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| RoboCop | José Padilha faz o Policial do Futuro do seu jeito

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de março de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

robocopp
Farda preta? O novo RoboCop segue a linha do Cavaleiro das Trevas

Se um brasileiro dirigir um filme em Hollywood já é arriscado, imaginem então um brasileiro dirigindo um blockbuster de 200 milhões de dólares em Hollywood – que, além disso, é também um remake de um cult americano. A sorte de José Padilha foi que a Sony decidiu lançar seu RoboCop no começo do ano, evitando-o de bater de frente com as grandes produções do verão dos EUA. Mas sorte mesmo é de quem conseguiu enxergar o que este novo filme de fato é: uma inteligente e bem-executada reinvenção do original.

A trama mantém a premissa e estrutura do filme de 1987, ambientando-se em uma violenta Detroit de 2029. O governo americano estuda as possibilidades da implantação de inteligência artificial para o policiamento das cidades, enquanto a empresa Omnicorp busca uma forma de ganhar a aprovação do público. A resposta vem na forma do detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman), que após sofrer um atentado mortal, tem seu corpo e mente fundidos a uma máquina inteligente.

Confesso que temia pelo resultado. A impressão que me assombrava antes de conferir o filme era a de que Padilha fosse ficar à mercê dos produtores e transformar o novo longa do Policial do Futuro em uma sucessão de cenas de ação, efeitos visuais e praticamente tudo o que faz um remake ruim (todo tipo de blockbuster, na verdade). Do início ao fim, fica claro que o brasileiro tinha total controle sobre o projeto. Em muitos aspectos, é um trabalho bastante similar a Tropa de Elite 2: a influência da mídia sensacionalista, a luta da polícia em departamentos além de sua autoridade e os esquemas sujos organizados por grandes corporações. Adicione à equação uma bem formulada discussão a respeito da robótica e a Ética desta com a humanidade, e temos o novo RoboCop.

Acho até compreensível que o resultado do filme nos EUA não tenha sido arrasador em termos econômicos, afinal, este passa longe de ser um filme de ação. Quando presentes, agradam pela boa condução (especialmente a montagem de Daniel Rezende e Peter McNulty), mas empalidecem diante do excelente roteiro do estreante Joshua Zetumer, que não só oferece uma temática apropriada, como também povoa a história com personagens expressivos para discutí-los. Gary Oldman, Michael Keaton e Samuel L. Jackson surgem todos impecáveis em seus distintos papéis (a ética científica, a megalomania empresarial e Datena… Quer dizer, a mídia tendenciosa) e Padilha consegue aproveitar  ao máximo o talento de cada um e distribuir-lhes tempo de cena apropriados.

A questão humana também domina grande parte da narrativa. Os confrontos internos entre o Alex humano e o Alex máquina são interessantíssimos de se analisar, rendendo grandes momentos (o primeiro reencontro do protagonista com seu filho é de dar nó na garganta) e oportunidades para que o diretor brinque com as expectativas do público. Seria impossível um exemplo tão eficiente quanto a sequência que se segue após a aprovação do tratamento de Alex após seu acidente, que traz uma legenda indicando “3 meses depois” e a família Murphy se divertindo ao som de Frank Sinatra – oferecendo a falsa ilusão de que Alex teria se recuperado milagrosamente  -, apenas para nos revelar ser um sonho do protagonista.

Não é como o filme de Paul Verhoeven (confesso que é decepcionante ver o icônico ED-209 sendo resumido a mero “chefe de fase”), mas o RoboCop de José Padilha é perfeitamente capaz de se sustentar sozinho. Oferece um sustento filosófico e sociológico que raramente encontramos em produções hollywoodianas desse porte, quase deixando a ação de lado no processo. No fim, José Padilha fez o filme que quis.

E eu agradeço.

| O Vingador do Futuro | Vejam só como minha esposa é gostosa!

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2012, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , on 18 de agosto de 2012 by Lucas Nascimento

Rekall Total: Colin Farrell iniciará uma nova vida

Ser cinéfilo jovem na sociedade atual traz um dilema curioso quanto à remakes: assistir o novo ou o original primeiro? É certo que cada obra é um reflexo de sua época, mas sempre busquei a primeira opção. Com O Vingador do Futuro optei por encará-lo como um longa novo, sem assistir ao filme dirigido por Paul Verhoeven, e o resultado foi medíocre de qualquer forma.

A trama é inspirada pelo conto We Can Remember It for You Wholesale de Phillip K. Dick, e traz um futuro distópico/cyberpunk onde o operário Doug Quaid (Colin Farrell) sofre com sonhos misteriosos e um crescente sentimento de inutilidade. Sua vida é radicalmente alterada quando este se envolve no programa Rekall, que fornece memórias ao gosto de seu cliente. Acho que seria spoiler revelar mais do que isso.

Primeiramente, já entrei na sessão do filme receioso ao saber que Len Wiseman comandaria o projeto. O medíocre diretor da franquia Anjos da Noite (e também de Duro de Matar 4.0, seu único acerto) continua mostrando-se um “cineasta” descontrolado e previsível, decepcionando até nas monótonas cenas de ação (reparem que em todas elas, em algum ponto, um dos personagens salta dramaticamente de um nível mais alto até atingir o solo). Wiseman também é muito orgulhoso de seu casamento com Kate Beckinsale, já que insere diversos planos com o posterior da atriz como, se quisesse dizer: “Vejam só como minha esposa é gostosa!”.

E é lamentável ver (pela enésima vez) o belo design de produção do filme ser desperdiçado. Os cenários de Patrick Tatopoulos tomam referências de Blade Runner ao retratar a decadência da Colônia (constantemente castigada pela chuva, como no filme de Ridley Scott) e da estética clean de Minority Report e Eu, Robô nos arranha-céus e veículos da F.U.B. O resultado fica espetacular na tela, mas a fotografia de Paul Cameron exagera nos flares (alguém, por favor,  me explique a função narrativa dessas luzes inúteis).

Quanto à história, basta dizer que ela poderia ser melhor se ousasse mais. Lembrando mais uma vez de que não assisti ao filme original, mas este parece mais um A Identidade Bourne futurista, com um agente secreto (!) incrivelmente bem treinado (!!) lutando para descobrir seu passado (!!!). Por um breve momento o longa poderia ter seguido um caminho muito interessante, quando Doug questiona se o que está acontecendo é de fato realidade ou uma fantasia proporcionada pelo Rekall. Os roteiristas poderiam ter entrado na questão da ambiguidade, mas isso requeriria que o espectador usasse mais de sua inteligência, que consequentemente, notaria a exiguidade da trama.

Trazendo um elenco que funciona (mas que não surpreende), O Vingador do Futuro teria sido fascinante se recorresse mais à ficção científica do que às genéricas cenas de ação. O lado positivo é que provavelmente aproveitarei mais o filme com Arnold Schwarzenegger, já que não pode ser pior do que a nova versão.

Obs: Nunca entendi esse título nacional… Não acham que “Total Rekall” seria mais divertido?