Arquivo para reviravolta

| Oldboy – Dias de Vingança | Crítica

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 5 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

2.5

Oldboy
Made in America: Josh Brolin até que honra o martelo

Se arriscar a refilmar qualquer filme é brincar com fogo. Se arriscar a refilmar o neo-clássico sul coreano Oldboy é brincar com um furioso dragão cuspidor de fogo com apenas uma pistolinha de água como arma contra seus sopros incinerantes. O filme comandado pelo excepcional Chan Wook Park em 2003 impressiona por seu estilo apurado, trama surpreendente e violência sem pudor, algo que seria difícil de ser encontrado no remake Oldboy – Dias de Vingança. Nenhuma surpresa que essa nova versão não chegue nem perto do impacto do original, mas até que Spike Lee tenta.

A trama preserva os mesmos elementos do filme de 2002 (ambos baseados no mangá de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi), trazendo o desleixado Joe Doucett (Josh Brolin, intenso como requer o papel) sendo misteriosamente sequestrado e mantido em cativeiro em um quarto de hotel por duas décadas. Sem explicação ou contato humano, Doucett é libertado e descobre ter sido incriminado pelo assassinato de sua mulher, precisando encontrar o responsável por sua captura e encontrar sua filha perdida.

Eu geralmente não tenho muitos problemas com remakes, desde que tragam uma lógica consistente em sua adaptação para um novo público – seja de geração ou país diferente. Já com este Oldboy, é outro cenário: falha ao oferecer algo diferente que Chan Wook Park já não tivesse realizado com maestria há 12 anos e Lee não consegue atingir o mesmo impacto dramático (e absolutamente perturbador) de uma das reviravoltas mais sombrias de todos os tempos. O filme nunca nos envolve, nunca nos faz emergir na história como o original – que trazia até mesmo longas tomadas em POV para alcançar tal feito.

Uma pena, já que Spike Lee claramente tenta entregar um serviço decente. Sua direção é estilosa e energética ao retratar a passagem de anos nas cenas do hotel, agradando também por sua abordagem visual interessante nas sequências de flashback (que trazem os personagens “assistindo” os eventos em meio ao desenrolar destes) e por um plano-sequência particularmente inspirado. O mesmo não pode ser dito sobre sequências imortalizadas no original: a famosa luta do martelo? Bacana, Lee até tenta elevar o nível ao… trazer mais níveis para o cenário, mas não deixa de soar excessivamente coreografado. Condenável também a decisão do diretor em abusar de efeitos digitais visivelmente artificiais (sangue digital, até quando?), mas completamente apoiada a decisão de Sharlto Copley em construir um antagonista que se baseia completamente em quesitos do tipo – seja em visual, ou o bem-vindo exagero de sua performance.

Oldboy – Dias de Vingança não é nem um tentáculo do maravilhoso crustáceo que é o filme original sul coreano. Spike Lee se esforça, mas é incapaz de oferecer algo relevante para a história (talvez no final, que apresenta elementos completamente novos). Interessante como uma rápida cena deste remake o resume perfeitamente: Joe entra em um restaurante chinês e indaga uma lula viva no aquário. Fãs do original certamente perceberão a referência, mas será que o protagonista aqui teria mesmo a audácia de devorar o invertebrado vivo, como fez o ator Min-sik Choi?

Claro que não.

Anúncios

| O Escritor Fantasma | Suspense ágil e intrigante

Posted in Críticas de 2011, DVD, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , on 4 de janeiro de 2011 by Lucas Nascimento


Ameaça Fantasma: A nova arma de McGregor não é um sabre-de-luz…

Um dos elementos narrativo-visuais que mais me intrigam no cinema é a elaboração do tom e a criação da atmosfera, a sensação de perigo (como aquela explorada tão bem em Deixa ela Entrar), que vem em consequência da fotografia, do departamento de som e da habilidade do diretor. O Escritor Fantasma preenche todos esses requisitos, criando um suspense ágil e imprevisível.

Partindo de uma ideia muito interessante, o filme acompanha um habilidoso escritor fantasma (sujeitos que secretamente escrevem um livro para que outra pessoa receba os créditos) contratado para trabalhar nas memórias de um ex-ministro dos EUA chamado Adam Lang (Pierce Brosnan, com carisma impressionante), acusado de crimes de guerra e constantemente ameaçado por multidões e protestantes.

Sem nunca ter seu nome revelado, o Escritor Fantasma já está em perigo mesmo antes de começar o trabalho (o escritor anterior de Lang fora encontrado morto) e ao longo do filme, apresenta-se inseguro, mas determinado, cujos traços são explorados por Ewan McGregor excepcionalmente, naquela que é uma das melhores performances de sua carreira (não que ela seja espetacular, mas aqui ele realmente se destaca), dedicando uma vivacidade respeitável ao papel.

Nesse mundo político perigoso, o Escritor sempre parece estar em perigo, graças à brilhante direção de Roman Polansky, que opta por planos silenciosos e enquadramentos que colocam o espectador quase que dentro do protagonista, estabelecendo assim, uma relação melhor com o personagem e aumentar o suspense diante das (possíveis) ameaças que ele enfrenta – com destaque à tensa perseguição dentro de uma barca, fotografada maestramente por Pawel Edelman, que usa e abusa de lindos tons frios e chuvosos, casando perfeitamente com a sempre genial trilha de Alexandre Desplat.

Escrito por Polansky e Robert Harris – baseando-se no livro deste último -, o roteiro é cheio de diálogos memoráveis e frases marcantes (destaque para: “Um escritor fantasma numa estreia de seu livro é como uma amante em um casamento”), a trama se desenrola um pouco devagar, mas culmina em reviravoltas chocantes e um dos planos finais mais sensacionais da década, que não será esquecido tão cedo.

O Escritor Fantasma é um trabalho respeitável e surpreendente, que prende o espectador do começo ao fim, apresentando temas reais (a comparação entre Adam Lang e Tony Blair é inevitável), um elenco persuasivo e a intrigante direção de Roman Polansk, um gênio da sétima arte que continua nos impressionando seu imenso talento.