Arquivo para personagens

| Antes da Meia-Noite | Uma última visita ao mais espontâneo casal do cinema moderno

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , on 20 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

BeforeMidnight
Química explosiva: Julie Delpy e Ethan Hawke voltam para mais longas conversas e caminhadas

Eu nunca havia assistido os primeiros exemplares da trilogia de Richard Linklater sobre os encontros e desencontros de um casal apaixonado que conversa praticamente durante toda a projeção. Acontece que Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol (lançados, respectivamente, em 1995 e 2004) são dois dos mais belos e apaixonantes filmes de romance que já tive o prazer de conhecer, e sua terceira parte, Antes da Meia-Noite, representa a lógica evolução da saga de seus personagens.

A trama se passa (como de costume) nove anos desde o último encontro entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), com os dois mantendo uma relação estável e filhas gêmeas. De férias na Grécia, o casal trava mais diálogos longos sobre o amor e acabam descobrindo divergências no estágio atual de seu relacionamento – principalmente pela tristeza de Jesse em ficar afastado de seu filho do casamento anterior e a tentadora oferta de trabalho oferecida a Celine.

É difícil falar sobre Antes da Meia-Noite sem entrar em detalhes muito grandes, afinal – assim como em seus antecessores – Linklater opta por longuíssimos planos que temos o casal de protagonistas conversando sobre diversos assuntos, onde o prazer encontra-se na observação. Não apenas impressiona a qualidade do texto (que aqui consegue passar sobre temas como a morte, o avanço da tecnologia nas relações sociais e até o papel do governo com o meio ambiente), mas a naturalidade esbanjada por Hawke e Delpy ao proferi-los. Dezoito anos após o primeiro filme e os dois permanecem os mesmos (percebam o sutil detalhe da capa de celular de Celine, um daqueles modelos que traz o desenho de uma fita de música, que combina perfeitamente com seu estilo alternativo) ainda que demonstrem um perceptível envelhecimento – e o fato de ambos zombarem dessas transformações físicas constantemente acrescenta mais verossimilhança (e afeto) à relação.

E se os personagens e a dialética permanecem iguais, este terceiro filme é radicalmente diferente dos anteriores à sua forma. A começar pela presença de vários coadjuvantes que participam das conversas dos protagonistas (como bem se lembra, Amanhecer e Pôr-do-Sol traziam Jesse e Celine dominando praticamente cada minuto do filme juntos), o que é fundamental para alcançar um desenvolvimento maior em assuntos mais robuscados, como a discussão acerca do papel da tecnologia em uma relação, ou em uma eficiente forma de mostrar os diferentes “lados” dos protagonistas. Outro fator inédito é a ausência de um elemento delimitador de tempo: Jesse não tem um voo marcado dessa vez, o que inova a proposta da franquia ao substituir o conceito de “rápido caso amoroso” por um amadurecimento por parte de seus personagens e realizadores. Jesse e Celine começam a enfrentar brigas e conflitos que chocam; mas todos com a mesma inteligência e sentimento de seus habituais diálogos.

Antes da Meia-Noite vem para contestar que mesmo as mais perfeitas relações amorosas se deparam com inevitáveis desgastes e divergências. Jesse e Celine já não têm mais aquela áurea de contos de fadas, e Richard Linklater os transporta para um mundo mais real e com o qual certamente muitos podem se identificar . E aí, será que em nove anos encontraremos essas figuras apaixonantes novamente?

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| O Grande Gatsby | Baz Luhrmann apresenta o Fitzgerald Extravaganza

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 4 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

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Old Sport: Leonardo DiCaprio é o Jay Gatsby definitivo

Considerado por muitos um dos “grande romances americanos”, O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald é uma obra requintada que se desenrola com uma sutileza ímpar. Baz Luhrmann, diretor desta glamourosa nova versão, jamais foi conhecido por sua sutileza (afinal, estamos falando do responsável por Romeu + Julieta e Austrália). Pode se dizer que o australiano é uma das pessoas menos indicadas para comandar a história, mas seu estilo grandiloquente – ainda que seja prejudicial em certos momentos – encontra espaço aqui.

A trama é ambientada na Nova York dos anos 2o (período popularmente conhecido como “Era do Jazz”, ou “Geração Perdida” para os menos saudosistas), centrando-se no aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire). Enquanto recupera-se em um sanatório, Carraway compartilha por escrito suas experiências em meio a alta classe social e o mistério em torno do milionário Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), sujeito que esconde uma indestrutível paixão pela casada Daisy Buchanan (Carey Mulligan).

Década de 20 e, ainda assim, temos Jay-Z e Beyoncé na trilha sonora. Muitos críticos estrangeiros apontaram o dedo para a abordagem pop de Luhrmann à história, mas ao meu ver ela pontua com eficiência o clima de exaltação e festa da época – basta lembrar do Gatsby de 1974, com Robert Redford, que era silencioso demais para simbolizar algo como a Era do Jazz. É certo que a obra de Fitzgerald não é tão “aberta” quanto a direção de Luhrmann, que mais de uma vez pára para explicar detalhes que funcionavam por si só de forma sutil (três vezes, e por três personagens diferentes, é explicado o motivo pelas festas grandiosas do protagonista) e momentos mais agitados – ainda que um certo atropelamento seja tão memorável justamente por sua execução escandalosa e a escolha musical.

Também elogio Luhrmann por compreender a importância da luz verde na trama, transformando-a em um poderoso elemento visual e eficiente instrumento narrativo. O cais de Gatsby surge como abertura e encerramento do longa, como se o espectador realmente tivesse entrado e saído daquele universo. É interessante observar que, mesmo tendo sua amada Daisy em seus braços, o personagem continua a contemplar a luz esverdeada irradiando do outro lado da costa. Uma observação sutil que revela uma camada ainda mais complexa de Gatsby, que Leonardo DiCaprio consegue incorporar bem em uma performance multifacetada: seu Gatsby é ambicioso, mas vulnerável; otimista, mas impaciente.

TheGreatGatsby
O figurino vermelho de Isla Fisher contrasta com a tonalidade de seu lar

Impossível não falar sobre o impecável trabalho da figurinista e designer de produção Catherine Martin (que além de tudo isso, ainda é produtora e esposa do diretor). Vencedora de 2 Oscars por suas colaborações com Luhrmann, deve retornar à premiação por recriar fielmente locações e vestimentas da época e ainda oferecer-lhes um toque moderno: o vermelho burlesco predomina na caracterização da Myrtle Wilson de Isla Fisher, o que a torna uma figura assustadoramente contrastante com o cinza escuro e sujo de seu marido e a região onde habitam. A fotografia de Simon Duggan também se adequa com obediência às demandas narrativas, além da facilitar o elegante 3D do filme – que, curiosamente, fica mais profundo graças à artificialidade do greenscreen.

Mas se a artificialidade é um acerto nesse sentido, é o que o filme traz de pior quando analisamos seu roteiro e execução. Em diversos momentos, o filme assume uma postura maniqueísta diante de alguns personagens (o mecânico vivido por Jason Clarke ganha aqui um tratamento de monstro, e o ator nada pode fazer para torná-lo tridimensional) e faz uso. Apostando em velocidade, os montadores insistem em picotar até os mais simples diálogos com uma série de cortes que dificulta a fluência da cena e o desenvolvimento das ações; vide a conversa entre Nick e Gatsby no Rolls Royce amarelo, que surge como uma “metralhadora” de informações e ainda tornam evidentes algumas falhas na mixagem sonora daquele momento – e o que dizer da cena que tenta equilibrar uma conversa silenciosa com uma festa gigantesca?

Filme que certamente merece maior reconhecimento do que a de 1974, O Grande Gatsby impressiona pela produção e os experimentos visuais de Baz Luhrmann (com exceção dos embaraçosos textos sobre a tela). Mesmo que essa exuberância seja também um de seus deméritos, é uma adaptação que ao menos se arrisca a ser algo mais do que o básico. Afinal, de que adianta ser convencional em sua sexta adaptação para o cinema?

Obs: Mesmo que não tragam nada de significante, os créditos finais merecem ser vistos graças ao uso da canção “Together”, do The XX, que oferece um impacto maior após a conclusão do filme. Acredite, vale a pena.

Obs II: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme em São Paulo, no dia 27 de Maio.

Perseguindo a Luz Verde | Especial O GRANDE GATSBY

Posted in Especiais with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 3 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

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Um dos grandes clássicos da literatura americana ganha sua mais luxuosa (e melhor?) versão para as telonas. Baz Luhrmann traz uma pegaada pop e inovadora para O Grande Gatsby, e preparei este especial para analisar a produção e o impacto geral da obra – além de outras curiosidades que geralmente encontro. Vamos lá, old sport:

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Uma brevíssima olhada sobre a importância e significado do romance O Grande Gatsby

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A capa original do romance de 1925, pela Scribner’s

Escrito pelo americano Francis Scott Fitzgerald em 1925, O Grande Gatsby é considerada uma das melhores obras literárias de todos os tempos – e é vista como “um dos Grandes Romances Americanos” do Século XX. O livro ainda é leitura obrigatória em diversas escolas dos EUA e tema de análises que se extendem até hoje, sendo possido delimitar seus temas em dois tópicos principais: o sonho americano e a perseguição ao passado.

Ná época em que todos seguiam o “american way of life”, os EUA seguiam um ritmo festeiro que ficou conhecido como Era do Jazz – graças, também, à ascenção do estilo musical. O que os estudiosos em literatura apontaram, é como Fitzgerald captura o vazio na alta classe (Gatsby só dá todas as enormes festas para atrair seu amor perdido, perseguindo uma memória) e meio que “prevê” a quebra da bolsa de valores em 1929.

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A luz verde: símbolo da ambição de Gatsby, do passado

Mas o que realmente me faz identificar com a trama (afinal, não sou estadunidense nem vivi na década de 20), é a questão do passado. Gatsby quer que quer recuperar os tempos gloriosos que passou com Daisy, é obcecado em alcançar a luz verde no fim do cais. É um desejo tão poderoso que o cega da realidade que habita.

O sentido vai além disso, então deixo aqui a mais poderosa escrita do livro para vocês tirarem suas próprias ideias:

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente. Ele nos escapara então, mas isso não importava – amanhã correremos mais rápido, estenderemos mais adiante nossos braços… E numa bela manhã –

E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.

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Quem são os jogadores na Geração Perdida de Fitzgerald:

Jay Gatsby | Leonardo DiCaprio

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Veterano da Primeira Guerra Mundial, o misterioso Jay Gatsby mudou sua vida ao abandonar seu passado de pobre para se tornar um poderoso milionário, mas com ligações suspeitas com a máfia de Nova York.  Na esperança de reencontrar seu amor perdido, ele administra uma série de festas gigantescas em sua luxuosa propriedade no West Egg da cidade, na imortal esperança de que um dia Daisy Buchanan apareça.

Daisy Buchanan | Carey Mulligan

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Daisy conheceu Jay Gatsby anos atrás, durante a guerra, e tornaram-se amantes até o momento em que este foi forçado a abandoná-la. Anos depois, ela está casada com o ricaço Tom Buchanan e mãe de duas filhas na propriedade de East Egg. Não demora para que ela reinicie seu romance com Gatsby quando os dois se reencontram, mas a moça encontra-se pressionada por seus dois amantes.

Nick Carraway | Tobey Maguire

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Aspirante a escritor, Nick Carraway viaja para Nova York a fim de encontrar conexões de negócios. Se instalando no West Egg, ele aluga uma casa vizinha à mansão de Jay Gatsby e logo torna-se amigo do milionário, já que possui algo de seu interesse: é primo de Daisy Buchanan, e também servirá de ligação entre os dois. Carraway é o narrador da história e, no filme de Baz Luhrmann, escreve os eventos em um sanatório.

Tom Buchanan | Joel Edgerton

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Colega de Nick Carraway e ex-jogador de futebol americano na faculdade, Tom é um sujeito de temperamento explosivo. Casado com Daisy e protetivo em relação a ela, esconde uma relação extra-conjugal com a esposa de seu colega mecânico, Myrtle. Com a entrada do misterioso Jay Gatsby em seu mundo, ele inicia uma investigação para encontrar os podres do sujeito.

Myrtle Wilson | Isla Fisher

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Presa em um casamento infeliz com o mecânico George Wilson, Myrtle encontra pequenos momentos de felicidade ao encontrar seu amante Tom na cidade. Mantendo um apartamento escondido com este, ela espera embarcar em uma vida de maior glamour.

George Wilson | Jason Clarke

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Um dos menores personagens da trama, é um mecânico proprietário de uma pequena oficina na cidade. Tem um casamento infeliz com sua esposa Myrtle, e nem desconfia do adultério. Fiquem de olho, ele será muito importante na resolução da história.

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Uma breve análise sobre a trilha sonora pop do filme:

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Tobey Maguire e Elizabeth Debicki curtem a balada do Gatsby

Em maio do ano passado, surgia o primeiro trailer de O Grande Gatsby. Além das belas imagens concebidas pelo diretor Baz Luhrmann, chamou muito à atenção a opção musical para embalar a prévia: uma canção pop de Jay-Z e Kanye West (No Church in the Wild) e outra rock de Jack White (em um cover de “Love is Blindness, do U2). Esse era apenas o passo inicial para a gigante coletânea que Luhrmann preparara para seu filme, uma das mais aguardadas dos últimos anos.

A história de Fitzgerald é ambientada na Nova York dos anos 20, embalada pela famosa “Era do Jazz”. Então, o que Florence + the Machine, Lana Del Rey, Beyoncé e tantos outros estão fazendo aí? A intenção de Baz Luhrmann ao trazer músicas modernas para um longa de época era justamente emular o efeito que o jazz causava nas pessoas, 90 anos atrás (porque, infelizmente, o jazz já não é mais tão popular atualmente).

Atrás do espírito festeiro, Luhrmann aliou-se ao músico Shawn “Jay-Z” Carter para recrutar os grandes talentos musicais da atualidade. Carter serve como produtor executivo do longa e ajudou no processo de gravação do álbum, que traz canções originais, covers e – o mais interessante – mixagens ao estilo jazz de músicas modernas (vide  “Crazy in Love, que recebe saxofones e baterias em sua nova composição). Além do lado mais pop, Craig Armstrong entra para fornecer uma trilha sonora instrumental.

Confira a tracklist do álbum:

100$ Bill – Jay-Z

Quando toca: Gatsby apresenta Nick ao mafioso Meyer Wolfshiem

Back to Black – Beyoncé X André 3000 (Cover de Amy Winehouse)

Quando toca: O Flashback que revela a riqueza de Gatsby

Young and Beautiful – Lana Del Rey

Quando toca: Diversas vezes, a melhor delas, quando Gatsby apresenta sua mansão

Love is Blindness – Jack White

Quando toca: SPOILER, selecione para ler -> Atropelamento de Myrtle

Crazy in Love – Emeli Sandé & The Bryan Ferry Orchestra (Cover de Beyoncé Knowles)

Quando toca: Gatsby enche a casa de Nick com flores

Bang Bang – will.i.am

Quando toca: Primeira música na festa de Gatsby

A Little Party Never Killed Nobody – Fergie, Q-Tip & GoonRock

Quando toca: Segunda música na festa de Gatsby

Love is the Drug – The Bryan Ferry Orchestra

Quando toca: Brevemente, quando um dos personagens liga o rádio

Heart’s a Mess – Gotye

Quando toca: Segunda música nos créditos finais

Where the Wind Blows – Coco O.

Quando toca: Rapidamente, quando Tom encontra Nick e Gatsby em um restaurante

No Church in the Wild – Jay Z & Kanye West

Quando toca: Apresentação dos anos 20

Over the Love – Florence + The Machine

Quando toca: No pós-festa de Gatsby

Together – The XX

Quando toca: Diversas vezes, geralmente quando há menção à luz verde. E nos créditos finais.

Into the Past – Nero

Quando toca: SPOILER, selecione para ler -> Morte do Gatsby

Kill and Run – Sia

Quando toca: Última música durante os créditos finais

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Por que Baz Luhrmann resolveu gravar o filme em 3D?

THE GREAT GATSBY
Os hipster pira: óculos 3D um pouco mais saudosistas

Quando foi anunciada uma nova adaptação para o romance O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, muitos foram intrigados com a presença da tecnologia 3D na realização do projeto. O filme dirigido por Baz Luhrmann é o primeiro da nova leva de estereoscopia que não é utilizada em uma produção fantasiosa ou que apresente explosões e super-heróis.

Logo fica a questão sobre como o 3D, um artifício cujo propósito é diretamente ligado ao espetáculo, se encaixaria num longa ambientado nos anos 20. Bem, não é a primeira vez que o cineasta australiano promove adaptações radicais para obras clássicas (basta lembrar-se de seu ultra pop Romeu + Julieta), e aqui ele pretende fazer uso dos óculos tridimensionais para servir à narrativa. Inspirado pelo trabalho de Alfred Hitchcock em Disque M para Matar, Luhrmann afirmou que o 3D o ajudará na questão do distanciamento humano que a trama tanto prega.

Entrevistado na Cinemacon deste ano, onde exibira as primeiras imagens em 3D do filme, o diretor apostou nas atuações do filme como seu “grande efeito especial”. Ainda na comparação com o filme de Alfred Hitchcock, ele ressaltou a beleza que era apenas observar seu elenco atuando sob os efeitos tridimensionais, fornecidos pelas novas câmeras Red Epic 3Ality 3D rigs.

A presença do 3D em O Grande Gatsby nos faz lembrar o que James Cameron dissera em 2009, quando afirmou que “até mesmo dramas como Juno ficariam melhores no formato”.

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Conheça as versões que a obra de Fitzgerald já ganhou para o cinema:

1926

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Primeira adaptação da obra para o cinema – em plena década de 20, que timing – e também a mais fiel, de acordo com quem assistiu. Infelizmente nós do século XXI só podemos imaginar, já que o rolo de filme do longa encontra-se perdido. A única evidência de imagens é o breve trailer abaixo:

Até o Céu tem Limites (1949)

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Como o filme de 1926 está perdido, pode-se dizer que esta é a versão mais antiga de O Grande Gatsby. Não assisti ao filme, mas ele traz Alan Ladd, Betty Field e Macdonald Carey como o trio protagonista de Gatsby, Daisy e Nick. Curiosamente, o longa de Elliot Nugent chegou ao Brasil com o título Até o Céu tem Limites.

1974

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Certamente a mais popular de todas, o filme de Jack Clayton, com roteiro de Francis Ford Coppola, traz Robert Redford como Gatsby e Mia Farrow como sua amada Daisy. É uma adaptação fiel e que supera a versão de Baz Luhrmann no quesito roteiro, simplesmente por conseguir oferecer maior profundidade aos personagens secundários (como Myrtle e George Wilson). Mas só ganha nessa categoria, pois o filme – apesar da bela produção – desenrola-se com uma lentidão imprópria para algo situado na Era do Jazz.

2000

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Feita como telefilme para a rede A&E, esta versão traz Paul Rudd (quando seu rosto não estava associado apenas às comédias de Judd Apatow) na pele do escritor Nick Carraway e Toby Stephens (que seria o vilão de 007 – Um Novo Dia para Morrer) como o milionário protagonista. É uma boa adaptação, ainda que Stephens não tenha nada do protagonista, portando um sorriso um tanto que maníaco – não é à toa que acabou enfrentando James Bond posteriormente.

G – Triângulo Amoroso (2002)

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Única versão que troca a década de 20 por um período atual, o filme de Christopher Scott Cherot não é uma adaptação assumida da obra de Fitzgerald, mas traz claros elementos desta. A história preserva o personagem rico que almeja reconquistar um amor perdido, só que agora toma lugar na Hamptons dos anos 2000 – e conta com quase todo o elenco negro. G – Triângulo Amoroso foi pouquíssimo divulgado, o que torna tão difícil de encontrá-lo.

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Com Baz Luhrmann fornecendo uma áurea pop ao Grande Gatsby, relembremos aqui outros casos de adaptações radicais:

Anna Karenina (2012)

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Clássico da literatura russa de Leo Tolstói, Anna Karenina ousou em sua sexta adaptação ao trazer fortíssimos elementos teatrais para sua narrativa. Na versão de Joe Wright para a trama de adultério nas altas classes, a história se desenrola toda dentro de um palco de teatro, rendendo diversos momentos memoráveis ao fazer uso de cortinas, cenários de pano e outros esquipamentos do teatro. Pena que essa ousadia não foi o bastante para salvar o filme.

De Olhos Bem Fechados (1999)

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Stanley Kubrick sempre foi conhecido por suas adaptações que diferem radicalmente da obra original. Talvez o exemplo mais forte dessa característica esteja em seu longa final, De Olhos Bem Fechados, que parte de um romance alemão ambientado na Viena da virada do Século XX. Kubrick atualizou a história em um século, mas manteu a questão sobre adultério – e o baile mascarado – em seu núcleo.

Romeu + Julieta (1996)

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Também de Baz Luhrmann, é a mais popular versão para o clássico de William Shakespeare. A abordagem aqui inclui uma atualização da história para a década de 90-  inserindo gangues, intrigas corporativas e armas de fogo na trama – mas mantendo a linguagem original da peça. A trilha sonora também adquire esse teor pop de O Grande Gatsby, mas é um caso de “ame ou odeie”. E eu odeio.

Menção Honrosa: Maria Antonieta (2006)

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Trata-se de um roteiro original, e não de um adaptação literária, mas impossível não deixar de fora o filme de Sofia Coppola sobre a rainha Maria Antonieta. Aqui, é mantida a linguagem da época e todos os figurinos, mas Coppola oferece um tratamento pop (novamente) à trilha sonora – que inclui canções do tipo “I Want Candy” e The Cure – e no tratamento adolescente à protagonista; deixando até um par de all stars como easter eggs.

O especial de O Grande Gatsby vai ficando por aqui, mas não deixe de conferir a crítica do filme aqui no blog amanhã. Espero que tenham curtido, até mais, Old Sports!

| Além da Escuridão – Star Trek | J.J. Abrams eleva os desafios e mantém a eficiente fórmula do antecessor

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Ficção Científica, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de maio de 2013 by Lucas Nascimento

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A Ira de Sherlock: o vilão de Benedict Cumberbatch é o ponto alto da produção

Eu só me interessei por Jornada nas Estrelas após o reboot de J.J. Abrams. Com surpreendente inovação (e, de acordo com os fãs da criação de Gene Roddenberry, homenagem), Star Trek foi uma das mais genuínas aventuras que tive o prazer de assistir desde o final de Star Wars, uma experiência divertida e que funcionava brilhantemente como recomeço ou continuação. Seguindo essa bela proposta, Além da Escuridão – Star Trek eleva a escala e os desafios, mas preserva as características responsáveis pelo sucesso do anterior.

Novamente roteirizada por Roberto Orci e Alex Kurtzman (e adicionando o homem dos mistérios Damon Lindelof à equação), a trama acompanha a tripulação da Enterprise trabalhando a todo vapor na exploração/observação de mundos alienígenas. Ao mesmo tempo em que o capitão Kirk (Chris Pine) é repreendido por sua tendência autodestrutiva, o misterioso John Harrison (Benedict Cumberbatch) surge ameaçando a Frota Estelar. Após vidas serem perdidas, a Enterprise recebe a missão de neutralizar o criminoso e descobrir suas reais intenções.

Como é de costume em franquias blockbuster, as continuações tendem a elevar a escala da produção. De fato, as cenas de ação são mais grandiosas do que a do longa de 2009 e visualmente inventivas (vide o efeito provocado pela floresta avermelhada na sequência de abertura ou o senso de monstruosidade ao observarmos o confronto com a USS Vengeance, que reduz a Enterprise a uma miniatura), ainda que o diretor J.J. Abrams insista em poluir a tela com as irritantes luzes em flare, recurso que não acrescenta nada além de um traço estilístico fraudulento – que ainda prejudica o bom trabalho de conversão em 3D da fita. Ainda em quesitos visuais, o design de produção e os efeitos visuais se completam a fim de criar mundos alienígenas e futuristas – que traz até uma “sala de guerra” moderna para a Frota Estelar – com admirável imaginação, assim como o eficaz trabalho de maquiagem ao trazer de volta velhos conhecidos da franquia…

Mas o que realmente agrada nesse novo filme é a relação e os conflitos entre os personagens, que aqui ganham mais maturidade. De um lado temos Kirk sofrendo inesperadas consequências sobre seu comportamento que, mesmo sucedendo na salvação de toda uma civilização, é considerado perigoso por arriscar a segurança da tripulação e a secreticidade da corporação. Do outro, o Spock de Zachary Quinto tem novas facetas reveladas quando o roteiro explora com delicadeza seu bloqueio emocional, e como este influencia aqueles a seu redor; dando a oportunidade de Quinto protagonizar momentos dramáticos. Com tantas subtramas emocionais, é de se espantar que o longa se saia tão bem ao equilibrá-las com divertidas doses de humor (um dos principais prós do antecessor), especialmente pelo Scotty do ótimo Simon Pegg.

O ponto alto, no entanto, é a performance de Benedict Cumberbatch. Dono de uma voz grave que inutiliza qualquer modificador digital de pós-produção, o ator britânico (da excelente minissérie Sherlock) se beneficia do mistério e ambiguidade de seu John Harrison para criar um antagonista complexo, mas que traz uma causa surpreendentemente viável; ainda que esta não justifique a crueldade de suas ações terroristas. É certo que Harrison é visto como um vilão desde o início, o que torna completamente descartável o fato de este ser tratado como aliado e só torna previsível sua inevitável traição – e também o uso de um elemento que será vital para o destino de um dos personagens.

Além da Escuridão – Star Trek é uma continuação digna do filme de 2009, ainda que fique aquém deste. Traz uma trama mais sombria e um trabalho competente no desenvolvimento de seus personagens, mas quem rouba a cena é mesmo o vilão de Benedict Cumberbatch. Ainda há fôlego para esta competente franquia, e surpresas de sobra para agradar aos trekkers.

Obs: Esta crítica foi publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, na data estelar de 17 de Maio de 2013.

Obs II: Depois de Loki em Os Vingadores e Silva em Skyfall, John Harrison populariza o uso de prisões translúcidas.

Tatuando uma cena | Além da Garota do Dragão Tatuado

Posted in Artigos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de agosto de 2012 by Lucas Nascimento

Com o blu-ray de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres em mãos há mais de três meses, bateu a ideia de um artigo explorando alguns detalhes sobre o longa de David Fincher. Aqui, analiso principalmente a mise en scène e algumas escolhas musicais de determinadas cenas que apresentam detalhes impressionantes. Aproveitem:

Observação: o post traz muitos spoilers do filme (e também alguns acerca do SEGUNDO LIVRO da trilogia)

Os créditos de abertura


Come from the land of the ice and snow…

Ao som de “Immigrant Song”, famosa música de Led Zeppelin que ganha um cover por Karen O, Trent Reznor e Atticus Ross, os créditos inicias de Millennium são espetaculares e, quando disse que mereciam uma crítica própria, falava sério. E aqui vai ela:

Inicialmente nos deparamos com um close profundíssimo nos pneus de uma motocicleta, assim como suas partes mecânicas e panéis. Depois, o segundo estágio de Lisbeth Salander: suas habilidades como hacker, representadas pelo teclado (com símbolos suecos, mais uma boa forma de imersão no cenário da trama) que é preenchido pela substância obscura.

Dentre relances do rosto de Salander, misturam-se a sequência do fósforo – que remete diretamente a uma cena do segundo livro – onde Lisbeth incendia seu próprio pai e o que os designers da Blur Studio chamam de “Salander virtual”; um aglomerado de peças de computadores e fios USB que ganham o formato da protagonista.

Ao fim da progressão, o pai de Salander derrete e sua “versão virtual” entra em curto-circuito.

Agora vemos mais o Mikael Blomkvist de Daniel Craig, que começa a ser acariciado e agarrado por mãos que o destruirão ao fim da cena. Paralelamente, vemos as raízes e espinhos de flores que crescem dentro do rosto de Harriet Vanger e uma fênix (que Salander tem tatuada na perna) tomando voo.

E junto com a queda de Blomkvist, o icônico dragão tatuado começa a ganhar vida das costas de Lisbeth.

Logo depois, o momento que define o termo “homens que não amavam as mulheres”, quando vemos o pai de Lisbeth esmurrar sua mãe. É interessante observar que os pedaços melequentos da vítima respingam na jovem Salander, representando que ela cresceu assistindo cenas do tipo (a vespa saindo de seus olhos contribui nesse quesito) e que essa violência de certa forma a definiu, e deu origem a seu ódio contra “homens que não amam mulheres”.


As mãos grotescas que destroem o rosto de Lisbeth

E esses mesmos sujeitos são responsáveis pela destruição da protagonista, que tem seu rosto coberto por inúmeras mãos sujas e grotescas para depois lentamente ser derretido.

Na conclusão da cena, vemos o fim do ciclo das flores de Harriet e o momento em que ele recomeça, marcado pela desintegração das pétalas. Voltando para Blomkvist, seu rosto é violentamente amordaçado por manchetes de jornal – simbolizando muitíssimo bem seu problema legal que é apresentado posteriormente – e este começa a vomitar moedas, uma metáfora brilhante para o agravo forçado de suas economias.


A inssurreição de Salander

Entre agulhas penetrando peles e a colisão das faces de Blomkvist e Salander, uma mão perfura a terra e a forte imagem apresenta dois significados: ou remete diretamente ao clímax do segundo livro (onde a personagem é enterrada viva) ou seria mais uma metáfora, dessa vez para mostrar a resistência de Salander a um mundo cruel e de preconceitos.

Foram só 3 minutos de filme e já tivemos uma carga dramática e visual sem precendentes.

Assista à cena:

Estocolmo, Suécia e seus personagens


A descida de Mikael Blomkvist

A história finalmente começa quando vemos Blomkvist descendo a escada do tribunal após sua condenação (e adoro o fato de ele estar descendo, como se tivesse caído de posição) e sendo abordado por dezenas de repórteres. É divertida a interação entre o jornalista e seus colegas do ramo, e o roteiro de Steven Zaillian sugere que Mikael conhece todo o pessoal da mídia; e que ele possui ótimas rebatidas. “O que é isso? O evento da mídia do ano?”


O jornalista condenado encara uma chuva pesada

Saindo do tribunal, nada mais depreciativo do que uma pesada chuva sob os ombros de nosso herói caído (elemento que marcou presença em Se7en, também de David Fincher) enquanto ouvimos diversos trechos de entrevistas e telejornais, que – de forma intrínseca – explicam bem o caso de Mikael Blomkvist, acusado de difamação contra o poderoso empresário Hans Erik Wennerstrom; e a edição de sonora de Ren Klyce é bem-sucedida ao misturar tais passagens sem torná-las incompreensíveis.


O empresário Hans Erik Wenneström

Em um café, contínuamos ouvindo às reportagens sobre a condenação de Blomkvist. Quando ele entra, compra um café e um sanduíche e volta a analisar o veredicto. E é aí que vemos o tal Wennerstrom pela primeira vez: rodeado por advogados, ele prega que o jornalista teve o que mereceu (“Todos os jornalistas devem entender, assim como o resto de nós, que seus atos têm consequências).

Uma curiosidade divertida: a balconista do café é uma jovem chamada Ellen Nyqvist, filha do ator Michael Nyqvist, intérprete de Mikael Blomkvist na versão sueca da trilogia. Muita coincidência, não?

Blomkvist compra um maço de cigarros e, logo em seguida joga-o no lixo, limitando-se apenas a uma tragada. Uma observação reveladora sobre o personagem é o fato de este comprar também um isqueiro, indicando que o jornalista não carrega consigo o hábito do fumo, dando a entender que este largara o vício anteriormente, mas agora o retoma sob consequência de sua condenação. Um detalhe interessante na cena acima é o televisor no canto esquerdo, que mostra imagens de Blomkvist saindo do tribunal, e elas coincidem precisamente com a apresentação do personagem.

Blomkvist então segue para o escritório de sua revista Millennium, onde ignora toda a equipe de redação e segue para conversar com sua parceira e amante, Erika Berger (Robin Wright). A relação curiosa dos dois é mantida como no livro: os dois são parceiros sexuais, mesmo Berger sendo casada.


A revista Millennium traz: Blomvist – Nas Correntes

Agora conheceremos Lisbeth Salander (Rooney Mara), a garota com o dragão tatuado. A câmera inicialmente foca em uma cópia da revista de Blomkvist no relatório da investigadora (percebam que há uma certa continuidade, visual e estrutural, nos eventos: Blomkvist-Millennium-Relatório) e então conhecemos o adovgado Dirch Frode (Steven Berkoff) e o chefe de Salander, Dragan Armansky (Goran Visnjic).


“É possível que esperemos para sempre”

Na esperta montagem de Kirk Baxter e Angus Wall, vemos Lisbeth chegando ao escritório enquanto, entre cortes, Armansky “apresenta” sua empregada e prepara o terreno para sua marcante aparição. “Ela é uma das minhas melhores investigadoras, como viu pelo relatório. Mas acho que não vai gostar dela. Ela é diferente. Em todo sentido”.

Acompanhamos as costas da personagem, e já é possível reparar em seu nada discreto moicano e nos olhares curiosos que a jovem desperta em sua caminhada até o escritório de Armansky. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross também contribui, capturando a aura bizarra de Salander (a faixa nessa cena é chamada “We Could Wait Forever”, referência à frase de Armansky da mesma cena).

Salander junta-se aos dois no escritório e finalmente temos uma boa visão da personagem. Ela ignora o cumprimento de Dirch Frode e larga suas coisas no chão antes de sentar-se à mesa.

Reparem em como ela se senta distante dos dois e passa grande parte do tempo evitando contato visual.

This is Harriet…

A primeira tomada de Harriet (segurando uma flor), em um flashback.

Após introduzir Blomkvist sobre a história de alguns membros da família Vanger (dando destaque para uma presença nazista), Henrik vai direto ao ponto que o levou a contratar o jornalista: o desaparecimento de sua sobrinha-neta Harriet.

24 de Setembro de 1966: a fotografia de Jeff Croenwenth esquenta e adota belíssimos tons de sépia para apresentar o mistério da jovem de 16 anos. A família Vanger se reúne para um almoço de negócios, enquanto um clube de iate promovia um desfile de Outono no centro da cidade. Harriet e amigas comparecem ao evento.

Harriet retorna por volta das 14h e pede para conversar com Henrik.

Ocupado, ele pede que ela aguarde alguns minutos (reparem como a narração do velho Henrik quase casa perfeitamente com o movimento labial de sua versão rejuvenescida).

Ela corre pelas escadas e sua prima Anita a segue.

É aí que o acidente ocorre. Uma terrível colisão entre um caminhão e um carro isola a cidade, despertando a curiosidade de muitos e também exigindo a ajuda de membros da família Vanger, polícia e bombeiros.

Uma hora após o acidente, Harriet é vista na cozinha pela empregada Anna. O relógio na parede marca 15:20h.

Os feridos são retirados dos destroços do acidente, vemos o Detetive Morell pela primeira vez e todos começam a retornar para seus lares.

Observe também o jovem Martin Vanger, que atravessa os veículos e junta-se aos membros da família.

Durante o jantar, Henrik percebe o desaparecimento de Harriet. Dentre a mesa repleta de convidados, apenas um prato de comida e uma taça de bebida permanecem intocados.

Um vislumbre do jovem Dirch Frode.

De volta ao presente, Mikael já não está tão cético. Seu olhar sugere que a história de Henrik o convenceu.

Já tendo prendido a atenção do jornalista, Vanger agora o leva ao elemento-chave do mistério. Enquanto o acompanha até o sótão, ele comenta que o corpo de Harriet teria aparecido na costa se tivesse caído no mar, referenciando o próprio pai da jovem, que morrera em 1965. Não sabemos ainda, mas o sujeito foi vítima da própria filha.

Henrik e Mikael caminham em uma sala escura, até que o velho acende as luzes e revela o conteúdo de suas paredes: dezenas de flores emolduradas. Vanger explica que o “presente” chega anualmente no dia de seu aniversário, suspeitando vir do assassino de Harriet (já que esta costumava lhe enviar tais recordações).

Com a câmera passeando pelas flores, o espectador faz a conexão com o prólogo do filme e este, enfim, faz sentido. A música ao fundo é “How Brittle the Bones”.

Vemos, logo depois, o trem das 16h30 partindo da estação de Hedestad. E Blomkvist não está nele.

Observação sobre Martin Vanger

Durante o jantar onde conhece Blomkvist, Martin diz que chegou à Hedestad muito depois, no trem das 16h. É mentira, nós o vimos na ponte durante o acidente e o horário na cena era algo por volta das 15h30.

O estupro I

O som de um faxineiro limpando o chão acompanha Lisbeth até o segundo encontro com seu tutor, Nils Bjurman (Yorick Van Wageningen). O uso do efeito sonoro ajuda a mostrar que o escritório está sendo esvaziado, que todos estão indo embora.

Note que há uma porta-retratos na mesa de Bjurman, onde o vemos com sua mulher e filho. Mostrar que o assistente social tem família só o torna mais assustador, mostrando que este é, aparentemente, uma pessoa normal

Bjurman diz que Salander precisa aprender a socializar-se e levanta da cadeira. A câmera de Fincher então foca a barriga do personagem, animalizando-o, tornando-o ainda mais grotesco. Lisbeth já sente que a situação não terminará bem e evita todo tipo de contato visual.

O assistente se aproxima dela e senta na beirada da mesa. A câmera de Fincher agora adota um enquadramento que enfoca a posição maior de Bjurman, deixando Lisbeth minúscula perto do “monstro”;  enquanto o barulho da enceradeira vai mesclando-se com a tensa música de Trent Reznor e Atticus Ross (a faixa aqui é “With the Flies”). Ele joga a mochila da jovem e a faz sentir o tecido de sua calça, para logo depois forçá-la a masturbá-lo.

O problema fica pior quando Bjurman aperta a cabeça de Salander, levando-a à felação em pleno escritório. É possível ver uma aliança de noivado no dedo do estuprador.

A câmera afasta e temos um campo visual maior, exacerbando a gravidade da situação (acho assustador a presença de diplomas e comprovantes de reconhecimento na parede, que sugerem que Bjurman é um profissional nato).

Bjurman tem um orgasmo. A câmera pega seu rosto de cabeça ponta-cabeça.

Um corte grosseiro mostra Lisbeth no banheiro lavando a boca com sabão e até forçando vômito. Fica subentendido que Bjurman ejaculou em sua boca. Ele entrega o cheque a ela e devolve sua mochila.

Ela sai pelo corredor e vemos um faxineiro encerando o chão, responsável pelo zumbido que assombrara a cena anterior.

Fade para uma das melhores tomadas do longa, onde Lisbeth está em seu apartamento ouvindo música. A câmera vai se aproximando e engenhosamente vira de ponta-cabeça para revelar seu rosto, e a fotografia de Cronenweth esquenta fervorosamente seu tom de vermelho, como se a personagem fosse explodir. Mas agora, o que significa essa virada? A agressiva mudança de rumo da história – que se dá pelo inesperado estupro da protagonista – ou até mesmo a diferente percepção de mundo que Salander possui. Acho interessante também que há uma certa rima entra essa tomada e a que mostra Bjurman durante o orgasmo (logo acima). Lembrando também que nesse momento, Salander já planeja sua vingança.

O estupro II

Lisbeth anda pela rua e telefona para Bjurman. Ela já tem a intenção de visitá-lo novamente e executar a primeira parte de sua vingança. A situação é revertida quando o sujeito a obriga a comparecer em sua residência (um território desconhecido) e então passa o endereço. Salander diz não precisar de uma caneta para anotá-lo, sendo um dos primeiros indícios que o roteiro de Zaillian usa para retratar a “memória fotográfica” da personagem.

A música de Reznor-Ross vai intensificando a atmosfera, enquanto a fotografia de Cronenweth acerta ao retratar o apartamento de Bjurman de forma sombria. Salander é recebida pelo sujeito de forma maliciosa, e o terror impregna em sua caminhada até o quarto.

Salander posiciona a mochila em um ângulo que capture uma boa visão do quarto, dando destaque para a cama. Ainda não sabemos, mas ali encontra-se uma câmera escondida.

Fincher segue sua lógica de mostrar Bjurman em planos mais altos, tornando-o uma figura grande e ameaçadora, a passo que Lisbeth é minúscula perto do mesmo.

Bjurman domina Salander e coloca uma algema em seu pulso. Ela corre para a porta, mas é agarrada e a mesma se fecha; como se o espectador não precisasse testemunhar a cena que está por vi, culminando em um fade out que leva o espectador para longe da situaçao.

Mas não é o que Fincher pensa, e ele imediatamente nos leva para o centro da situação.

Fade in: A garota é algemada na cama (que tipo de sujeito mantém algemas em casa?)…

e seu agressor começa a despi-la brutalmente.

A penetração tem início. Fincher posiciona a câmera quase que na testa do estuprador, revelando sua total posição dominante sobre a pobre Lisbeth.

A garota para de gritar. O roteiro de Zaillian afirma que nesse momento, Salander isola-se em sua mente como uma forma de “fugir” da situação.

O botão da mochila de Salander ganha uma atenção especial da câmera, antes de cortar de volta para Blomkvist em Hedestad.

Posteriormente, temos Lisbeth retornando para casa após o estupro. Bjurman lhe entrega seu cheque e esta vai embora.

A caminhada pelas sombrias ruas suecas torna-se ainda mais perturbadora graças à excelente composição batizada de “She Reminds of You”.

Lisbeth chega em casa, larga o cheque (em primeiro plano) em cima da mesa e toma um analgésico.

Primeira vez que vemos os seios da protagonista, assim como a tatuagem em sueco (que seria uma homenagem à sua falecida mãe) que esta possui nas costelas.

Depois, Salander toma um banho na esperança de aliviar seus ferimentos. A primeira tomada nítida de sua tatuagem de dragão…

e também uma sutil referência à Psicose ao trazer o sangue caindo na água.

A vingança

Lisbeth bate na porta de Bjurman, que atende com espanto. Ele deixa-a entrar.

É revelador como vemos um certo arrependimento do estuprador, ao dizer que “sente-se mal pelo modo como o encontro anterior dos dois havia terminado”. Fria e impetuosa ela ataca-o com um taser e o assistente social é derrubado no chão.

Nesse momento, a mise-en-scène que Fincher estabelecera sobre a dominância de Bjurman sobre Salander é radicalmente quebrada. A câmera agora liberta-se e acompanha a situação em um plano plongé (com a câmera acima da cena), revelando que Bjurman é só um homem e toda sua aura monstruosa é deixada de lado. A música de Reznor-Ross aqui é excelente, declarando o início da vingança.

Acompanhamos uma tomada similar à do estupro de Salander, só que dessa vez a câmera de Fincher nos leva para dentro do quarto de Bjurman; observe suas roupas e uma mancha que eu deduzo ser suor. O espectador não quer fugir da situação, ele quer saber o que vai acontecer.

Bjurman acorda nu e com os braços e pernas amarrados, além de ter sua boca tapada com fita adesiva. Lisbeth (com uma maquiagem sensacional sobre os olhos) revela ao estuprador que tinha uma câmera no último encontro dos dois.

Agora as mesas foram viradas: Salander está sob o controle, e a câmera de Fincher enquadra o poder da jovem.

Mais um ângulo que mostra a superioridade de Salander.

Ela então retira um dildo metálico de sua bolsa, para total desespero de Bjurman.

É, vocês sabem o que acontecem depois… (e destaque para o repulsivo efeito sonoro escolhido por Ren Klyce).

Salander então ameaça o assistente social e obriga-o a entregar de volta o controle sobre suas finanças. Caso contrário, ela vazará o vídeo que revela o estupro.

Além disso, ela o proíbe de se encontrar com qualquer garota e promete ficar de olho no apartamento.

Ela chuta o dildo, que penetra mais fundo em Bjurman. Detalhe para a cruel ironia nesse plano-detalhe: o vídeo de Lisbeth sendo estuprada roda ao fundo, ao mesmo tempo em que esta se vinga do assistente social.


“It’s ok, you can nod. Because it’s true… I am insane”

Lisbeth fala diretamente com a câmera ao pronunciar: “Eu sou louca“.

O elemento final da vingança de Salander se aproxima: a tatuagem. Ela coloca uma máscara de proteção (elemento genial, como se a personagem evitasse sujar-se com sangue de sua vítima).

Ela monta Bjurman e começa sua “obra de arte”, com a bizarra “Of Secrets” tomando conta da trilha.


EU SOU UM PORCO ESTUPRADOR”

À medida em que analisava mais e mais detalhes desta impecável obra, a postagem foi ficando longa demais e decidi deixar alguns elementos de fora. No entanto, espero que isto sirva para comprovar a competência e imaginação de David Fincher, que a cada novo filme vem se firmando como um dos melhores diretores da atualidade.

E por falar em Millennium, ainda aguardo novidades sobre a continuação…

O Prestígio | Especial BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

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O filme mais aguardado de 2012 enfim chega às telonas! Christopher Nolan promete (novamente) grandiosidade em sua conclusão da trilogia do Morcego com Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Já assisti ao filme na cabine de imprensa (leia a crítica aqui) e atualizei o post com novas informações. Acompanhe o especial e vejamos como será o resultado:

Algumas perguntas que circulam o projeto:

Quanto tempo separa Ressurge de O Cavaleiro das Trevas?

De acordo com Christopher Nolan, o novo filme se passa oito anos após seu anterior.

Quem são os vilões?

A principal ameaça encontra-se na forma de Bane, que lidera um grupo terrorista que visa levar o caos para as ruas de Gotham. Os boatos correm e muitos apontam em um retorno da Liga das Sombras de Batman Begins, e se o vilão não seria um membro que continuará a missão de Ra’s Al Ghul. Além disso, temos a Mulher-Gato (que serve também como aliada) e uma rápida aparição do Espantalho de Cillian Murphy vai ou não dar as caras…

Quais são as novidades no elenco?

Diretamente de A Origem, Tom Hardy, Marion Cottilard e Joseph Gordon Levitt reúnem-se com o diretor Christopher Nolan. O primeiro encarna Bane, Levitt dá forma ao policial John Blake (que tem uma importante participação na trama) e a atriz francesa encarna uma personagem não muito detalhada pela divulgação do filme, que atende pelo nome de Miranda Tate. E claro, temos Anne Hathaway como Selina Kyle, a melhor do filme.

O que é aquele objeto voador?

Novo “brinquedo” tecnológico do protagonista, o “Morcego” é um veículo voador desenvolvido por Lucius Fox. Basicamente, é a versão Nolan para o famoso Bat-Wing, que agora substitui o formato “morceganizado” por um militar, como o próprio Tumbler.

Há alguma menção ao Coringa de Heath Ledger?

Christopher Nolan havia dito que planejava usar o Coringa de Heath Ledger no terceiro filme (e com uma figura daquelas, quem não usaria?), mas devido a repentina morte do ator, isso não foi possível. Dessa forma, O Cavaleiro das Trevas Ressurge não faz menção alguma ao personagem.

Afinal, o Bane quebra ou não a coluna do Batman? [SPOILERS]

Quando anunciado que Bane seria o principal antagonista do novo filme, muitos fãs imediatamente remeteram à famosa HQ A Queda do Morcego, onde o vilão derrota o Batman e quebra sua coluna, deixando-o paraplégico. Pois bem, no filme a cena com o herói sendo espancado e humilhado está lá – assim como icônica joelhada na coluna – mas o golpe não é forte o suficiente para aleijá-lo, apenas deixando-o severamente machucado (com uma vértebra exposta).

Quanto do filme foi gravado em IMAX?

O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem quase 1 hora de material rodado em câmeras IMAX, rivalizando com os 28 minutos do filme anterior. Curiosidade: durante as filmagens, a dublê de Anne Hathaway acidentalmente colidiu com uma das gigantescas câmeras do formato, o que certamente rendeu um prejuízo de 500 mil dólares à produção; considerando a limitada disponibildade dos equipamentos. Veja o flagrante:

Após o fim da trilogia, como fica o Batman no cinema?

Como aconteceu com o Homem-Aranha, a Warner Bros anunciou que o Batman terá um reboot, já que os produtores afirmam que Nolan encerrou sua trilogia de uma maneira que impossibilita continuações. Eu pessoalmente acho que um reboot é exagero, o final dessa trilogia não é impossível de ser seguido…

Qual será o próximo filme de Christopher Nolan?

O nome de Christopher Nolan circula por muitos projetos, dentre os quais temos Superman – O Homem de Aço. O filme dirigido por Zack Snyder (que será lançado no ano que vem) teve o argumento original desenvolvido por Nolan e seu irmão, Jonathan e ambos afirmaram ser uma ideia “que não acreditavam ninguém ter pensado antes”. Recentemente, Michael Caine revelou ter sido contratado para o próximo filme do diretor, que seria um argumento original. Vamos aguardar…

Alguns velhos conhecidos e novas caras marcam presença em O Cavaleiro das Trevas Ressurge:

Bruce Wayne/Batman | Christian Bale

Tendo abandonado a máscara do vigilante Batman após aceitar a responsabilidade pelos crimes de Harvey Dent, Bruce Wayne encontra-se envelhecido e aposentado. Com problemas de coluna e exilado da sociedade, ele é forçado a voltar à ativa e recomeçar seu treinamento quando a ameaça terrorista de Bane promete destruir Gotham City.

Selina Kyle | Anne Hathaway

Habilidosa ladra noturna, Selina Kyle sustenta-se comentendo pequenos furtos e assaltos, sendo experienciada em lutas corporais e movimentos acrobáticos. Procurando uma chance de limpar seu histórico criminal e começar uma vida nova, ela se envolve com o grupo de Bane e, consequentemente, com Batman e seu alter-ego.

Bane | Tom Hardy

Bane é um mercenário (com espiríto revolucionário) que traz um grande plano envolvendo a destruição de Gotham City. Lidera um vasto grupo de resistência e incentiva uma rebelião de criminosos na cidade, tendo como habilidades uma força brutal e uma máscara respiratória que garante sua sobrevivência após este ter sido vítima de ferimentos agonizantes.

Comissário Jim Gordon | Gary Oldman

À beira da aposentadoria, James Gordon tem liderado uma campanha de luta ao crime implacável e bem-sucedida, mas ainda assim, sente-se na necessidade de revelar ao povo de Gotham o que de fato aconteceu entre ele, Batman e Harvey Dent anos atrás. Mas isso será o menor de seus problemas quando o grupo de Bane chegar à cidade.

John Blake | Joseph Gordon-Levitt

Jovem policial que vai rapidamente crescendo no departamento de polícia de Gotham, John Blake é um antigo amigo de Bruce Wayne e protegido do Comissário Gordon. Ainda que a cidade encontre-se em tempos de paz, ele anseia em descobrir a verdadeira história por trás do sumiço de Batman e também deseja que este retorne quando a situação piorar.

Alfred Pennyworth| Michael Caine

Leal mordomo e mentor de Bruce Wayne, Alfred sonha em ver seu patrão abandonar a vida eremita e sedentária que carrega, mas é contra sua decisão de retomar a máscara do Batman; temendo a impossibilidade de Bruce em sucedir contra oponentes perigosos e bem treinados.

Lucius Fox | Morgan Freeman

Ainda responsável pela Wayne Enterprises e a secreticidade das invenções tecnológicas de Batman, Lucius Fox é um dos principais incentivadores para o retorno de Bruce Wayne ao mundo real, tendo frequentes reuniões com a empresária Miranda Tate. Seu papel aqui é muito maior e importante.

Miranda Tate | Marion Cottilard

Miranda Tate é uma executiva filantropa que negocia  um projeto ambiental com as Wayne Enterprises. Sua relação com Bruce vai aumentando à medida que ela vai convencendo-o a reassumir a empresa e levá-la de volta aos dias de glória.

Uma olhada breve nos outros dois filmes da trilogia:

Batman Begins (2005)

Um marco para o cinema blockbuster, Batman Begins iniciou a onda de abordagens realistas para ícones populares (como Cassino Royale fez com James Bond). E justamente por tratar seu protagonista como um ser humano real – buscando inspiração nas primeiras histórias do personagem, muito mais sombrias – o reboot alcançou um resultado excelente ao mergulhar profundamente no psicológico do homem que se veste como morcego, em um estudo de personagem eficiente e que traz um visual dark e atmosférico. Isso sem falar da ótima performance de Christian Bale.

Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

A adaptação suprema de quadrinhos/super-heróis para o cinema, o melhor filme de Christopher Nolan é também um dos melhores da última década. Em um misto excepcional de ação desenfreada, trama policial brilhante e temas morais/éticos abordados com impressionante intensidade, O Cavaleiro das Trevas é um filme surpreendente que aprimora o original em todos os sentidos. Todo o elenco é de primeira, mas o destaque fica para a magistral performance de Heath Ledger como o Coringa.

Os oponentes que já deram as caras na trilogia de Nolan.

O Espantalho

Intérprete: Cillian Murphy

Bio: Alter ego do psiquiatra Dr. Jonathan Crane, o Espantalho é uma arma de medo. No universo de Nolan, ele tem associação com o mafioso Carmine Falcone, gerenciando o hospício Asilo Arkham e livrando diversos de criminosos de penas de prisão ao diagnosticá-los como insanos. Sua principal arma é o gás do medo, que provoca alucinações em suas vítimas.

Desfecho: Foi preso pelo Batman no início de O Cavaleiro das Trevas. Tem uma pequena participação em Ressurge.

Ra’s Al Ghul

Intérprete: Ken Watanabe/Liam Neeson

Bio: Líder de uma associação secreta conhecida como Liga das Sombras, Ra’s Al Ghul é visto como imortal nos quadrinhos, mas no filme de Nolan é apenas uma figura que ganha diversos representantes. O principal deles, é o mentor de Bruce Wayne que também foi responsável por seu treinamento: Henry Ducard. Suas habilidades incluem treinamento ninja e domínio de inúmeras artes marciais.

Desfecho: Após fracassar em destruir Gotham, é morto no fim de Batman Begins.

O Coringa

Intérprete: Heath Ledger

Bio: Criminoso anarquista brilhante, o Coringa só tem um objetivo: testar e destruir o psicológico de seus oponentes, assim como perturbar a ordem dominante e estabelecer o caos. Sem nunca ter seu passado revelado (o máximo são algumas histórias que o próprio inventa para justificar sua aparência), é armado com inúmeras facas e usa de uma maquiagem para intimidar e ocultar as cicatrizes de sua boca.

Desfecho: É preso pelo Batman no fim de O Cavaleiro das Trevas.

Harvey Duas-Caras

Intérprete: Aaron Eckhart

Bio: Implacável promotor público e o rosto da luta contra o crime em Gotham, Harvey Dent foi um símbolo de esperança e justiça em tempos sombrios. Aliando-se com o comissário Gordon e Batman, eles prometeram defender a cidade contra os ataques do Coringa. Dent sai na pior quando sua amada Rachel Dawes é morta e este e tem metade de seu rosto queimado durante um sequestro, levando-o a um desejo de vingança incontrolável. Armado com uma pistola, decide suas ações no cara-ou-coroa.

Desfecho: Ameaçando o comissário Gordon e sua família, é morto pelo Batman no fim de O Cavaleiro das Trevas.

Bane [SPOILERS]

Intérprete: Tom Hardy

Bio: Após ser agredido cruelmente enquanto protegia uma criança de prisioneiros hostis, Bane é forçado a viver com uma máscara de gás que alivia sua agonia e garante sua sobrevivência. Libertado da tal prisão pela Liga das Sombras, ele é então treinado por Ra’s Al Ghul como um poderoso mercenário, mas é banido do grupo ao se apaixonar pela filha de seu líder.

Desfecho: É morto por Selina Kyle em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Porque teatrilidade e ilusão são agentes poderosos, sr. Wayne…

O Traje

Peça da Wayne Enterprises para o exército americano, o traje de sobrevivência oferece resistência a facas e também é à prova de balas (menos um tiro direto, de acordo com Lucius Fox).

A Capa

Desenvolvido pela Wayne Enterprises como “tecido da memória”, é um pano flexível e leve e que assume diversas formas ao ter uma corrente elétrica acionada. Com tal equipamento, Batman consegue usar essa capa para planar longas distâncias.

O Tumbler

Desenvolvido pela Wayne Enterprises como um veículo para auxiliar na construção de pontes, o Tumbler foi transformado pelo Batman em um carro militar. Traz uma armadura resistente e que dificulta a identificação em ambientes noturnos, além de ser completamente à prova de balas. No quesito poder de fogo, temos mísseis e bombas.

Bat-Pod

Módulo de escape do Tumbler – quando este sofre danos catastróficos – a Bat-Pod transforma dois pneus do carro em uma moto veloz e destruidora. Além de trazer um arpão em suas utilidades, tem dois eficientes canhões na dianteira do veículo.

As encarnações da Mulher-Gato no cinema:

Lee Meriwether em Batman – O Homem Morcego

A primeira Mulher-Gato dos cinemas, Lee Meriwether vive a personagem na adaptação da cartunesca série de TV de Adam West. Não assisti ao filme, então não tenho como avaliar a caracterização (mas vale observar que o visual de Anne Hathaway teve ligeira inspiração aqui).

Michelle Pfeffer em Batman – O Retorno

Grande destaque do mediano filme de Tim Burton (faria mais sentido o filme se chamar Catwoman Begins ao invés de Batman – O Retorno), a ladra felina de Michelle Pfeiffer ganha uma origem sobrenatural após ser “ressuscitada” por um bando de gatos. A vilã é armada com chicote, garras e uma apertadíssima roupa de couro.

Halle Berry em Mulher Gato

Em um sofrível derivado que reinventa a personagem, Halle Berry vestiu o traje curto e rasgado da Mulher-Gato, ainda mantendo uma história sobrenatural (dessa vez trazendo… Reencarnações de deuses egípcios felinos) como origem da anti-heroína.

Anne Hathaway em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Mais pautada à realidade, a versão Anne Hathaway para a ladra felina não apresenta habilidades sobrenaturais, apenas movimentos flexíveis e um apertado traje de couro. Experiente em roubos e tiroteios, ela ainda conta com lâminas no salto de sua bota.

Relembremos os melhores momentos (ou os meus preferidos) dos capítulos anteriores da trilogia:

Abraçando o Medo

Descobrindo a caverna subterrânea que viria a se tornar o quartel do Batman, Bruce Wayne é atacado por um enxame de morcegos e então este tem um momento de epifania. Com belo uso das sombras na fotografia de Wally Pfister, o sujeito abraça o medo e conforta-se com ele, adotando-o como arma.

“Gostaria de ver minha máscara?”

Tendo notado a insistência do mafioso Carmine Falcone em fazer parte de seu plano, o dr. Jonathan Crane é forçado a lhe apresentar seu sinistro alter-ego: o Espantalho.

“Um pouco do seu próprio remédio?”

Após ter sido humilhado em seu primeiro encontro com o Espantalho e seu gás alucinógeno, Batman invade o Asilo Arkham e oferece ao doutor um pouco de seu próprio remédio. Destaque para a montagem agressiva de Lee Smith (que ajuda a tornar o herói pouco perceptível) e a versão demoníaca do Homem-Morcego.

Salvando Rachel

Na estreia do Batmóvel Tumbler, o herói esmaga viaturas e salta de prédios em uma tensa corrida contra o tempo; com sua amada Rachel Dawes envenenada e à beira da insanidade. Ficou bem claro aqui o talento de Nolan para cenas de ação.

“Mas não preciso te salvar”

O clímax de Batman Begins não decepciona em quesitos de pirotecnia, mas o que fica mesmo na memória é a solução encontrada por Batman para não matar seu antigo mestre, Ra’s Al Ghul.

Assalto ao Banco

Em um prólogo empolgante e imprevisível, o diretor Christopher Nolan faz juz aos melhores thrillers policiais de Michael Mann ao mostrar o Coringa e seus comparsas assaltando um banco da Máfia. Além de introduzir de forma impecável seu antagonista, define o tom do filme todo.

“Que tal um truque de mágica?”

Em uma cena antológica, o Coringa demonstra seu senso de humor negro à um grupo de mafiosos.

Perseguição do Carro Forte

Elevando o nível da perseguição de carros de Batman Begins, Nolan e sua equipe criam uma cena de ação incrível, trazendo o Coringa perseguindo Harvey Dent pelas ruas de Gotham e a estreia da bat-pod do herói. Admirável também é o uso de efeitos práticos, como miniaturas, explosões e a capotagem memorável de um caminhão.

“Você me completa!”

O duelo mais perigoso entre Batman e o Coringa, a cena do interrogatório traz um embate psicológico impressionante. Nele, vemos que um não pode existir sem o outro, que são apenas lados diferentes de uma mesma moeda. Atuação monstruosa de Heath Ledger aqui, que mostra fôlego nas risadas maléficas.

“Eu queria inspirar o bem, não a loucura e a morte”

Após a morte de Rachel e o acidente de Harvey Dent, Bruce senta-se à janela e conversa com seu fiel mordomo Alfred. É uma linda cena que retrata a derrota do super-herói e a angústia do personagem, além de trazer uma fotografia triste de Wally Pfister.

“Introduza um pouco de anarquia”

Quando pensamos que o filme acalmaria com a prisão do Coringa, este faz um retorno impressionante ao disfarçar-se de enfermeira e explodir um hospital. Além de ser divertido ver o sujeito brigando com o detonador, o discurso sobre caos e anarquia que corrompe Harvey Dent (agora, Duas-Caras) é fundamental para entender a natureza do personagem.

“Um cavaleiro das trevas”

Um final perfeito para um filme perfeito.

A carreira de Christopher Nolan, além da trilogia do Morcego:

Following (1998)

Com orçamento independente e técnicas de filmagens bem simplórias, o primeiro filme de Nolan é uma interessante (e paranoica) história de um escritor que segue pessoasa fim de buscar inspirações para seus trabalhos. Chama a atenção pela narrativa intrincada (marca típica do cineasta) e a fotografia em preto e branco.

Amnésia (2000)

Um dos filmes mais surpreendentes e complexos já feitos. Famoso pela “narrativa ao contrário”, Amnésia é um thriller inteligente e poderoso, um quebra-cabeças peculiar e complicado. Assistir só uma vez não é o suficiente para entender o roteiro brilhante dos irmãos Nolan. Nem mesmo se for ao contrário.

Insônia (2002)

Remake de um filme de 1997, é um thriller muito engenhoso e inteligente. As performances de Al Pacino e Robin Williams estão espetaculares e o tom atmosférico é bem sombrio, o Alaska apresenta-se como o cenário perfeito para a trama, com um desfecho sensacional.

O Grande Truque (2006)

A cruel e sombria disputa entre dois mágicos… A premissa já é ótima, o filme de fato aproveita-a e toma rumos muito além do imaginável, reviravoltas e alcança um final bizarro e completamente inesperado. Tem ótimas performances de Hugh Jackman e Christian Bale.

A Origem (2010)

Com uma das ideias mais originais dos últimos anos, Nolan alcança a perfeição ao tecer uma trama que apresenta ladrões do subconsciente, que usam de sonhos para roubar e implantar ideias na mente humana. Traz cenas de ação espetaculares e conceitos ambiciosos, além de um final enigmático que fez o mundo todo discutir.

Link para o post original (de Agosto de 2010)

Revisitando a primeira franquia do Batman:

Batman (1989)

Primeiro grande filme do Homem-Morcego para o cinema, traz uma abordagem dark para o personagem após o tom cartunesco do famoso seriado de TV com Adam West. Lidando com uma boa história e personagens carismáticos (nem precisa dizer que o Coringa de Jack Nicholson rouba o filme), o filme peca em sua execução, já que – mesmo tendo um visual gótico lindo – Tim Burton não é a escolha ideal para um longa de super-herói.

Batman – O Retorno (1992)

Ainda que traga uma ótima ambientação (a sombria Gotham City castigada pela neve natalina cai muito bem em dias frios), a segunda investida de Tim Burton na franquia é incostante e descontrolada, trazendo bons personagens mas não oferecendo tempo suficiente para explorá-los a fundo. Nesse cenário, o próprio Batman é esquecido pelos roteiristas e Danny DeVito, como o Pinguim, encarna um dos vilões mais ridículos da História.

Batman Eternamente (1995)

Sai Tim Burton e entra Joel Schumacher, deixando de lado as sombras e transformando o terceiro filme do Batman em uma aventura fantasiosa e infantil. Apesar de trazer alguns bons elementos com os vilões Duas Caras e Charada (e não me refiro às caricatas performances) a história não convence e soa ridícula demais. E Val Kilmer não tem nada a ver com Bruce Wayne…

Batman & Robin (1997)

Se Schumacher já começava a flertar com o ridículo no longa anterior, ele o leva para cama no péssimo Batman & Robin. Trazendo caracterizações ridículas de bons personagens, o filme ainda sofre com elementos babacas (nunca, mas nunca esqueceremos do bat-cartão de crédito) e uma trama risível que poderia muito bem estar num desenho animado de sábado de manhã. Lembrando que o filme também trazia sua versão do Bane.

Com a conclusão da trilogia de Nolan, ficam algumas dicas e sugestões para como o personagem pode gerar novos filmes:

Chega de origem

Com Batman Begins tendo gastado uma enorme quantidade de tempo explicando a origem e as motivações do herói (e fazendo-os de maneira impecável), é irrelevante que um reboot volte novamente para o assassinato dos pais de Bruce Wayne. O Espetacular Homem-Aranha nos mostrou que recontar a mesma história “de forma diferente” não funciona, então que a Warner não cometa o mesmo erro com o Morcego.

O desfecho da trilogia ****HEAVY SPOILERS!****


Joseph Gordon Levitt e a adoção do símbolo

Só pra quem viu O Cavaleiro das Trevas Ressurge hein! No fim do novo filme, o detetive “Robin” John Blake é o herdeiro da batcaverna após Bruce Wayne simular sua morte e fugir para Florença, e tudo indica que este adotará o símbolo de Batman como novo vigilante de Gotham. Eu adoraria ver como a história de Joseph Gordon Levitt iria progredir, e uma boa inspiração caso esse gancho seja de fato seguido é o desenho Batman do Futuro.

Série Arkham


Batman – Arkham City

Juntamente com a trilogia de Christopher Nolan, os jogos da série Arkham foram a melhor coisa a surgir para o personagem em anos. O que chama a atenção aqui é o tom sombrio da série, mas que não se preocupa em ser realista e abraça elementos fantásticos dos quadrinhos em uma trama essencialmente adulta. Fica a sugestão de não necessariamente adaptar o jogo, mas sim adotar sua atmosfera.

Bem, o especial fica por aqui e espero que tenham gostado. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge estreia nos cinemas no dia 27, mas você já pode ler a crítica aqui.

Gostaria de dedicar esta postagem à memória das vítimas do terrível tiroteio em Aurora, de 20 de Julho de 2012.

| Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras | Um jogo estilizado, mas brutalmente exaustivo

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , on 5 de fevereiro de 2012 by Lucas Nascimento

 


Holmes e Watson brindam antes de embarcar em uma nova aventura

O primeiro Sherlock Holmes foi uma grande surpresa. Guy Ritchie e Robert Downey Jr. acertaram ao apresentar uma releitura dinâmica para o detetive mais famoso do planeta, rendendo um filme divertido e arrojado na medida certa. Como todo sucesso de bilheteria, uma continuação é praticamente obrigatória, e infelizmente Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras falha ao entregar o mesmo entretenimento de seu antecessor; forçando além do suportável os elementos que tornaram o primeiro tão agradável.

A trama traz Sherlock Holmes (novamente o encontramos no meio de um caso, só  que dessa vez não temos uma explicação coerente para a execução do mesmo), encontrando a mente criminosa mais letal do planeta: o professor James Moriarty (Jared Harris), que conspira iniciar uma guerra mundial. Para isso, Holmes recorre a seu parceiro Watson (Jude Law) e à cigana Simza (Noomi Rapace).

O grande problema de O Jogo de Sombras é seu roteiro incompreensível. Kieran e Michele Mulroney certamente são fãs das obras de Sir Arthur Conan Dyle (o clímax com a inclusão de um dos momentos mais icônicos da história do personagem comprova isso), mas não são capazes de tecer uma trama inteligente e plausível – seus rumos e escolhas fazem pouquíssimo sentido, e a dupla usa o exagero na tentativa de soar inteligente – ou de aproveitar o material do longa anterior. Por exemplo, se no primeiro filme Holmes usava sua dedução para situações mais “simples”, como a observação a partir das vestimentas de Mary, aqui ela se aplica a momentos incalculáveis (como o assassino no escritório de Simza), beirando o sobrenatural.

Da mesma forma, Robert Downey Jr. exagera na performance de Holmes que ele dominou tão bem no longa de 2009. Se antes ele mostrava o detetive como uma criatura inteligente com um leve toque de excentricidade, o ator o transforma em um sujeito quase que insano, mesmo que faça isso de forma divertida. Sua química com o eficiente Jude Law continua convincente, enquanto Jared Harris faz de Moriarty um adversário interessante e assustador (mesmo que seu potencial não seja explorado ao máximo) e Stephen Fry mostra-se a melhor coisa do filme na pele de Mycroft, irmão do protagonista.

Mesmo que com uma trama exaustiva e confusa, O Jogo de Sombras consegue impressionar o espectador com suas excelentes cenas de ação. Com mais estilo na veia, Guy Ritchie usa melhor seus maneirismos visuais aqui, especialmente na memorável perseguição na floresta (que comporta uso de slow motion lentíssimo e expressões quase caricatas de seus intérpretes, digno dos trabalhos anteriores de Ritchie) que surge para salvar o terceiro ato. A direção de arte, mesmo que digital em sua grande maioria, continua excelente e Hans Zimmer continua com o violino afiado na trilha sonora (mesmo que não apresente muitas novidades, além dos acordes para Simza).

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras não agrada como seu anterior, e vai deixar o espectador cansado de tantas reviravoltas, descobertas e deduções que surgem descontroladamente e sacrificam os bons personagens. É bonito e empolgante em determinados momentos, mas não é um jogo que eu repetiria.