Arquivo para sátira

| Mapas para as Estrelas | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de março de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

MapstotheStars
Julianne Moore: A Norma Desmond do século XXI

O lado negro de Hollywood sempre foi um tema saboroso dentro do próprio cinema. O exercício satírico de metalinguagem já nos rendeu obras do calibre de Crepúsculo dos Deuses, Assim Estava Escrito, O Jogador e até o recente vencedor do Oscar Birdman. Mas quando o cineasta David Cronenberg entra no jogo com seu ácido Mapa para as Estrelas, teremos algo diferente.

A trama parte do roteiro original de Bruce Wagner (cujo único projeto com mais popularidade foi, veja só, A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos), que nos apresenta a diferentes narrativas que vão se cruzando em Los Angeles. Temos Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz esquecida que luta desesperadamente por um papel importante; Agatha Weiss (Mia Wasikowska), uma jovem que acaba de chegar em Hollywood para conseguir emprego no show business; Benjie Weiss (Evan Bird), um pré-adolescente famoso que acaba de sair de uma desintoxicação de drogas, embarcando em mais um capítulo de sua popular franquia teen.

Narrativamente, Mapas para as Estrelas constrói um ritmo sólido ao equilibrar e distribuir com inteligência as diferentes personagens e situações (créditos a Ronald Sanders, o habitual montador de Croneberg). O texto de Wagner também é divertido no mais genuíno humor negro e traz ótimas referências, ao mesmo tempo em que traça caricaturas sutis de figuras como Macauly Culkin ou o guru espiritual vivido (de maneira pouco convincente, confesso) por John Cusack. O problema é que o roteiro une os personagens através de artifícios pouco naturais, e que apelam para um certo sensacionalismo: a questão do incesto é certamente um dos elementos “Cronenbergianos” aqui, e vai variar muito de espectador para espectador o resultado. Resta dizer que a projeção desaba em seus minutos finais (e prefiro não comentar a incineração digital mais artificial e vergonhosa que já vi na vida).

Porém, Cronenberg também acerta em outra de suas especialidades: alucinações. Aqui, a Havana Segrand de Julianne Moore sofre com a perseguição do fantasma de sua mãe, também atriz, representando o inteligente simbolismo sobre Havana lutar para estrelar o remake de um filme de sua mãe. E Moore está absolutamente fantástica, criando uma personagem multifacetada e tridimensional, jamais soando como uma figura fantasiosa – mesmo que a atriz grite, pule e dance estranhamente – mas sim um ser humano real e palpável. Quando recebe uma notícia trágica que pode ajudá-la a conseguir o papel, as nuances de Moore são acertadamente enigmáticas: ao mesmo tempo triste, ao mesmo tempo eufórica – e a dancinha histérica nos revela quem vence a batalha interna de Havana. Não seria exagero taxá-la como a Norma Desmond do Século XXI.

Ainda que não estejam no nível de Moore, o elenco coadjuvante também impressiona. Robert Pattinson se sai bem como o motorista de Limusine, mesmo que com pouco tempo de cena, enquanto o novato Evan Bird entrega um trabalho cativante na pele do jovem Benjie. E embora eu esteja farto de ver Mia Wasikowska no papel da “maluquinha excêntrica”, sua performance aqui agrada pela complexidade que sua Agatha traz – e o trabalho do design de figurino é sutil ao sempre apresentá-la com longas luvas pretas, a fim de esconder suas queimaduras.

Mapas para as Estrelas é um longa interessante e muito capaz de entreter com seus personagens moralmente repreensíveis, mas nem por isso menos atraentes. Não é uma narrativa forte, mas funciona como uma ácida sátira.

| O Grande Ditador | A feroz sátira de Charlie Chaplin ao nazismo de Adolf Hitler

Posted in Clássicos with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Charlie Chaplin traça uma genial caricatura de Adolf Hitler

O inglês Charles Chaplin sempre foi um cineasta que respondia adequadamente aos acontecimentos de sua época, usando o cinema como uma ferramenta de crítica social e reflexão, sempre com o humor inconfundível do talentoso ator/diretor. Lançado em 1940, seu primeiro filme falado, seu tema não poderia ser mais polêmico para a época: Adolf Hitler e o nazismo, na obra de arte O Grande Ditador.

Satirizando o ditador que comandou o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, Chaplin troca nomes e inventa países (com clara intenção de fazer uma paródia mais subjetiva), mas é bem evidente para qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento em História que o ator interpreta Hitler (ou Hynkel) ao proclamar seus agressivos e gritantes discursos. Interessante como Chaplin opta por não colocar legendas em tais cenas, enfatizando que os anúncios do ditador eram incompreensíveis, com enormes substantivos e palavras com mesmo significado. Gênio.

Indo além dos discursos, Chaplin diverte-se ao apresentar um senso de humor brilhante na sequência ambientada em seu palácio na “Tomainia”, onde Hynkel mostra-se um homem extremamente ocupado com situações estúpidas (como ter um quadro com sua imagem pintado ao mesmo tempo em que tem uma escultura de seu rosto sendo feita) e a política de guerra com nações rivais e aliadas – como a presença hilariante de “Napaloni”, óbvia caricatura de Benito Mussolini. Poucas vezes um personagem foi tão bem simbolizado quanto na cena de dança com o globo, que representa o desejo de dominação mundial de Hynkel.

E se o ator explode de carisma como Hynkel, ele mantém seu estilo irreverente e trapalhão ao representar um segundo personagem: o Barbeiro Judeu. Veterano da Primeira Guerra e com problema de amnésia, é um homem que luta contra os regimes totalitários em um gueto da Tomainia, onde protagoniza momentos memoráveis (como a impressionante cena da barbearia ao som de “Hungarian Song No. 5”) e segue rumo a um desfecho que é dos mais inesperados e divertidos.

Lutando também contra dificuldades da época, o filme oferece excelentes cenas que hoje provavelmente seriam feitas com uso de efeitos digitais, como a ótima cena de abertura. Ambientada em uma batalha da Primeira Guerra Mundial, o tratamento é cativante e envolve o espectador no momento, sendo até caricaturial na composição de armas gigantes e a dificuldade dos soldados em manejá-las.

Sempre intrigante e envolvente, O Grande Ditador oferece momentos de verdadeira diversão, mas com muitas discussões e reflexões sobre os ideais e motivos que prevaleceram na ditadura nazista de Hitler, culmindo em um inesquecível discurso final que certamente foi impactante em sua época de lançamento. E até hoje.