao som da espetacular trilha sonora de Michael Giacchino, a cena em que o caçula Flecha protagoniza uma eletrizante perseguição em alta-velocidade permanece uma das mais antológicas cenas de ação dos últimos anos, enquanto a batalha final contra o “Omnidroide” em um centro urbano é um ótimo exemplo de como se organizar uma sequência do tipo (palmas para o montador Stephen Schaffer) e distribuir diferentes funções para explorar as habilidades dos personagens.

Sem falar também que o filme é divertido pra cacete. As piadas com os clichês do gênero (monólogos do vilão, o problema das capas) são perfeitamente bem inseridas (É, Marvel Studios, você mesmo) e garantem um tom agradável para todas as idades. Ah, e Edna Moda (dublada pelo próprio Bird), como não ao menos mencionar a hilária estilista.

Os Incríveis é meu filme preferido da Pixar, e sem dúvidas um dos melhores filmes de super-heróis já feitos. Revisitando-o uma década após seu lançamento, vejo que ainda há muito o que se aprender dentro do gênero, e como este – salvas algumas belas exceções – tem se tornado cada vez mais complicado. Só espero que Brad Bird faça jus à seu trabalho genial na vindoura sequência.