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| Jogos Vorazes: A Esperança – O Final | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de novembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

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Jennifer Lawrence vive Katniss Everdeen pela última vez

Desde sua inesperada e bem sucedida estreia em 2012, a franquia Jogos Vorazes se firmou como uma das mais interessantes e inteligentes da atualidade, especialmente se considerando seu público-alvo: adolescentes. Enquanto Crepúsculo fazia rios de dinheiro com uma história péssima e sem nenhuma moral, a saga de Katniss Everdeen se beneficiava de um cenário distópico elaborativo, figuras criativas e uma discussão política relevante. Agora, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final chega para encerrar

A trama inicia-se imediatamente após o final do anterior, com Katniss (Jennifer Lawrence) se recuperando do inesperado ataque de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), que encontra-se com a mente bagunçada pela Capital. Enquanto isso, a Presidente Coin (Julianne Moore) continua reunindo Distritos para enfim atacar Snow (Donald Sutherland) e libertar Panem de sua ditadura cruel, precisando enviar Katniss e um esquadrão de elite para enfrentar um campo minado de armadilhas para chegar a seu objetivo.

Primeiramente, é importante ressaltar – mais uma vez – como a decisão de dividir livros em dois filmes vêm se provando danosa. A primeira parte de A Esperança já sofria pela ausência de eventos e o ritmo lento, e sua continuação agora curiosamente traz os mesmos deméritos. A trama direta abre espaço para mais cenas de ação, e Francis Lawrence merece aplausos por uma arrepiante sequência que envolve os protagonistas enfrentando nebulosas criaturas em um túnel subterrânea, mas o roteiro de Peter Craig e Danny Strong não oferece muito além. Nem mesmo os diálogos espertos que transformaram Em Chamas em uma experiência vibrante estão aqui, com apenas algumas metáforas e situações de choque (a reviravolta envolvendo Coin, principalmente).

Como todo capítulo final que se preze, algumas mortes são esperadas. Infelizmente, nenhuma delas aqui provoca o impacto desejado (a menos que você seja um fã da franquia), já que os personagens envolvidos são pouquíssimo aproveitados no filme – tendo mais destaque na Parte 1. Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Jeffrey Wright e Gwendoline Cristie (reduzida a uns 40 segundos de participação) são todos mal aproveitados, e a repentina morte de Philip Seymour Hoffman infelizmente mostra-se danosa à produção: seu Plutarch Heavensbee é um jogador muito importante durante a trama, e é simplesmente apagado da história após certo ponto.

Jennifer Lawrence continua segurando o show, ainda que pese a mão nos momentos mais dramáticos (leia-se, caretas exageradas), sendo sempre fascinante ver uma mulher forte com um arco-e-flecha em meio a um grupo de marmanjos com metralhadoras e armas de fogo. A subtrama com o triângulo amoroso entre Peeta e Gale (Liam Hemsworth) atrapalha, rendendo momentos que remetem diretamente à Saga Crepúsculo. Nunca um bom sinal.

É uma produção eficiente do ponto de vista técnico. O design de produção agora explora com mais detalhes o vasto mundo de Panem, e as áreas mais ricas, como a luxuosa estação de trem e a propriedade de Snow, onde uma colorida estufa verde é palco de um dos mais interessantes confrontos. O figurino deixa de lado as vestimentas mais extravagante (já que os personagens usam trajes de infiltração preto durante a maior parte do longa), mas uma bizarra personagem certamente vale por todo o que já vimos nesse quesito na franquia até agora. Já os efeitos visuais são um tanto artificiais, especialmente durante planos abertos em que temos um cenário nitidamente digital ou a composição das criaturas que atacam os heróis no túnel. Há também uma breve recriação do rosto de Hoffman, e não deverá ser difícil de perceber.

Jogos Vorazes: A Esperança – O Final não é a conclusão que uma saga que começou tão bem merecia, limitando-se a uma estrutura lenta e sem muita ousadia. Tem bons momentos, mas pelo menos para mim, a saga de Katniss Everdeen vai ficar mais memorável por suas ideias do que execução.

O 3D convertido é absolutamente descartável.

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| Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de novembro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

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Jennifer Lawrence encarna Katniss Everdeen pela penúltima vez

Quando anunciaram que o último livro da trilogia Jogos Vorazes renderia uma dupla adaptação para os cinemas (como é de praxe agora em toda grande franquia hollywodiana), temia que o longa sofresse com os mesmos deméritos de produções do tipo: falta de história, estrutura incompleta e “enchimento de linguiça” (ver Amanhecer e O Hobbit). Aparecem esses problemas em A Esperança – Parte 1? Sim. Mas o filme de Francis Lawrence é tão eficiente e poderoso em sua temática, que acaba utilizando tais erros a seu favor. Explico.

A trama começa imediatamente após Em Chamas, com Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) agora refugiada em uma instação secreta do Distrito 13, liderado pela Presidente Coin (Julianne Moore), revolucionária que planeja com Plutarch Heavensbee (Phillip Seymour Hoffman, em um de seus últimos trabalhos) a queda do governo autoritário do Presidente Snow (Donald Sutherland). Com o amado Peeta Mellark (Josh Hutcherson) capturado e sendo usado como arma midiática da Capital, o grupo rebelde planeja a grande rebelião.

Não acontece muita coisa em A Esperança – Parte 1. Certamente uma consequência da divisão do livro de Suzanne Collins (não li, mas muitos amigos me afirmaram que tal divisão era desnecessária), mas é curioso como essa decisão puramente mercadológica acabou contribuindo artisticamente para o longa. O roteiro de Peter Craig (Atração Perigosa) e Danny Strong (O Mordomo da Casa Branca) se concentra bastante nos personagens, mergulhando fundo em seus pensamentos e a situação em que se encontram, servindo mais como um thriller psicológico do que um blockbuster infanto-juvenil. Assim como nos anteriores, as questões políticas são o ponto alto, e neste terceiro filme, são ainda mais interessantes por lidarem com a propaganda e a criação de um ícone mobilizante das massas, na forma do Tordo de Katniss.

Aliás, é fascinante observar as sutilezas nessa situação, já que Katniss é de certa forma usada pelos rebeldes da mesma forma como é Peeta pela Capital: quando a jovem contempla o horror de uma destruição provocada pelos inimigos, a personagem de Natalie Dormer rapidamente ordena para que filmem sua reação, a fim de obter uma propaganda convincente e que gere seguidores. Independente de seus ideais, a Capital e o Distrito 13 jogam o mesmo jogo, e a franquia Jogos Vorazes revela-se bastante adulta ao retratar a maioria de suas “batalhas” por televisores, ao invés de grandes cenas de ação.

Não que o filme não forneça sua devida dose de espetáculo. O diretor Francis Lawrence se revela ainda mais à vontade aqui, controlando com segurança cenas de tiroteios e perseguições que jamais surgem inchadas ou longas demais. Aliás, Lawrence quebra completamente as expectativas de uma estrutura de roteiro genérica e previsível, trazendo um clímax excepcional que aposta em uma fotografia escuríssima de Jo Willems – evocando o trabalho de Greig Fraser em A Hora Mais Escura, em uma sequência que carinhosamente apelido de “Zero Dark Peeta” – para uma cena que acaba nos ocultando da ação, preferindo concentrar-se na ansiedade da protagonista. E quando caminhava para uma conclusão clichê e que já ia arrancando suspiros apaixonados das fãs, A Esperança nos agarra pelo pescoço e nos arremessa no chão.

Contando também com uma sequência musical inebriante, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 é um longa eficiente e que mantém a qualidade que a saga vinha trazendo até então, apostando cada vez em temas adultos e políticos. Mesmo que a divisão da história afete sua estrutura e linha de acontecimentos, surpreende pela maneira inteligente que usa para escapar dos clichês.

Obs: Após os créditos há um breve aperitivo para o próximo filme. Não é muita coisa, mas certamente o suficiente para deixar os fãs radicais loucos.

| Jogos Vorazes: Em Chamas | A continuação que justifica sua existência

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 15 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

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A Garota em Chamas: Jennifer Lawrence retorna como Katniss Everdeen

Ano passado, fiquei absolutamente surpreso com a qualidade de Jogos Vorazes, adaptação da obra distópica de Suzanne Collins. Lembro-me de ter apontado que uma de suas únicas falhas encontrava-se na conclusão da trama: em minha opinião teria sido perfeita a morte de seus protagonistas como desafio ao espetáculo midiático, invalidando a ideia de uma continuação. No entanto, novamente fui absolutamente surpreendido pela forma com que Collins e os realizadores conseguiram desenvolver a história com Jogos Vorazes: Em Chamas, aquela rara sequência tão boa quanto o original.

A trama se inicia um ano após os eventos do filme anterior, com a aproximação da 75ª edição dos Jogos Vorazes, que é celebrada através do chamado Massacre Quaternário – uma versão que envolve apenas os vencedores das edições passadas. Nesse cenário, encontramos Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) sofrendo violenta pressão do presidente Snow (Donald Sutherland), quando sua imagem começa a inspirar rebeliões e tumultos por toda a Capital. Além disso, ela encontra-se dividida entre suas relações forjadas com seu colega Peeta (Josh Hutcherson) e o amigo Gale (Liam Hemsworth).

“Ah não, triângulo amoroso na grande adaptação literária infato-juvenil, aí vem Crepúsculo novamente, salvem-se!” Não.

Felizmente, o roteiro de Simon Beaufoy e Michael Arndt toma a decisão de se concentrar nas intrigas políticas e em seu simples (mas efetivo) comentário social, deixando o triângulo amoroso entre os protagonistas no segundo plano. Não que a linha narrativa passe má desenvolvida (de certa forma, sim, já que o personagem de Hemsworth praticamente desaparece após o início dos Jogos), surge nos momentos apropriados com o tempo apropriado, resultando em uma relação estranha – algo benéfico para a trama, tornando irrelevante a necessidade de Katniss expressar sua confusão: o próprio espectador é capaz de perceber isso. O grande mérito, no entanto, do texto da dupla oscarizada reside no eficiente tratamento fornecido às relações dos competidores, que aqui devem formar alianças durante o evento; mesmo que inevitavelmente tenham que matar uns aos outros no final. Por tal motivo, faz toda a diferença do mundo quando Haymitch (Woody Harelson, sempre divertido) declara sua esperança de que uma das competidoras não sofra muito, pois “ela é uma mulher maravilhosa”. Afinal, são seres humanos.

Substituindo Gary Ross, o diretor Francis Lawrence (que será responsável pelos próximos dois filmes da saga) altera radicalmente a linguagem da franquia ao oferecer uma direção segura e firme. Literalmente, já que Lawrence descarta os excessos de câmera na mão de seu antecessor e opta por planos fixos e que valorizem o – agora grandioso – design de produção e as atuações de seu ótimo elenco, que conta aqui com valisosas adições. Liderado pela talentosa Jennifer Lawrence, que continua comprovando seu carisma na trabalhada composição de Katniss (forte e até carrancuda normalmente, mas explosivamente desesperada em momentos dramáticos), Em Chamas se beneficia de interessantíssimos e multifacetados novos personagens: desde o carismático Finnick Odair de Sam Claffin, passando pela ousada Johanna de Jena Malone até o complexo Plutarch Heavensbee (da onde Collins tira esses nomes?) de Phillip Seymour Hoffman. Também fiquei surpreso em reencontrar Amanda Plummer, a Honeybunny de Pulp Fiction, em um papel relativamente grande.

Superior ao primeiro filme em praticamente todos os aspectos, Jogos Vorazes: Em Chamas é uma sequência que desenvolve de forma inteligente os conceitos do original. Peca ao oferecer uma conclusão abrupta, em um enorme gancho que promete deixar a resolução para os próximos capítulos. Mas ao contrário de minha reação em 2012, agora estou genuinamente interessado em mais material desse fascinante universo.

Obs: Assim como o trabalho de Christopher Nolan na trilogia do Cavaleiro das Trevas, Francis Lawrence rodou E converteu diversas cenas do filme para IMAX. Se possível, assista no formato.

Read this review in english here.

| Jogos Vorazes | Um blockbuster inteligente e ambicioso

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , , , on 31 de março de 2012 by Lucas Nascimento

 


Jogos Mortais: A jovem Katniss prepara-se para entrar na arena

Basta uma franquia literária bem-sucedida vender seus direitos para uma adaptação cinematográfica que instantaneamente começam as comparações com Harry Potter e, agora, A Saga Crepúsculo. Hollywood anseia por uma nova franquia que encha os cofres de produtoras com dinheiro, e a sorte parece estar a favor deste Jogos Vorazes, um filme inteligente que traz diversas questões sociais e políticas em suas entrelinhas.

A trama é um remanescente típico de George Orwell e seu 1984 (“Big Brother”, lembra dele?) ou até mesmo o Metrópolis de Fritz Lang, onde conhecemos uma sociedade distópica onde o governo tem controle sobre seus cidadãos. No caso do universo criado por Suzanne Collins, temos Panem, um país formado por 12 distritos que sedia anualmente uma competição de sobrevivência onde 24 indivíduos são selecionados para lutar até a morte. Eis que a jovem Katniss (Jennifer Lawrence) é voluntária para os jogos vorazes, e o espectador acompanha sua jornada.

Primeiramente, é alentador ver que uma obra bem formulada – e repleta de alegorias – tenha conseguido encontrar caminho nas mentes adolescentes (isso considerando o que algo frívolo como A Saga Crepúsculo arrecadou nos últimos anos). A trama de Collins deve crédito a trabalhos anteriores, mas ainda assim cria algo novo e moderno e encontra espaço para uma série de críticas sociais (o bizarro design de figurino de Judianna Makovsky traça uma caricatura genial em torno da moda “colorida” que abrange parte de nossa atual sociedade) e no que diz respeito ao controle da mídia (não seriam os deploráveis reality shows de certas redes televisivas nacionais os “jogos vorazes” de nosso tempo? E se ninguém os assistisse mais, como sugere Katniss?).

Não li o livro original, mas o diretor Gary Ross consegue manter essas questões no ar ao longo de toda a projeção (de duração considerável, aliás) sempre com uma câmera incessante e na mão. Seu estilo traz mais urgência ao contexto da história e, mesmo que Stephen Mirrione e  Juliette Welfling exagerem na montagem abarrotada de cortes rápidos, torna a experiência um tanto mais “adulta” se levarmos em conta a exibição técnica da maioria dos filmes voltados para o público jovem. Tome como exemplo a tensa (e brilhante) sequência quando os jogos enfim começam, que impressiona por sua violência e captura o desespero do momento. Ross co-assina o roteiro com Billy Ray e a própria autora, rendendo bons diálogos e até uma muito bem-vinda fuga de clichês, especialmente no desenvolvimento da trama amorosa – que surge real e eficiente.

Merece créditos também a ótima Jennifer Lawrence, que segura o filme com seu carismático retrato da jovem Katniss. Armada com um arco-e-flecha, a garota é forte e durona; ainda que imperfeita e insegura, e certamente uma das heroínas mais memoráveis a surgir no cinema recente. O elenco de apoio é igualmente eficiente, especialmente pelas participações de luxo de Woody Harrelson e Stanley Tucci (divertidíssimo) e pelo competente Josh Hutcherson, que faz de Peeta um jovem frágil e fácil de se admirar. Interessante como os estereótipos de herói durão e mocinha em perigos são completamente ignorados aqui.

Jogos Vorazes tem tudo para ser o novo Harry Potter. Pensando bem, pode ser muito mais do que a ótima franquia de J.K. Rowling, já que apresenta personagens marcantes e temas adultos que podem gerar discussões intrigantes sobre a sociedade em que vivemos. Quem diria que um blockbuster adolescente teria essa capacidade?