Arquivo para religião

| Noé | Épico bíblico com assinatura de Darren Aronofsky

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 3 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

NOAH
Noé radical: Barbona e máquina zero

Ao passear pela carreira do cineasta americano Darren Aronofsky, nem poderíamos imaginar que futuramente encontraríamos Noé entre as produções, geralmente centradas em personagens problemáticos que enfrentam grandes dilemas morais e surtos psicológicos. Mas terminada a sessão, é bem claro que o personagem-título deste novo filme é uma figura que se encaixa perfeitamente na carreira do diretor e que, fiel ou não ao material bíblico, oferece um estudo complexo e fascinante.

A trama adapta o icônico conto bíblico da Arca de Noé, quando Deus (ou, o Criador aqui) estava insatisfeito com a maldade do Homem e resolveu enviar um dilúvio para extinguir a humanidade e recomeçar do zero. A fim de garantir a sobrevivência dos animais, o Criador recorre ao ser humano que este julga como mais puro e digno da tarefa: Noé (vivido por Russell Crowe).

Eu realmente temia pelo futuro de Aronofsky quando este anunciou Noé como seu próximo projeto. Não só os grandes épicos bíblicos parecem esquecidos por Hollywood (curiosamente, agora mais produções do gênero estão para chegar nos próximos anos), mas também pelo inevitável embate cineasta autoral vs. grande estúdio americano. Felizmente, o diretor – que assina o roteiro ao lado de Ari Handel – faz uso de todas as ferramentas megalomaníacas de uma produção blockbuster para compor uma história esperta e permeada por discussões filosóficas mais complexas do que o esperado. A fotografia de Matthew Libatique é eficaz ao capturar lindíssimas imagens de ambientes primordiais (a razão de aspecto expandida da tela ajuda), o design de produção de Mark Friedberg impressiona pelo escopo e realismo da robusta arca e o figurinista Michael Wilkinson merece aplausos pela releitura radical no visual de seus personagens: desde um Noé barbudo e careca até o antagonista Tubal Cain (Ray Winstone), cujas vestes de couro se sobressaem diante de seus colegas de cena.

Tecnicamente impecável (com exceção daquelas horrorosas pombas digitais, que garantem uma premonição do que o remake de Os Pássaros nos aguarda), Noé realmente chama a atenção por seus significados. Classificá-lo como uma produção apelativa à religião seria um equívoco, até porque o filme traz diversos elementos da teoria evolucionista (que inclui uma das montagens aceleradas mais lindas já feitas, e que certamente deu dor de cabeça ao talentoso montador Andrew Weisblum). Nas mãos de Aronofsky (que, mera curiosidade, é ateu), Noé é um sujeito complexo e cuja devoção cega ao Criador o testa a refletir e contrariar sobre as mais delicadas questões: seriam todos os humanos mortos pelo dilúvio dignos de tal aniquilação? Definitivamente não. O momento em que Noé e sua família tentam se confortar no interior da arca, com os desesperados gritos abafados ecoando pelas paredes é um dos pontos altos da produção, já que quebra qualquer maniqueísmo em relação às motivações de seus personagens – incluindo as do próprio Criador.

O jogo fica ainda mais intrigante quando o roteiro nos revela até onde a devoção do protagonista a seu superior pode levá-lo, revelando facetas assustadoras – que Russell Crowe é excepcional ao exibí-las e contrastá-las com o retrato bondoso e amigável de Noé que vira traçando na primeira metade do longa. Sem entrar muito em detalhes, mas as decisões tomadas pelo protagonista no desfecho de tal evento são sutilmente refletidas nas figuras dos Guardiões – gigantes de pedra que parecem ter saído de uma escultura rupestre – que representam os anjos caídos; expulsos do Paraíso pelo Criador por sua compaixão à Adão. Quando se analisa a decisão final de Noé no longa, é um paralelo muito viável.

Embalado pela belíssima trilha sonora do mestre Clint Mansell, Noé é um épico cuja preocupação com os dilemas de seus personagens impressiona tanto quanto o espetáculo visual. Nas mãos de um cineasta do calibre de Darren Aronofksy, é uma obra rica e capaz de iniciar as mais diferentes discussões. Não importando qual religião ou crença.

Obs: O 3D convertido não machuca, mas também não oferece nada demais.

| Philomena | Um belo filme com inesperadas reflexões

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , on 27 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

philomena
Judi Dench e Steve Coogan: alicerces da produção

Surgindo como uma surpresa na temporada de premiações, o drama Philomena revela-se um delicado e ocasionalmente divertido filme assinado pelo britânico Stephen Frears (de Alta Fidelidade e A Rainha), ainda que sua premissa cave por temas dramáticos e controversos – rendendo uma série de reflexões inesperadas no processo.

A trama é inspirada nos acontecimentos reais que moveram a vida de Philomena Lee (Judi Dench), que há 50 anos vive sem notícias de seu filho bastardo – que surgira como consequência de uma escapada de seu convento católico, na década de 50. Ao mesmo tempo, o jornalista recém-desempregado Martin Sixmith (Steve Coogan) vê na história de Philomena a oportunidade de impulsionar sua carreira de escritor, e parte para ajudá-la a encontrar o filho perdido.

Philomena começa com a típica mistura de drama com comédia, sendo beneficiado apenas por seu roteiro esperto – assinado por Jeff Pope e pelo ator Steve Coogan – e o excelente entrosamento entre as duas performances centrais. Coogan mantém sua áurea cômica de forma bem sutil aqui, e a dosa bem com o ceticismo cínico de seu jornalista, enquanto Judi Dench surge absolutamente adorável na pele da personagem-título. Com as rugas e linhas de expressão a fim de torná-las parte fundamental de Philomena, a atriz de 80 anos arrasa ao adotar um acertado sotaque irlandês (que jamais soa estereotipado ou inverossímil) e se comportar sempre de maneira alegre, elogiosa e surpresa (como sua reação ao descobrir que as bebidas servidas no avião são grátis). Dench nos faz acreditar na figura da personagem, e certamente ela fará o espectador recordar de alguém que compartilhe de seu comportamento.

Ainda que o elenco e os diálogos sejam os dois atrativos de peso, o filme ainda se beneficia de quesitos técnicos fascinantes. A começar pela belíssima fotografia de Robbie Ryan, que captura fantásticas paisagens rurais e urbanas, seja nas ambientações rurais européias (as acabrunhadas árvores cobertas de neve em um momento-chave) ou nos hotéis e ruas de uma calma Washington. A trilha sonora de Alexandre Desplat confere energia e drama de acordo com as exigências narrativas (mesmo que o compositor pese demais nas passagens mais melancólicas), que trazem uma inesperada discussão a respeito de crenças religiosas e uma reviravolta final que coloca em discussão as práticas medievais de conventos católicos do século passado. Nada muito aprofundado, mas que ao menos desperta uma reflexão.

Mesmo que, aqui e ali, Frears pese a mão para arrancar algumas lágrimas, Philomena é um belo filme que encontra sustento em suas carismáticas performances centrais e o tratamento simples a temas delicados e complexos. Não é uma grande obra que será lembrada durante anos e anos, mas sem dúvidas rende um bom programa.

Obs: Esta crítica foi publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 26 de Janeiro.

| A Árvore da Vida | Uma peculiar reflexão filosófica sobre a vida humana

Posted in Cinema, Críticas de 2011, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , on 14 de agosto de 2011 by Lucas Nascimento


A Origem: Brad Pitt brilha no novo filme de Terrence Malick

A Árvore da Vida é o filme mais peculiar e estranho que você assistirá este ano. É uma tarefa difícil embarcar em sua complexa experiência e absorver seus profundos significados em apenas uma visita. O novo de Terrence Malick é simplesmente difícil.

A trama gira (pelo menos nos momentos em que estabelece-se um enredo) na relação entre uma família texana dos anos cinquenta, focando no rígido pai e seus três filhos. Há também um incompreensível paralelo com a criação do Universo.

Começar um filme no Big-Bang e avançar até os tempos atuais é um projeto ambicioso (e corajoso), isso sim. E não há dúvidas ou receios no que diz respeito ao talento de Terrence Malick quando este pega numa câmera; seus enquadramentos e movimentos são belíssimos. Mas é muito difícil receber e interpretar as (belas) imagens do filme.

Logo no começo, uma tremenda montagem sobre a origem do planeta (embalada por uma ópera magnífica), incluindo cachoeiras e dinossauros e vamos nos encontrando com os humanos. Com Brad Pitt em ótima forma e absurdamente expressivo como o sr. O’Brian, Malick começa uma reflexão cansativa e (pelo menos na minha opinião) incompreensível sobre as escolhas e o comportamento humano, especialmente em relação ao amadurecimento.

Outro grande ponto é a religião. O filme em si apresenta pouquíssimos diálogos, mas apenas frases profundas e complexas sobre aceitação e filosofia de vida, inserindo  também um discurso existencialista sobre o destino e uma abordagem sobre como o homem é pequeno em relação ao Universo e a Deus. A montagem insere imagens das mais diversas, e que muitas vezes não apresentam um motivo concreto ou justificado para estarem lá, mas que são espetaculares, são.

O elenco vem para ajudar o filme. Além do ótimo Brad Pitt, temos Jessica Chastain como a mãe da família, que esbanja serenidade e uma relação bem mais suave com seus filhos e também a natureza. As crianças do filme também são excelentes, e Sean Penn trabalha bem sua melancolia através de suas habituais expressões.

É difícil falar de A Árvore da Vida. Com certeza o filme tem um significado que vai além de religião e relações familiares mas, no meio das imagens sem nexo de Malick, eu não consegui compreender.