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| Laranja Mecânica | Cruel e perturbadora análise da mente humana

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de janeiro de 2011 by Lucas Nascimento

Abrem os créditos iniciais e a sombria Marcha Fúnebre do Queen Mary II ecoa pelos ouvidos do espectador, preparando-o para a perturbadora viagem que ele está prestes a embarcar. Corta para o jovem Alex, encarando a câmera, com um olhar malicioso e ao mesmo tempo ameaçador, junto com seus “drooges” (é como são chamados os membros de sua gangue) bebendo um copo de leite alterado e preparando-se para “boa e velha ultraviolência”.

É um ínicio forte para um filme forte. Stanley Kubrick adapta o livro de mesmo nome sobre o delinquente Alex, que rouba, estupra e provoca o caos em suas constantes saideiras noturnas com seus drooges pela cidade; cenas sempre gráficas e perturbadoras, retratadas por Kubrick de forma realista e fria, sempre usando planos-sequência sensacionais e memoráveis, como a psicodélica cena de sexo acelerada ao som de William Tel Overture, de Gioachino Rossini.

Apresentando o jovem Alex como um sujeito entediado e que cabula aula diversos dias, Malcom McDowell aparece sempre magnético em cena; com um sorriso malicioso e um olhar penetrante, o personagem é visto pelo espectador como uma pessoa má e perturbada – mas que certamente se diverte ao cometer atos criminosos -, até que conhecemos seu único traço humano e que pode mudar todas as suas decisões: a paixão pela música de Bethoveen, que também se mostrará como sua grande fraqueza ao decorrer da trama.

A grande reviravolta acontece quando, após um conflito hierárquico entre seus drooges – cuja causa foi, a música de Bethoveen -, Alex é abandonado na cena de um crime, que resultou em um assassinato – a reação de Alex ao perceber seu ato revela mais uma camada de humanidade – e levado à prisão, onde será submetido a um tratamento cruel de lavagem cerebral, visando “curá-lo” de sua mente criminosa – uma crítica feroz ao desejo de poder absoluto de instituições e políticos – e transformá-lo em um cidadão decente, mas paro de falar por aqui para não revelar grandes surpresas…

A fotografia de John Alcott é eficiente pelo uso correto de iluminação, que se destaca nos cenários coloridos e na montagem rápida, que provoca um certo desconforto em certos momentos. A trilha sonora mereceria uma análise a parte de tão boa: Kubrick seleciona algumas das melhores composições de Bethoveen – com destaque, claro para a Nona Sinfonia -, várias orquestras memoráveis e também “Cantando na Chuva”, do filme de mesmo nome, que revela-se como uma peça surpreendentemente fundamental no terceiro ato.

Com conteúdo gráfico que beira o pornográfico, Laranja Mecânica é um filme inesquecível, cujo conteúdos e temas são abordados de forma fria, pesada e repleta de metáforas, que prendem a atenção e marcam presença na lista de filmes que todo bom cinéfilo deveria assistir.