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| 12 Anos de Escravidão | Steve McQueen coloca a escravidão sob lentes viscerais

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 7 de fevereiro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

12YearsaSlave
Michael Fassbender ameaça Chiwetel Ejifor: tensão interminável

A escravidão é uma das mais profundas e vergonhosas feridas que os EUA trazem em sua História. No cinema, é possível encontrarmos o sombrio período do século XIX de forma alentadora, que de certa forma idealize a luta de homens brancos para lhes garantir liberdade (como Lincoln, de Steven Spielberg) ou versões satíricas como Django Livre, de Quentin Tarantino. Agora, filmes como 12 Anos de Escravidão não aparecem todo ano. Brutal, violento e provavelmente acertado em sua apuração histórica, o filme de Steve McQueen pega o gênero e lhe oferece uma visão devastadora e – infelizmente – verdadeira.

Baseada na experiência real relatada no livro de Solomon Northup (vivido aqui por Chiwetel Ejifor), o roteiro de John Ridley explora como um homem negro e livre foi sequestrado em Washington e vendido para a escravidão ilegalmente no sul dos EUA. Durante 12 anos, Northup sofreu nas mãos de fazendeiros cruéis e lutou por sua sobrevivência.

Se até hoje você não conhece o nome de Steve McQueen (sem contar o famoso ator, claro), está na hora de fazer aquela visita básica ao IMDB. O diretor britânico entrega seu terceiro trabalho com 12 Anos de Escravidão, após os ótimos Hunger e Shame, duas produções que compartilham histórias humanas trágicas, trabalho visual apurado e um Michael Fassbender surtado (aqui, dando medo na pele do violento fazendeiro Edwin Epps). A partir do excelente roteiro de Ridley, McQueen não se acanha ao apostar em cenas que relatam a violência brutal a que eram submetidos os escravos de plantações: seja nos temerosos açoitamentos (um plano sequência que rende a cena mais intensa do filme), agressões verbais ou “mero” desprezo por sua dignidade – todos estes surgindo ainda mais aterradores em cena graças à trilha sonora de Hans Zimmer, que revela uma nova faceta de suas habilidades como compositor.

Mas talvez o que mais chame a atenção no projeto seja seu protagonista forte e incomum para o gênero: o Solomon Northup de Chiwetel Ejifor não é um sujeito nascido escravo, e sim um homem livre com todos os benefícios e gozos de alguém de sua posição que, inesperadamente, encontra-se na situação de total submissão. Essa característica rende alguns dos melhores momentos do longa, quando o excelente Ejifor questiona as ordens de seus mestre e oferece respostas grosseiras para julgamentos injustos (“Fiz o que me foi instruído. Se deu errado, o problema é com a sua instrução”, solta para o desprezível personagem de Paul Dano). O ator surge completamente perdido no personagem, seu desejo de sobrevivência evidente a cada frame; o que de certa forma se manifesta de forma derrotista na trágica Patsey de Lupita Nyong’o, escrava predileta de Epps que tem pouco tempo em cena, mas vale cada segundo de sua esforçada performance.

Vale apontar também as “participações de luxo” que o filme traz. Temos Paul Giamatti como um negociante de escravos, Benedict Cumberbatch como um dos únicos sujeitos decentes de toda a projeção, a jovem Quvenzhané Wallis (protagonista de Indomável Sonhadora) como uma das filhas de Solomon e o produtor Brad Pitt encarnando um sujeito de ares “proféticos” que desempenha importantíssimo papel aqui.

Excepcional também em seus valores de produção, 12 Anos de Escravidão é uma experiência difícil e pesada. Corajosamente pega um dos gêneros mais delicados do cinema norte-americano e oferece um tratamento visceral e que certamente será lembrado por anos, não só por sua brutalidade, mas também pela força de seu impecável protagonista e o emocionante desfecho de sua dura jornada.

Obs: Esta crítica foi publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 6 de Fevereiro,

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| Os Suspeitos | O tipo de thriller que nos faz ir ao cinema

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

Prisoners
Hugh Jackman larga as garras do Wolverine para mais um papel dramático

Lá pela metade de Os Suspeitos (que não, não tem nada a ver com o filme de Bryan Singer), eu percebi que estava me sentindo mal. Angustiado, tenso e extremamente ansioso pelo desfecho da história e os dilemas torturantes enfrentados pelas figuras problemáticas e envolventes criadas pelo texto de Aaron Guzikowski, também me toquei de que estava diante de um genuíno thriller, um que claramente compreendia os elementos que tornam o gênero tão fascinante – e perturbador.

A trama é ambientada numa pequena região da Pensilvânia, tendo início quando as filhas de dois casais diferentes (um formado por Hugh Jackman e Maria Bello, e o outro, por Terrence Howard e Viola Davis) repentinamente desaparecem. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal) é convocado para tocar a investigação, que acaba levando-o até o misterioso Alex Jones (Paul Dano). Mas à medida em que o caso começa a revelar-se cada vez mais complexo, Loki ainda precisa lidar com o perigoso desejo de justiça de um dos pais.

Sob o comando do canadense Denis Villeneuve (responsável pelo premiado Incêndios), Os Suspeitos pega o espectador pela garganta e não solta até o momento em que os créditos começam a subir, mesmo que a projeção se extenda por 2h30. Parte disso se deve ao eficiente trabalho do diretor, ao lado do diretor de fotografia Roger Deakins (ainda sem Oscar, como, como?), em criar uma atmosfera pesada e sombria; daí a constante presença de chuvas, neve e um céu predominantemente nublado que esbanja melancolia graças às frias paletas de cor usadas por Deakins. É o cenário perfeito para que Villeneuve desenvolva uma perfeita história de detetive concebida pelo roteirista, que contém reviravoltas impactantes e planta diversas pistas (que podem passar despercebidas para o espectador menos observador) importantes e, à primeira vista, irrelevantes ao longo da projeção.

Além da angustiante e detalhista investigação, é interessante observar a tragédia humana que se manifesta nas famílias enquanto esperam pelo reencontro com suas filhas desaparecidas. Em uma performance intensa e explosiva, Hugh Jackman continua impressionando com sua carga dramática ao interpretar o impulsivo Keller, que acaba por “fazer justiça” com as próprias mãos ao perseguir o personagem de Paul Dano (outro grande ator que ainda carece de um papel que lhe permita explorar seu potencial). Mas quem realmente se destaca é Jake Gyllenhaal e seu detetive Loki (nenhuma ligação com o irmão do Thor, só pra constar), que ganha um retrato cuidadoso do ator – reparem no tique do piscar de olhos que Gyllenhaal manifesta com frequência -, contrastando radicalmente com a persona selvagem de Keller ao optar por uma voz predominantemente calma.

Os Suspeitos não vai mudar a história do gênero, tampouco se destacará como um marco nele, mas segue as regras com competência e extrai o melhor de sua proposta, sendo capaz de mandar o espectador para casa ainda brincando com as peças do quebra-cabeças. E convenhamos, não é esse o tipo de thriller de investigação que vale o nosso dinheiro?

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