Arquivo para sustos

| Corrente do Mal | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , on 30 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

ItFollows
A ótima Maika Monroe

É interessante observar que, nos últimos anos, o gênero do terror vêm encontrando um admirável sopro de vida no cinema independente. No ano passado, a crítica caiu de joelhos para The Babadook (que pessoalmente achei apenas bom), e o responsável por sacudir festivais este ano foi Corrente do Mal, terror psicológico que aposta fortemente nas alegorias e metáforas a fim de conseguir um terror muito decente.

A trama começa quando Jay (Maika Monroe) transa pela primeira vez com seu namorado, Hugh (Jake Weary). Após a relação, Hugh revela que algo sinistro começará a seguir Jay, a menos que ela consiga passar aquilo que lhe foi transmitido adiante, levando a garota a ter assustadoras alucinações. Junto com os amigos, ela procura uma forma de eliminar esse mal misterioso.

Evidentemente, aquilo que se segue em Corrente do Mal é uma metáfora para doenças sexualmente transmíssiveis, o que me traz à mente célebres momentos em que o gênero serviu de alegoria social: seja o consumismo no Madrugada dos Mortos original ou o McCarthismo em Os Invasores de Corpos (não por acaso, a história se passa na década de 50, ainda que diversos anacronismos se destaquem, propositalmente), o filme do estreante David Robert Mitchell acerta na comparação, sem deixá-la tão forçada. Como artista do horror e do suspense, Mitchell revela-se um prodígio: sua câmera é discreta, mas elaborada, adotando zooms lentos e pans em tomadas abertas que nos ajudam a ter uma boa noção da geografia do aconchegante subúrbio, além de serem poderosas ferramentas para tensão.

Depois de muito observamos e sentirmos a perseguição invisível de Jay, Mitchell começa a revelar a manifestação física “daquilo que segue”, e sabemos que o diretor é inteligente quando, sendo em sua maioria pessoas normais, conseguem nos apavorar sem muito esforço. A mera imagem de uma idosa toda de branco se aproximando lentamente pelos corredores de uma escola (um ambiente no qual claramente não pertence) assusta pela simplicidade, e pelo fato de o espectador não entender do que se trata. Não há muitos jump scares aqui, no lugar, temos a pavorosa trilha sonora de Mike Gioulakis, que fornece a atmosfera ideal com seus abstratos e distorcidos sons, que trazem forte influência de Ligeti.

Se há um problema com o filme, é no terceiro ato. Sem querer entregar em spoilers, mas a solução do roteiro (também de Mitchell) pareceu-me “videogamica” demais, ainda que a decisão de encená-la numa piscina faça bastante sentido, ainda mais pela rima visual em relação à primeira aparição de Jay no filme.

Corrente do Mal é uma inteligente e original entrada no atual gênero do terror. Em tempos em que o público parece apenas se interessar em sustos baratos, é bom ver uma produção autoral se arriscando com o minimalismo.

| A Forca | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Terror with tags , , , , , , , , , , , on 23 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

1.0

TheGallows
You got red on you

Logo após os primeiros minutos do terror A Forca, um letreiro interrompe a sessão para informar ao espectador que o material assistido “é propriedade do departamento de polícia de Nebraska”. Minha dúvida é: alguém realmente ainda acredita nessa jogada de marketing que, mesmo ligeiramente divertidinha, já está gasta desde que A Bruxa de Blair “inaugurou” o gênero found footage? Pode atrair mais público, claro, mas definitivamente não tornará o filme melhor. A Forca que o diga.

A trama é assinada pela dupla de novatos Travis Cluff e Chris Lofing (que também são responsáveis pela direção), ambientando-se às vésperas de uma peça de teatro, preparada por uma escola de Nebraska. O projeto é polêmico, já que um aluno morreu num acidente trágico há décadas atrás enquanto encenava um papel delicado da produção, entitulada “A Forca”. Quando um grupo de amigos invade a escola à noite, se deparam com o espírito maligno do jovem morto, assombrando o teatro.

Confesso que a união do found footage com uma trama mais claustrofóbica até parecia interessante no papel (afinal, encontramos até viagens no tempo forçando a barra com o uso do estilo), mas não demora até que o espectador se encontre temeroso pela imbecilidade na qual embarcará. Nenhum dos personagens é interessante, e somos forçados a ficar boa parte do longa na companhia do aborrecente Ryan Shoos, mistura de Draco Malfoy com James Gunn que é o gênio por trás de ideias geniais e falas como “Hei cara, vamos invadir a escola a noite e destruir o cenário da peça, assim você não precisa participar e a garota vai querer ficar com você”. Hilário, mas trágico quando percebemos que este é o incidente incitante da trama… Que é levado a sério pelos protagonistas…

Quando todo o grupo está reunido na escuridão e nos cômodos vazios do colégio, a dupla de diretores até consegue criar certa tensão. Claro, qualquer um com uma câmera e uma lanterna é capaz de fazer isso, mas Cluff e Lofing – sem surpresa alguma – apostam principalmente nos jump scares baratos, sendo bem sucedidos em criarem sustos irritantes, mas raramente algo que de fato provoque pavor. Vale apontar que a dupla começa a apelar para a suspensão de descrença quando um dos personagens afirma ter “um aplicativo de visão noturna” em seu celular, nos revelando como a estética de found footage vai ficando sem ideias.

A ameaça de Charlie até interessa por seu visual curioso, mas contém uma reviravolta que é simplesmente idiota demais para ser levada a sério, pegando a simples premissa de um elemento sobrenatural e esticando para criar uma “grande saga de gerações”. Nada sutis, Cluff e Lofing ainda nos presenteam com tenebrosas exposições, ainda nos primeiros SEGUNDOS de projeção, quando vemos uma apresentação da peça original seguida de um cochicho “Charlie está muito bem na peça, mesmo levando em conta a substituição de última hora” ou “Uau, eles capricharam naquela forca”. E o que dizer do noticiário que afirma que “mesmo com a tragédia, o espírito de Charlie viverá para sempre naquele teatro”? Parei.

A Forca é um dos mais preguiçosos e risíveis exemplares do gênero found footage até hoje. Começa com uma boa premissa, mas se perde em meio a um roteiro estúpido, personagens desinteressantes e nada realmente especial. Agora fico com medo do atual estado do gênero de terror nos EUA.

Obs: Se aguentar ficar até os créditos, verá uma dedicatória a Charlie. Suspiros.

Confira o novo trailer de ANNABELLE

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , on 21 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

ANNABELLE

Depois do breve teaser, o spin off de Invocação do Mal, Annabelle, ganha agora seu primeiro trailer completo. Ainda não detalha completamente a história (o que é bom), mas revela mais alguns momentos de terror e sustos (não tão bom, quero guardar as surpresas). Enfim, confira:

Annabelle estreia em 9 de Outubro no Brasil.

| A Marca do Medo | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

2.0

TheQuietOnes
Jared Harris e a novata Olivia Cooke

É curioso que logo após a estreia de O Espelho, terror psicológico eficiente e inteligente em sua proposta ligeiramente inovadora, surja uma obra que faça justamente o oposto. Novamente, sou forçado a repetir: terror, como a comédia, é um gênero pessoal, assusta um mas pode não provocar o menor efeito em outro. Uma coisa, no entanto, é universal, e é a de que existe uma diferença sutil entre causar medo e dar susto. Se O Espelho era um bom representante da primeira, A Marca do Medo é um fiel da segunda.

Alegadamente inspirada em fatos reais (hoje em dia, que terror não é?), a trama tecida por Craig Rosenberg, Oren Moverman e o diretor John Pogue – que também é baseada em um roteiro de Tom de Ville – viaja para 1974 para relatar experimentos que o professor Joseph Coupland (Jared Harris) mantinha com um grupo de alunos, visando provar que fenômenos sobrenaturais seriam nada menos do que manifestações do subconsciente, provocados por doenças mentais. A paciente em questão é a suicida Jane Harper (Olivia Cooke), que carrega consigo um mal desconhecido.

 De primeira, o filme de John Pogue instiga pela abordagem científica, elemento sempre válido no gênero. Adicionando a ambientação de época dos anos 70, que o designer de produção Matt Brant é eficaz ao recriar em seus discretos interiores, parecia uma oportunidade válida para replicar o sucesso do recente Invocação do Mal (outra obra ambientada no período), brincando também com a nova mania da narrativa found footage, já que o filme traz diversas cenas com formato e resolução de imagem menores – simulando as câmeras da época.

No entanto, Pogue opta pela saída mais fácil. Ao invés de cuidadosamente criar uma atmosfera perturbadora que lentamente vai crescendo até o ponto do terror verdadeiro, o diretor prefere sacanear a platéia com os típicos jump scares que surgem abruptamente durante toda a projeção: mesmo que seja uma simples batida na porta ou um objeto insignificante caindo no chão. E eu realmente fiquei interessado em saber que tipo de aparelhagem audiovisual de 1974 é capaz de capturar “sons de sustos” em alta definição, mesmo que as demais vozes e efeitos surjam com um ruído característico. Aparentemente os fantasmas já tinham THX.

Mas nem ligaria pra isso se pelo menos tivessemos personagens interessantes o suficiente para nos importarmos, outro elemento ausente. Jared Harris até se garante com sua forte presença de cena, sugerindo uma áurea sinistra a seu personagem (não esqueça, ele é o cara que entregou aquele Moriarty genial em Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras), mas nem Sam Claflin (de Jogos Vorazes: Em Chamas) nem nehum outro dos estúpidos arquétipos cujos nomes não me interessam, são capazes de se identificar com o espectador. Reconheço, pelo menos, a talentosa Olivia Cooke, que tem o papel mais difícil e exigente fisicamente; tarefa que a jovem cumpre bem ao trabalhar seu olhar e ao constantemente sugerir que Jane estaria possuída em momentos diferentes.

Bem, convenhamos: todo mundo leva susto. É inevitável. Podemos até prever quando um deles surgirá, mas é uma reação natural do sistema nervoso dar um pulo na cadeira ou um leve arrepio quando este surge. Se A Marca do Medo se contenta em simplesmente arrancar essas reações efêmeras do público, tudo bem: funciona. Agora, quem estiver buscando um horror genuíno, construindo com cuidado e capaz de se estender engenhosamente por toda a projeção, sugiro procurar outra opção.

Obs: Durante os créditos são exibidas algumas imagens reais da história.

| O Espelho | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Suspense, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 6 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

Oculus
Espelho, espelho meu: Karen Gillan encara o passado

Inteligente não é a denominação que normalmente se espera de um filme de terror, já que seu propósito é justamente fugir do racional e perturbar a plateia com sustos um atrás do outro, mas realmente não vejo como classificar O Espelho de outra forma. Vai certamente decepcionar quem esperava um terror mais tradicional ou óbvio, mas os interessados em uma história mais complexa vão se prender.

A trama acompanha os irmãos Kaylie e Tim (Karen Gillan e Brenton Thwaites, competentes) que lidam com a tragédia da morte de seus pais, sendo o pai responsável pelo assassinato da esposa e o irmão mais novo pelo de seu pai, em uma medida desesperada para impedi-lo de matar sua irmã. Anos depois, Tim é libertado de um reformatório juvenil e sua irmã tenta convencê-lo a ajudá-la a destruir um misterioso espelho, onde ela acredita viver uma entidade sobrenatural que teria influenciado seu pai a cometer as atrocidades.

O gênero do terror é – ao lado da comédia – o mais difícil de se acertar. No ano passado, o sucesso surpreendente de Invocação do Mal, uma obra eficiente e bem sucedida ao explorar com maestria os elementos do terror, deu gás a o cada vez mais esgotado gênero. O Espelho não é um filme impactante quanto o de James Wan, mas surpreende justamente por colocar os sustos em segundo plano, dando força ao bom roteiro de Jeff Howard e do diretor Mike Flanagan (que já havia comandado um curta-metragem sobre o mesmo assunto) e servindo mais como um suspense psicológico; ainda que os elementos sobrenaturais cumpram seu papel de arrancar calafrios.

O aspecto mais forte aqui certamente é o brilhante trabalho de montagem de Flanagan, que oferece um jogo narrativo inteligente e que raramente encontraríamos em um longa do gênero. Tendo como plano de fundo duas histórias em espaços temporais distintos, a montagem brinca com as mais diversas elipses e transições, chegando até mesmo ao ponto de compartilharem o mesmo espaço: a versão adulta e jovem de Kaylie e Tim “interagem” diversas vezes, quase transformando o passado no verdadeiro antagonista – um fantasma, por assim dizer. E como o espelho é um objeto central, não deixa de fascinar como as duas tramas vão cada vez mais se assemelhando, quase como um reflexo uma da outra. A fotografia digital de Michael Fimognari contribui nesse quesito ao tornar o ambiente mais ameaçador nas cenas do passado, mas sem jamais alterar paleta de cores para algo muito irreal.

Contando também com um desfecho em aberto que provavelmente irritará grande parcela do público, O Espelho talvez seja um dos filmes de terror mais inteligentes dos últimos tempos, ainda que leve na categoria de realmente assustar. É mais uma obra que incomoda pela atmosfera pesada, que explora as expectativas e surpreende ao revelar-se algo mais complexo do que o prometido.

Bom ver que o mais gasto dos gêneros ainda é capaz de surpreender.

| Invocação do Mal | Uma aula de como se fazer terror no cinema

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 13 de setembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

TheConjuringWho you gonna call? Vera Farmiga e Patrick Wilson

Antes de entrar na sala para a sessão de Invocação do Mal, o bilheteiro do cinema olhou para o título do filme presente nos ingressos e soltou um apavorado “boa sorte” a mim e minha amiga. Primeira vez que encaro uma situação divertida como essa e, ao fim da projeção do longa, ressalto – ainda suando devido à tensão provocada por estes 110 minutos – que o funcionário não exagerara. Temos aqui um dos melhores filmes de terror dos últimos anos.

Na trama, uma família acaba de se mudar para uma casa enorme e misteriosa, mas não demora para que seja sentida a presença de entidades paranormais dentro do local (como sempre). O que faz a diferença é a presença do casal de demonólogos/investigadores/caça-fantasmas Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, ambos excelentes) que é contratado para analisar e tentar por um à sinistra situação. Tudo isso baseado em fatos reais – mas, claro, pode apostar que há muita ficção aqui.

Quando o gênero demanda fenômenos sobrenaturais, não tem como alterar muito a fórmula. O roteiro assinado por Chad e Carey Hayes mantém-se à tradicional premissa da “casa mal assombrada”, mas acerta ao trazer, de forma controlada e coesa, praticamente TODOS os elementos populares nas mais diferentes variações do gênero: espíritos, demônios, exorcismos, brinquedos sinistros, fotos borradas, câmeras dentro da história… Daria pra passar a madrugada inteira enumerando-os. Isso sem falar que a dupla acertadamente brinca com diversos “medos clássicos”, como a suspeita de aparições embaixo da cama ou no interior de armários – todos esses escapam do velho clichê do susto rápido, graças à competência de seu diretor.

Aliás, que revelação é James Wan. Saído de projetos medianos dentro do gênero (seu longa mais famoso é o primeiro Jogos Mortais, além de ter sido contratado para comandar o sétimo Velozes e Furiosos), Wan demonstra um talento invejável para causar medo – e não apenas sustos – no espectador. Optando por longos planos que exploram cada cômodo da residência em um cruel exercício de provocação, o diretor é hábil ao criar movimentos de câmera inteligentes e que contribuem na revelação de suas perturbadoras ameaças (e quando as vemos, o efeito é multiplicado). Além de comandar uma das mais poderosas (e até, veja só, emocionantes) cenas de exorcismo que já vi na vida, Wan mostra sua admiração pela escola Alfred Hitchcock de suspense ao trazer um súbito ataque de pássaros que atravessa janelas e uma lâmpada pendurada que alcança o efeito de iluminação em uma das cenas-chave de Psicose. Olha só…

Contando também com um trabalho de som espetacular, Invocação do Mal é uma grande surpresa. O terror não anda lá grande coisa nas terras ianques, mas é sempre bom encontrar uma obra decente em um gênero cada vez mais esgotado. A única decepção é o anúncio de que James Wan não dirigirá mais filmes de terror.

Obs: Uma curiosidade divertida: em determinado momento do filme, a personagem de Vera Farmiga menciona “um caso em Long Island”. Trata-se de uma referência ao famoso massacre de Amityville, episódio investigado pelo casal na vida real.

Clique aqui para ler esta crítica em inglês.

| Guerra Mundial Z | Sai de baixo, é o mob zombie

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 28 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

WorldWarZ
Brad Pitt larga o negócio de matar nazistas e entra para o de matar zumbis

Zumbis estão em alta. O sucesso da série de tv americana The Walking Dead (que eu assistiria, não fosse tão tediosa) trouxe de volta ao imaginário pop as criaturas moribundas e sedentas por carne humana, rendendo diferentes abordagens e encarnações para seu perfil tão icônico. Guerra Mundial Z junta tudo isso e ainda traz novos elementos para o gênero, resultando em um eficiente thriller.

A trama é livremente adaptada do livro de Max Brooks (que também publicou divertidíssimo Guia de Sobrevivência a Zumbis) por Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard e Damon Lindelof, centrando-se no investigador da ONU Gerry Lane (Brad Pitt), que é forçado a auxiliar a agência quando uma cataclísmica infestação zumbi misteriosamente assola 5% da população mundial.

Da premissa arquétipa até a proliferação mortal sem explicações acerca de sua origem (como dita a tradição do bom e velho George Romero), Guerra Mundial Z acerta ao economizar precioso tempo evitando cair na “didática” do gênero. Em menos de 30 minutos de projeção, o diretor Marc Forster já nos apresenta de cara às ameaças, introduz com inteligência suas características – através de uma sequência que revela a transformação de um cidadão em zumbi sendo acompanhado pela contagem de tempo de Gerry – e coloca os personagens no meio da ação; dando-lhes até armas de fogo. Até mesmo a palavra “zumbi” é constantemente proferida pelos personagens o que revela, graças às reações céticas dos militares ao ouví-la, a sutil possibilidade de estes habitarem um universo onde mortos-vivos fazem parte da cultura pop.

Forster é habilidoso ao retratar a ambientação da história e seu crescente senso de alarmismo global (que passa por uma Filadélfia infestada de automóveis até uma Jerusalém infestada de multidões) ao longo de suas 2 horas de projeção. O diretor também sabe quando o filme requer um toque de aventura, mas jamais se esquece do suspense que seus antagonistas são capazes de provocar (a sequência no terceiro ato é soberba nesse quesito graças à sua condução silenciosa e montagem equilibrada) ou do drama – aqui, uma amputação em offscreen é chocante graças à sua imprevisibilidade, e a aparente naturalidad” com que ocorre. No entanto, Forster demonstra um talento inversamente proporcional nas cenas de ação (algo que já tinha provado com 007 – Quantum of Solace), apostando na câmera tremida e nos cortes em excesso; algo que funciona apenas para conferir maior “realismo” às criaturas digitais ou para aumentar a dor de cabeça resultante do descartável 3D convertido (que só é válido para exarcebar os muitos sustos).

Impressiona aqui a desumanização presente nas criaturas canibais: em um esperto comentário social (afinal, os grandes filmes do gênero sempre trazem uma mensagem em suas entrelinhas) acerca da superpopulação do planeta, os zumbis de Marc Forster são aglomerados de pessoas que atingem o absurdo ao se amontoarem até formar uma “montanha” de seres vivos. É visualmente assustador, e – mesmo sendo “light” em sua quantidade de violência – confere maior urgência quando vemos Brad Pitt correndo desesperadamente dessa multidão em um corredor estreito. Aqui, somos apresentados ao mob zombie.

Guerra Mundial Z é um eficiente filme de zumbis, promovendo inteligentes ideias para a franquia (a solução encontrada no final, é uma das mais verossímeis já vistas) e o início de uma promissora franquia. E assistam, nunca é demais o preparo para um apocalipse zumbi…