Arquivo para tragédia

| Evereste | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , on 26 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

Everest
JJJ: Jake Gyllenhaal, Josh Brolin e Jason Clarke enfrentam a natureza

No vasto gênero de homem versus natureza, o diretor que se arrisca a contribuir com este encara o desafio de tentar superar uma fórmula batida e formada por um verdadeiro campo minado de clichês. Filmes como Vivos127 HorasAté o Fim impressionam por seus diferentes estilos, elenco e linguagem, mesmo seguindo uma fórmula batida, o que nos sugere que uma boa direção é capaz de salvar qualquer filme. Infelizmente, Evereste se arrisca pouco e fica na linha do aceitável, ainda que seu elenco valha a presença.

O roteiro assinado por William Nicholson e Simon Beaufoy é inspirado em uma deasastrosa expedição real que ocorreu em 1996, na qual diferentes grupos de alpinistas foram vítimas de uma violenta tempestade de neve que os deixou presos no Monte Evereste.

Talvez o principal problema esteja na distribuição de personagens. O ótimo elenco é carregado de grandes nomes, mas que infelizmente se perdem na montagem desequilibrada de Mick Audsley, que transita a atenção para um personagem ou outro de forma descontrolada: ora ficamos mais ao lado do personagem de Jason Clarke (de longe, a figura mais agradável da produção), ora acompanhamos o esforço de Josh Brolin para sobreviver, invalidando uma noção clara de protagonista e também a chance de desenvolvê-los apropriadamente. Digo, alguém me explica o que aconteceu com Jake Gyllenhaal? Porque o filme praticamente o abandona depois de certo ponto, e prefiro nem comentar sobre a triste queda na promissora carreira de Sam Worthigton, que é reduzido para coadjuvante do coadjuvante sem dó. Há pouco espaço para as personagens femininas também, com Robin Wright desperdiçada e Keira Knightley não fazendo nada muito além de chorar, sobrando para Emily Watson segurar alguns momentos mais emocionantes.

Como experiência, Evereste se sai um pouco melhor. O diretor islandês Baltasar Kormákur sabe como valorizar o ambiente e transformá-lo ao mesmo tempo em algo belo e assustador, com sua câmera aproveitando movimentos digitais que circulam o topo do monte e seus arredores; ainda que isso revele a artificialidade de suas tomadas. Os momentos mais intensos de nevascas e condições brutais representam o ponto alto, ainda mais considerando que a primeira metade peca pela sonolência e o inevitável clichê de “introduzir todos os personagens e seus dilemas”, não conseguindo algo realmente original ou digno de nota. Triste, dado a quantidade de talento envolvido.

Ao menos não temos um melodrama irritante, mesmo que o filme caia nessa área diversas vezes. A química entre Clarke e Knightley funciona mais pelo contexto de suas situações, enquanto a bela trilha sonora de Dario Marianelli constrói uma tragédia de forma nada apelativa. Os últimos minutos do filme funcionam bem como uma facada emocional, sem forçar a barra na catarse ou no sensacionalismo, apenas pela objetividade.

Evereste é um filme competente que acaba prejudicado pelo excesso de personagens e uma narrativa inconstante que se entrega aos clichês do gênero.

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| Anna Karenina | Um admirável feito teatral. Isso mesmo, teatral.

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , , on 17 de março de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

AnnaKarenina
Keira Knightley mais uma vez comprova que nasceu na época errada

Um clássico literário sempre apresenta dificuldades em ser adaptado para o cinema. A ambição de alcançar um resultado favorável (ou alguns dólares a mais) muitas vezes leva a múltiplas versões da mesma história, como foi o caso da tragédia de Anna Karenina. Mas ao contrário das outras adaptações que a obra de Leo Tolstói já recebeu (e foram muitas), o diretor Joe Wright resolve quebrar o convencional e proporcionar uma criativa abordagem; mas infelizmente a estética se sobressai à narrativa.

Adaptado por Tom Stoppard, o texto nos leva à Rússia Imperial do século XVII, onde conhecemos diversos personagens envolvidos em diferentes situações da alta classe da sociedade. No núcleo delas, está Anna Karenina (Keira Knightley), esposa do influente e poderoso Alexei Karenin (Jude Law, quase irreconhecível), que acaba por arriscar toda a sua posição social e dignidade ao se envolver amorosamente com o sedutor conde Vronksy (Aaron-Taylor Johnson, o Kick-Ass).

Não li o livro de Tolstói (que é considerado um dos melhores trabalhos de literatura de todos os tempos), mas confesso que não fui cativado totalmente por sua história. O excesso de narrativas e personagens é capaz de confundir o espectador (notem que há dois personagens importantíssimos que compartilham do mesmo nome) e estende a duração além do necessário. Por exemplo, não acho interessante acompanhar a trama secundária sobre o Levin de Domnhall Gleeson (um dos irmãos Weasley, de Harry Potter), que mesmo servindo como uma antítese da queda da protagonista, empalidece diante de elementos superiores.

Estes não narrativos, já que o roteiro de Stoppard é falho em nos criar envolvimento com as personagens, enchendo o longa de diálogos expositivos (frases do tipo “Mas que homem bom!” ou “Seu marido é um santo!” servem apenas para martelar características que já haviam sido estabelecidas anteriormente), mas sim na técnica que Joe Wright propôs. Levando a ideia de que as relações na alta classe “não passam de encenação”, o diretor apresenta as ações de Anna Karenina desenrolando-se em um palco de teatro: começamos até com uma cortina e muitos dos cenários vão alternando-se manualmente, necessitando até de “ajudantes” para montá-los em diferentes transições de cena. O momento em que dois personagens saem de um escritório para ir jantar é particularmente inspirado, merecendo aplausos por sua eficaz velocidade e as trocas de vestimentas realizadas pelos figurantes (que de operários, transformam-se em garçons) e reconhecimento ao impecável design de produção de Sarah Greenwood.

E Wright não se limita apenas a artifícios teatrais, oferecendo também diversas mise-em-scènes que contribuem de forma eficiente (e com muita exuberância) à história. Um baile onde todos os convidados encontram-se repentinamente congelados no tempo a fim de destacar a dança de Anna e Vrosnky (e o impacto que esta ação causa) e os pedaços de um bilhete rasgado que vão se transformando em uma nevasca são algumas de minhas preferidas. Há também recorrentes indícios que ajudam a antecipar o desfecho da trama, que terá uma locomotiva como peça fundamental, manifestando-se de forma brilhante através de cortes rápidos e os inspirados acordes de Dario Marianelli.

Com um elenco competente e bem entrosado (com Keira Knightley mostrando novamente que só deveria fazer filmes de época), Anna Karenina é um estimulante exercício técnico, mas falho ao apresentar e desenvolver sua história. Mas que fique aí a admirável intenção do diretor Joe Wright: abordagens radicais para obras clássicas.

| Reencontrando a Felicidade | Um dramático estudo de personagens

Posted in Cinema, Críticas de 2011, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , on 16 de maio de 2011 by Lucas Nascimento

Reencontrando a Felicidade (ou Rabbit Hole em seu fiel título original) é um pesado drama que mergulha nas angústias e tristezas de seus personagens principais, profundamente afetados após uma terrível tragédia que mudou suas vidas. Conduzido de forma eficiente por John Cameron Mitchell, é um profundo estudo de personagens.

Baseado na peça de teatro de David Lindsay-Abaire (que também assina o roteiro), a trama foca-se no casal Becca e Howie (Nicole Kidman e Aaron Eckhart), que encontram-se em um estado abalado e depressivo após a morte de seu filho Danny em um acidente de carro e tentam superar o fato das mais diversas maneiras.

Com uma fotografia dominantemente fria, a narrativa é conduzida de forma calma e subjetiva, nunca especificando com detalhes certos eventos e situações atravessados. Não é de maneira direta que o espectador percebe o problema do casal, por exemplo, mas sim por referências muito subjetivas em diálogos, grande mérito do roteiro de Abaire, que também acerta ao escrever tensos diálogos entre Becca e Howie (aquele que refere-se a um vídeo deletado é o ponto alto).

E nesses diálogos, o elenco principal mostra seu talento. Merecidamente indicada ao Oscar por sua performance, Nicole Kidman dá a Becca uma expressividade impressionante – principalmente em seu olhar -, que apresenta o medo de seguir em frente; ao contrário de Howie, a quem Aaron Eckhart oferece uma excelente performance, seu desejo de continuar a vida e reencontrar a felicidade é admirável, mesmo que seja através de escolhas impróprias. A química entre os dois é ótima e convincente.

Ganhando força por mostrar também o responsável pelo acidente – o ótimo Miles Teller- Reencontrando a Felicidade é um poderoso estudo de personagens, que não procura uma solução para o problema de Howie e Becca, apenas questiona suas opções e deixa o destino do casal à deriva, no reflexivo clímax.