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Grade Mental | Os símbolos em MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA

Posted in Artigos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 22 de maio de 2015 by Lucas Nascimento

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Se você ainda não assistiu a Mad Max: Estrada da Fúria, corra. Você certamente ouviu muitos elogios calorosos por aí, e o retorno de George Miller ao universo do Guerreiro da Estrada é realmente primoroso, concretizando-se como um dos maiores filmes de ação dos últimos tempos. Assistam, sério.

E outra: este post discutirá spoilers do filme.

É um fato que Estrada da Fúria não tem uma trama mega elaborada, com reviravoltas e elementos complexos. No entanto, isso não faz com que o filme seja pobre em conteúdo; muito pelo contrário. A narrativa simples e linear permite que George Miller e sua equipe criem algumas das mais insanas cenas de ação que você verá na vida, ao mesmo tempo em que têm a oportunidade de dedicar imenso esforço ao visual. A direção de arte é disparado o departamento mais detalhado, seja na confecção de figurinos, veículos, armamentos e qualquer outro tipo de objeto. Um deles, no entanto, chamou muito minha atenção – e não só por ser absolutamente irado: a focinheira de Max Rockatansky.

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A focinheira com um icônico tridente

Vamos dar aquela situada básica: No começo do filme, Max é capturado no deserto pelos Garotos de Guerra do tirano Immortan Joe. Ele é amordaçado, marcado como um boi e confinado a uma focinheira que eu deduzo ser muito desconfortável; a fim de controlar suas resistências violentas enquanto serve como “bolsa de sangue” no veículo do mutante Nux (Nicholas Hoult). Mas há algo muito particular nesse objeto repreensivo: sua fronteira bocal, que notavelmente traz uma grade em forma de tridente. Agora, tridente nos trás duas referências muito verossímeis no filme: o tridente de Poseidon, já que a água é um dos elementos mais cobiçados no futuro pós-apocalíptico e, aquele que é o tema deste artigo, o símbolo da Psicologia.

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O Tridente da Psicologia

Bom, não sou nenhum especialista no assunto, mas minha namorada muito mais competente me deu uma aulinha básica sobre alguns dos diferentes significados do tridente:

– As três pulsões: Sexualidade, Auto Conservação e Espiritualidade

– Pode referir-se às Forças Teóricas da Psicologia, o Humanismo, Comportamentalismo e Psicanálise.

– Teoria Freudiana: Ego, Superego e Id

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Immortan Joe: a síntese de Poseidon e Satã

Se seguirmos uma interpretação mais mística, nos deparamos, novamente, com a a presença mitológica de Poseidon e até com a figura cristã de Satanás, que também porta um tridente característico. Nessas duas figuras, a referência lógica é o vilão Immortan Joe: não só é o detentor da água da Cidadela, como também revela-se um ser sórdido, manipulador e reverenciado como um deus – possuindo escravos, mulheres obrigadas a lhe dar leite eternamente e um guitarrista literalmente encapetado. Este é um dos símbolos.

Então, voltamos à focinheira de Max. O louco Max, como o título de todos os filmes da franquia nos revelam. Rockatansky é um homem profundamente perturbado pela perda de sua família, e pelas lembranças daqueles que não conseguiu salvar em sua carreira como policial. Alucinações e vozes dentro de sua cabeça claramente nos indicam que o personagem não é mentalmente equilibrado. Durante sua captura e confinamento na focinheira, podemos interpretar uma espécie de “tratamento de choque” no personagem, dada a presença do tridente nesta e as mudanças que o próprio Max enfrenta. É um solitário e um individualista, cuidando da própria vida num futuro hostil, mas tudo muda quando ele é jogado no mundo de Imperator Furiosa (Charlize Theron), uma rebelde que fugiu da Cidadela de Immortan Joe com suas Esposas.

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Max e a coleira de Nux

Quando Max conhece Furiosa, ele está literalmente em uma coleira, ligada à sua focinheira e o pulso de Nux. O próprio George Miller declarou que vê Max como um cão selvagem que necessita de retenção, então quando Furiosa resolve ajudá-lo a se livrar do bocal, o processo continua em duas linhas: o estudo mental e a animalização. No momento em que Max concorda em ajudar Furiosa em sua missão de escapar com as esposas de Immortan Joe, ele encontra uma forma de “consertar” seus fracassos passados e atingir uma espécie de rendenção (que também é o objetivo principal da Imperatriz), ao mesmo tempo em que doma sua fera interior. Dessa forma, Furiosa também aprende a “domar” a fera que existe em Max, no momento em que lhe entrega um instrumento para abrir a focinheira, culminando na reveladora cena em que o  ex-policial desiste de atirar um rifle sniper e empresta seu ombro para que a rebelde passe a atirar – reconhecendo sua superioridade no quesito, em um dos muitos índices da forte presença feminista no filme.
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Max abraça a solidão em dois momentos distintos

Tendo visto o filme duas vezes, posso afirmar com certeza que as vozes e alucinações que assombram Max no primeiro ato não se manifestam após sua liberação da focinheira, com exceção de dois momentos reveladores: quando Max decide tomar seu próprio caminho após a frustração de Furiosa em descobrir a ruína de sua terra natal – e Miller até nos presenteia com uma rima visual que remete diretamente ao primeiro plano do filme, como se todo o ciclo fosse recomeçar caso Max permanecesse ali – e ao levar uma flechada quase letal, jogando-o em uma espécie de quase-morte, fazendo sentido a aparição fantasmagórica de sua filha (Max quase se junta a ela, afinal). Não estou dizendo que a focinheira era uma espécie de artefato mágico, mas sim uma metáfora para sua transformação que viria a seguir.

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Furiosa: libertadora de escravas, domadora de feras e reparadora de mentes

Na triunfante cena final, Max consegue com sucesso acompanhar Furiosa, as Esposas e as Mães de volta à Cidadela, onde o grupo é recebido com clamor e felicidade em decorrência da morte de Immortan Joe. Furiosa ascende, e Max discretamente se mistura à multidão e segue em seu caminho solitário (afinal, Max sempre foi o andarilho que acaba metido na história de outra pessoa), após trocar olhares de satisfação com sua parceira. Sua missão está cumprida, e não temos sinal das vozes ou alucinações de Max – ou seja, a redenção foi encontrada e, pelo menos nesta narrativa (futuras continuações podem me contrariar, claro), o distúrbio mental do protagonista teria chegado ao fim. A focinheira de tridente foi um mero símbolo, mas pelas mãos de Furiosa e de suas ações para ajudá-la, o Louco Max talvez não seja mais tão louco quanto o título sugere.

Por fim, o que essa análise nos revela? A importância de um trabalho sólido de customização e direção de arte, pois mesmo que Miller não tivesse a menor intenção de provocar a discussão, certamente tinha ciência do tipo de símbolo que colocara ali (aliás, encontramos referências diversas em Estrada da Fúria, de ecologia à mitologia nórdica) e só isso já garante ainda mais mérito à produção.

Muito para um filme que é assumidamente uma longa perseguição de carros.

Ação também é Arte.

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Clique aqui para ler em inglês

| Um Método Perigoso | Uma aula de psicanálise, para os afeccionados

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Drama with tags , , , , , , , , on 31 de março de 2012 by Lucas Nascimento


Michael Fassbender é o dr. Carl Jung, Viggo Mortensen é o dr. Sigmund Freud

Sou um leigo quando se trata de psicologia e psicanálise, mas até o mais ignorante do assunto sabe a importância de Carl Jung e Sigmund Freud para o estudo da área. Duas mentes intrigantes e diferentes, têm seu encontro dramatizado pelo cineasta David Cronenberg em Um Método Perigoso, longa que traz excelentes atuações mas uma execução difícil de ser acompanhada pelos não-adeptos da ciência da mente humana.

A trama é centrada principalmente em Jung (Michael Fassbender), que aplica os métodos de Freud (Viggo Mortensen) em sua paciente perturbada, a russa Sabrina Spielrein (Keira Knightley). O longa então avança até o encontro dos dois, onde discutem conceitos que se tornarão fundamentais nas teorias de cada um, assim como uma iminente desavença.

É muito difícil falar sobre Um Método Perigoso sem ter um conhecimento prévio sobre a vida ou os feitos dos psiquiatras retratados. O roteiro de Christopher Hampton tece diálogos muito interessantes, mas que tornam-se longos e sem um apelo significante ou que capture a atenção do espectador durante todo o tempo. Há diversos elementos intrigantes sobre as teses de Jung e Freud (que, devo admitir, despertaram-me interesse em conhecer melhor seus trabalhos) e Cronenberg cria uma boa lógica quanto aos enquadramentos, especialmente naquele em que o médico senta-se atrás do paciente – acredite, isso ocorre constantemente. Vale ressaltar a bela “homenagem” à O Poderoso Chefão Parte II no clímax.

Mas não precisa ser afeccionado por psicologia para apreciar um bom elenco. Sem dúvida um dos melhores atores da atualidade, Michael Fassbender continua marcando seu território na indústria, e o faz muitíssimo bem ao retratar Jung como um homem otimista e politicamente correto, ainda que facilmente manipulável por colegas da profissão. No caso, seu mentor Freud que é interpretado com dedicação e calma por Viggo Mortensen, em um trabalho memorável, ainda que breve. Já Keira Knightley… Seus surtos na primeira parte do longa são exagerados ao extremo e podem até provocar risadas (lembra daquela piada do Kirk Lazarus em Trovão Tropical? Sobre assumir o papel de um deficiente com tamanha fidelidade? É isso que acontece).

Com um ritmo irregular e uma trama central que simplesmente não empolga, Um Método Perigoso é um belo exercício de atuação para Fassbender e Mortensen. Mais uma vez, não sou especialista nessa ciência então, por esse motivo, não absorvi por total a experiência que o sr. Cronenberg promoveu. Mas não seria obrigação da Sétima Arte, funcionar por si própria e não depender de outras mídias?

Bem, ao menos me despertou o interesse no assunto…