Arquivo para Trilha sonora

| Spotlight: Segredos Revelados | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2016, Drama with tags , , , , , , , , , , , on 8 de janeiro de 2016 by Lucas Nascimento

 

4.5

Spotlight
Esquadrão Suicida: a ousada equipe Spotlight do Boston Globe

A união de jornalismo com cinema costuma render resultados memoráveis. De Cidadão Kane à Montanha dos Sete Abutres, e então longas mais modernos como Intrigas de Estado e Zodíaco, a primeira gaveta simbólica que se abre na mente das pessoas ao pensar nessa união de estilos é o clássico Todos os Homens do Presidente, filme de Alan J. Pakula sobre o escândalo de Watergate. É também o primeiro filme que me vem à mente após o término da sessão de Spotlight: Segredos Revelados, que pode ser considerado o equivalente desta geração ao suspense de Dustin Hoffman e Robert Redford.

Baseado nos eventos reais de Setembro de 2001, a trama gira em torno da equipe de redação “Spotlight” do jornal Boston Globe, especializado em matérias investigativas. O caso da vez centra-se na exposição dos diversos abusos sexuais cometidos por cardeais da Igreja Católica e o acobertamento destes pela instituição e até mesmo grupos de advogados.

Sendo uma história verídica, a necessidade de retratar os eventos com veracidade torna-se uma preocupação real para os realizadores. É exatamente o que vemos no filme de Tom McCarthy (o mesmo diretor de… Trocando os Pés. Juro. Sério.), adotando uma direção discreta e escrava de seu roteiro factual e pautado no realismo, seja no desenrolar da história repleto de detalhes e informações até os diálogos que tentam resumi-los. A prosa de Josh Singer e do próprio McCarthy aposta pouco em dramatizações ou frases de efeito, conseguindo prender a atenção do espectador com a força de sua história e o clima de mistério/insatisfação que permeia a cada nova pista encontrada pela equipe.

E que equipe, convenhamos. Em uma perfeita distribuição de personagens, fica muito evidente que não temos um protagonista central no longa. Toda a equipe funciona como um organismo vivo e pensante, o que faz sentido a decisão da Sony em inscrever todo o elenco como coadjuvante. De cara, pessoalmente achei que Mark Ruffalo se sobressaiu, tendo a difícil tarefa de elaborar um sotaque português que não soasse caricatural para seu Mike Rezendes, além de ter os maiores surtos emocionais diante da injustiça do caso, rendendo ótimos momentos para o ator.

Michael Keaton empresta sua postura de veterano para Robby Robinson, o chefe da redação de Spotlight. Com muita eficiência na performance de Keaton, percebemos como a determinação de Robby vai pensa muito à frente da de Mike, por exemplo. O colega mais novo grita para que as novas evidências sejam publicadas imediatamente, mas Robby insiste para que coletem evidências ainda mais fortes que sejam capazes de denunciar todo o sistema, ao invés de casos isolados. Não só uma atitude de um grande líder, mas fica ainda mais interessante ao descobrirmos uma camada mais complexa que o personagem vinha ocultando desde o início.

Ainda temos Rachel McAdams entregando mais uma atuação decente como Sacha Pfeiffer, mesmo que a atriz continue presa a uma performance de uma nota só que se estende por seus trabalhos mais recentes. Stanley Tucci aparece pouco, mas é tempo o suficiente para que seu Mitchell Garabedian seja visto como uma figura de início repreensível, mas que revela-se mais importante e útil do que esperado. Liev Schreiber tem ainda menos tempo de tela como Marty Baron, o jornalista que entrega a tarefa para a Spotlight, mas impressiona por seu misto de autoridade, profissionalismo e respeito pelos companheiros (“Vocês merecem uma pausa, mesmo. Mas segunda feira de manhã, precisarei de todos aqui”, é uma de suas melhores entregas).

Novamente, não é um longa que se deixa levar por inovações visuais ou artifícios que poderíamos chamar de “cinematográficos”. A fotografia de Masanobu Takayanagi aposta em uma paleta fria e sem muitos invencionismo, com raras exceções. Há um plano longo muito bem executado e posicionado para a cena em que Matt Carroll (o ótimo Brian d’Arcy James) descobre que um dos padres acusados reside a apenas alguns metros de sua própria casa, ou a sequência de passagem de tempo que aposta em um coral natalino de crianças de igreja; uma escolha brilhante que revela não só o período no qual a trama vai avançado, mas a ironia cruel de sua melodia dócil. Aliás, a trilha sonora discreta de Howard Shore confere o clima perfeito para a projeção, apostando fortemente numa composição simples e eficaz de piano.

Spotlight: Segredos Revelados é um filme que valoriza e respeita o papel do jornalismo investigativo, devendo servir como inspiração para estudantes da área. Mesmo não ousando em questões audiovisuais, é uma narrativa forte e que mantém o espectador vidrado, saindo da sessão com a mesma sensação de injustiçado de seus protagonistas.

Por mais que a tinta e o papel tenham sido armas poderosas, a situação horrenda é uma batalha longe de ser vencida.

Anúncios

| No Coração do Mar | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 2 de dezembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

IntheHeartoftheSea
Chris Hemsworth é Owen Chase

É fascinante, e até um pouco assustador, quando paramos para pensar que o oceano é menos mapeado do que Marte. Sabemos que o planeta vermelho pode não ter nada de muito chamativo em sua superfície deserta, mas alguns biólogos não fazem ideia do tipo de biosfera que podemos encontrar nas profundezas marítimas, e isso é empolgante. Quando No Coração do Mar tem início, com uma narração tematicamente similar, fica a promessa de algo que explorará o místico com um delicioso senso de mistério. Só que não.

A trama é adaptada do livro “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”, de Nathaniel Philbrick, que, por sua vez, é a fonte de inspiração de Herman Melville para o clássico Moby Dick. Aqui, acompanhamos a tripulação do navio baleeiro Essex, liderado pelo capitão George Pillard (Benjamin Walker) e seu primeiro imediato, Owen Chase (Chris Hemsworth). Ao descobrirem uma região distante que pode revelar-se absurdamente lucrativa, são atacados por uma gigantesca baleia branca que os coloca em perigo.

De cara, já é admirável notar a versatilidade de Ron Howard: saído das pistas de fórmula 1 com o excelente Rush: No Limite da Emoção, o diretor já traz Chris Hemsworth e seu diretor de fotografia Anthony Dod Mantle para uma aventura em alto mar sobre pesca de baleias. Infelizmente esse novo filme não alcança o mesmo nível de qualidade do anterior, principalmente não saber exatamente o que quer ser. O marketing nos prometia uma história de homem vs natureza no espírito de Moby Dick, mas a gigantesca baleia antagonista não aparece tanto aqui, e Howard falha ao não apostar em um suspense a lá Tubarão para revelar o grande mamífero; ainda que seja realmente belíssimo quando vemos sua colossal calda emergindo do oceano.

Após um ataque que destroi o navio por completo, o longa entra em um ritmo monótono para acompanhar os sobreviventes lutando para permanecerem vivos em alto mar, remetendo à As Aventuras de Pi e até Náufrago quando os personagens encontram uma ilha remota. Tudo isso é retratado com um certo tom de punição, já que a primeira cena de pesca às baleias é dirigida com tristeza, acompanhada por uma trágica trilha sonora de Roque Baños, como se fosse uma coisa terrível que esses homens fazem, e que sua subsequente perdição no mar é um castigo.

O elenco também mostra-se favorável a esse retrato. Hemsworth é carismático o bastante para segurar o papel de protagonista, criando uma figura esperta e moralmente correta com seu Owen Chase; ainda que sua tão divulgada perda de peso no filme não seja tão bem explorada ou aproveitada pela equipe. Tom Holland, prestes a ganhar as telas como o novo Homem-Aranha, também se sai bem ao lado de Hemsworth, mas é mesmo Brendan Gleeson (que interpreta o mesmo personagem envelhecido) quem tem a oportunidade de compor um trabalho mais complexo, já que recusa-se a contar a história de início, apenas para uma revelação chocante e que rende uma reação emocionante do ator.

Visualmente, também é um resultado agridoce. O trabalho mediano de efeitos visuais para criação das baleias e ambientes realmente não casou com o estilo de Anthony Dod Mantle, particularmente no uso de seus filtos e o trabalho de correção de cor na pós-produção; dando a estranha impressão de o elenco estar “descolado” do ambiente, e um brilho atípico para as ondas. O uso constante de Howard das go pros também incomoda, a não ser por momentos mais sutis; como a reação de Chase ao se dar conta de que perdeu o colar dado por sua esposa.

No Coração do Mar é um longa eficiente, mas que encontra problemas quanto ao tipo de história que quer contar, e onde realmente quer estabelecer seu foco: um filme sobre homem vs animal? A vingança da natureza? A ambição do homem? A criação de uma obra-prima? São muitos filmes presos em um fiapo que ocasionalmente revela-se frágil.

| Ponte dos Espiões | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de outubro de 2015 by Lucas Nascimento

4.5

BridgeofSpies
Estrada para a Perdição? Quase.

Ao longo de sua brilhante carreira, Steven Spielberg nos revelou que seu corpo e mente são habitado por duas entidades diferentes: o Spilba Divertido, que nos rendeu aventuras incomparáveis como TubarãoIndiana JonesJurassic Park, e o Spilba Sério, responsável por Amistad, A Lista de Schindler, Munique Lincoln. Em ambas as situações, temos uma maestria técnica indiscutível, já que o diretor é dono de um estilo único e que se manifesta independente do gênero. E mesmo que eu seja muito mais fã do Spilba da diversão, Ponte dos Espiões revela-se um dos mais afiados “filmes de gente grande” do diretor.

A trama é inspirada em eventos reais, nos transportando para o ano de 1957, no qual os EUA e a URSS estavam em plena tensão nuclear em decorrência de sua Guerra Fria. Entra o advogado de seguros James B. Donovan (Tom Hanks), que é escolhido pelo governo para auxiliar uma delicada troca de prisioneiros entre as nações inimigas: o espião russo Rudolf Abel (Mark Rylance) e o piloto americano Francis Gary Powers (Austin Stowell).

Isso é Spielberg clássico. O típico homem de família do bem que é jogado de sua rotina confortável para uma grande aventura que eventualmente o trará de volta para casa no final, para grande admiração de sua esposa e filhos. A diferença é que o cenário aqui é muito mais tenso e é retratado com uma seriedade maior do que aquele visto em, por exemplo, Contatos Imediatos do Terceiro Grau (não que Spielberg não leve a ficção científica a sério), dado o contexto político da trama. Logo em seus minutos iniciais, o diretor arrebenta com uma longa e muda sequência na qual somos colocados no meio de uma perseguição, mas sem saber exatamente quem persegue quem. Ajuda também a ausência da música que, pela primeira vez desde A Cor Púrpura, não traz a assinatura do mestre John Williams, deixando Thomas Newman com a responsabilidade, algo que o compositor faz muito bem.

E talvez fiquem surpresos, mas o roteiro é assinado por ninguém menos do que os irmãos Joel e Ethan Coen, que devem ter escrito o filme ao mesmo tempo em que cuidavam do texto de Invencível, dadas as ligeiras semelhanças entre ambos os filmes – prisioneiros de guerra, aviões de caça caindo do céu. Mas se no filme de Angelina Jolie não havia nada que lembrasse o estilo dos irmãos, aqui temos muitas sutilezas e tiradas que definitivamente vieram de suas mentes, como na sarcástica introdução de Donovan, cheia de verbarrogia em torno das frases “My guy, your guy”, ou o momento em que um personagem tem diversos telefones à sua mesa, atendendo o errado quando um deles toca. Mas não só isso, a prosa dos Coen e X é habilidosa ao lidar com pesadas quantidades de informações, jargar político e de Direito, de forma que não as torna incompreensível para o público, mas também não lhes sacrifica inteligência.

Tudo bem que o filme peca por sua longa duração, e por inevitáveis quebras de ritmo para servir de transição entre os acontecimentos principais, além de trazer a dipensável dramaticidade exagerada do Spilba Sério: mesmo que esteja na procura de um clima tenso para a tensão nuclear, mostrar crianças chorando na sala de aula enquanto assistem a imagens da bomba de Hiroshima me pareceu apelativo demais. E sendo um filme americano sobre a Guerra Fria, os EUA inevitavelmente assumirão o papel de mocinhos, mas o filme é eficiente na hora de dosar o patriotismo, não soando ofensivo ou propagandista como os desfiles militares de Michael Bay, afinal, isso fica evidente quando Donovan afirma para um representante russo que estes têm a chance de terem “um debate diplomático e neutro que suas nações são incapazes de realizar”, assumindo a posição de que o indivíduo aqui é mais importante – ou deveria dizer, mas sábio – do que a nação inteira.

Sendo uma produção de Spielberg, é tecnicamente impecável. Seu inseparável diretor de fotografia Janusz Kaminski retorna para trazer sua forte luz, chegando a literalmente cegar o espectador em alguns momentos (especialmente a cela de Abel, onde Donovan é praticamente uma figura divina), mas no geral sendo muito eficaz ao criar uma atmosfera sombria e perigosa. A cena em que Donovan é seguido por um estranho na chuva é excelente, e a presença de Hanks só ajuda que o breve momento nos remeta diretamente a Estrada da Perdição. O design de produção de Adam Stockhausen também acerta na reconstrução de época, especialmente nas cenas ambientadas na Alemanha Oriental, salientando as péssimas condições da pós-Segunda Guerra na região, e a câmera de Spielberg valoriza todos esses ambientes com planos abertos detalhadíssimos – vale apontar ser seu primeiro trabalho com lentes anamórficas desde Hook – A Volta do Capitão Gancho.

Navegando com perfeição por um tema delicado, Ponte dos Espiões surpreende por mostrar-se um trabalho de Steven Spielberg que consegue muito bem funcionar como um thriller de espionagem inteligente, sem deixar de lado a abordagem séria que o diretor vem buscando nos últimos anos.

| Evereste | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , on 26 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

Everest
JJJ: Jake Gyllenhaal, Josh Brolin e Jason Clarke enfrentam a natureza

No vasto gênero de homem versus natureza, o diretor que se arrisca a contribuir com este encara o desafio de tentar superar uma fórmula batida e formada por um verdadeiro campo minado de clichês. Filmes como Vivos127 HorasAté o Fim impressionam por seus diferentes estilos, elenco e linguagem, mesmo seguindo uma fórmula batida, o que nos sugere que uma boa direção é capaz de salvar qualquer filme. Infelizmente, Evereste se arrisca pouco e fica na linha do aceitável, ainda que seu elenco valha a presença.

O roteiro assinado por William Nicholson e Simon Beaufoy é inspirado em uma deasastrosa expedição real que ocorreu em 1996, na qual diferentes grupos de alpinistas foram vítimas de uma violenta tempestade de neve que os deixou presos no Monte Evereste.

Talvez o principal problema esteja na distribuição de personagens. O ótimo elenco é carregado de grandes nomes, mas que infelizmente se perdem na montagem desequilibrada de Mick Audsley, que transita a atenção para um personagem ou outro de forma descontrolada: ora ficamos mais ao lado do personagem de Jason Clarke (de longe, a figura mais agradável da produção), ora acompanhamos o esforço de Josh Brolin para sobreviver, invalidando uma noção clara de protagonista e também a chance de desenvolvê-los apropriadamente. Digo, alguém me explica o que aconteceu com Jake Gyllenhaal? Porque o filme praticamente o abandona depois de certo ponto, e prefiro nem comentar sobre a triste queda na promissora carreira de Sam Worthigton, que é reduzido para coadjuvante do coadjuvante sem dó. Há pouco espaço para as personagens femininas também, com Robin Wright desperdiçada e Keira Knightley não fazendo nada muito além de chorar, sobrando para Emily Watson segurar alguns momentos mais emocionantes.

Como experiência, Evereste se sai um pouco melhor. O diretor islandês Baltasar Kormákur sabe como valorizar o ambiente e transformá-lo ao mesmo tempo em algo belo e assustador, com sua câmera aproveitando movimentos digitais que circulam o topo do monte e seus arredores; ainda que isso revele a artificialidade de suas tomadas. Os momentos mais intensos de nevascas e condições brutais representam o ponto alto, ainda mais considerando que a primeira metade peca pela sonolência e o inevitável clichê de “introduzir todos os personagens e seus dilemas”, não conseguindo algo realmente original ou digno de nota. Triste, dado a quantidade de talento envolvido.

Ao menos não temos um melodrama irritante, mesmo que o filme caia nessa área diversas vezes. A química entre Clarke e Knightley funciona mais pelo contexto de suas situações, enquanto a bela trilha sonora de Dario Marianelli constrói uma tragédia de forma nada apelativa. Os últimos minutos do filme funcionam bem como uma facada emocional, sem forçar a barra na catarse ou no sensacionalismo, apenas pela objetividade.

Evereste é um filme competente que acaba prejudicado pelo excesso de personagens e uma narrativa inconstante que se entrega aos clichês do gênero.

Ennio Morricone fará trilha sonora original para OS 8 ODIADOS

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , on 11 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

morri

Durante o painel da Comic Con de Os 8 Odiados, o diretor e roteirista Quentin Tarantino revelou que o consagrado compositor italiano Ennio Morricone fará a música de seu novo filme. Será a primeira trilha de Morricone para um western em quase 40 anos, e a primeira vez que teremos trilha sonora original para um filme de Tarantino.

Vale lembrar que Morricone já colaborou com o cineasta em Django Livre, colaborando na letra da canção “Ancora Qui”.

Os 8 Odiados estreia em 25 de Dezembro nos EUA. No Brasil, em 6 de Janeiro.

hateful_p2

| Divertida Mente | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

InsideOut
Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza

Ao escrever sobre Universidade Monstros em 2013, discorri sobre como a Pixar manteve uma inacreditável série de sucessos consecutivos que caiam nas graças do público e da crítica – geralmente com uma vitória no Oscar como último estágio. Sem entregar algo realmente digno de sua qualidade habitual desde Toy Story 3, em 2010, o estúdio de volta à boa forma com aquele que pode muito bem ser seu melhor trabalho: Divertida Mente.

A trama é concentrada nas emoções da jovem Riley: Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Nojinho (Mindy Kalling), Medo (Bill Hader) e Raiva (Lewis Black). Estas são responsáveis por controlar o humor, as memórias e a personalidade da garota, dentro de sua mente. Quando Riley enfrenta uma dura fase com uma mudança de cidade, nova escola e colegas, o grupo precisa evitar que esta sucumba a uma depressão.

Só pela premissa já é possível prever que a Pixar almeja por temas mais maduros aqui. Pete Docter (Monstros S.A. e Up: Altas Aventuras) e o co-diretor Ronaldo Del Carmen optam por uma animação com traços mais realistas e orgânicos para suas criações humanas (bem diferentes daqueles vistos em Os Incríveis, por exemplo), e o roteiro assinado por Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley mergulha fundo na psique humana e cria um universo riquíssimo e original, onde ideias e memórias são representadas visualmente através de ilhas, labirintos e grandes desfiladeiros – trazendo à memória os trabalhos de David Lynch (como a brilhante sequência do pensamento abstrato), Tudo o que Você Sempre quis Saber sobre Sexo E tinha Medo de Perguntar (na própria representação de elementos emotivos como figuras físicas) e até A Origem (os labirintos, as grandes construções e o onírico).

Todo o sistema no qual os personagens interagem e se manifestam (até na distribuição de cores, com Raiva assumindo o vermelho e Alegria um forte tom de amarelo) funciona sem se perder na complexidade que certamente deixaria algumas crianças mais confusas. Logo na memorável primeira cena, aprendemos sem nenhuma linha de diálogo como cada emoção reveza a função na “Sala de Comando” e como os elementos inconscientes podem ser afetados por, por exemplo, a protagonista cair no sono – como o Trem do Pensamento. Também encontramos divertidas soluções dos roteiristas para fenômenos comum, tal como uma vinheta antiga que subitamente invade a memória e não sai dali ou a brilhante abordagem à produção de sonhos.

Mesmo que mais maduro do que poderíamos esperar, o filme ainda é uma aventura empolgante com emoções genuínas. É hilário quando necessita (muito se deve a um personagem colorido que prefiro deixar como surpresa) e também emocionante e catártico quando a história avança por terrenos mais complexos, de uma forma que há tempos o estúdio não era capaz de entregar. O inteligente roteiro também é ousado por manter Alegria e Tristeza juntos a maior parte do tempo, ilustrando de uma forma honesta e simples como as duas precisam uma da outra para coexistir, e não numa relação de antagonismo; residindo aí o grande trunfo da produção. E vale apontar que, depois do razoável Tomorrowland e do esquecível Jurassic World, Michael Giacchino enfim traz um grande trabalho este ano com a maravilhosa trilha sonora.

Engraçado, poderoso e completamente imaginativo, Divertida Mente representa o renascimento da Pixar de suas cinzas, finalmente recuperando seu alto posto com uma narrativa corajosa e envolvente. Ah, como é bom estar de volta…

Obs: Fique durante os créditos finais, vale muito a pena.

| Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 11 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

2.0

JurassicWorldd
Chris Pratt e seu parça (é) velociraptor

Quando eu era criança, Jurassic Park e seus dinossauros foram parte essencial de meu crescimento como cinéfilo. Lembro até hoje da empolgação em ver o T-Rex pela primeira vez ou minha imensa decepção quando fora barrado no cinema ao tentar ver Jurassic Park 3, em meus longínquos 5 anos de idade. Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros veio abruptamente e eu mal podia acreditar que realmente veríamos um retorno à Ilha Nublar e seus habitantes pré-históricos. A verdade? Assim como os personagens de Lost, não precisávamos ter voltado.

A trama se passa 22 anos após o primeiro filme, ignorando (ou não fazendo menção alguma) aos eventos de O Mundo Perdido e do segundo filme. Aqui, o sonho de John Hammond é realizado e o parque temático com dinossauros criados geneticamente está completamente funcional e atraindo milhares de visitantes. Buscando novas formas de garantir patrocínio e impressionar a clientela, o grupo cria o primeiro dinossauro híbrido: o Idominus Rex. Como não deve ser nenhuma surpresa, o caos reina quando a criatura revela-se mais inteligente do que o esperado.

Ainda que com algumas mudanças significantes, o roteiro assinado por Rick Jaffa, Amanda Silver (dupla responsável pelo ótimo reboot de Planeta dos Macacos), Derek Connolly e o diretor Colin Trevorrow – repararam em quantas pessoas diferentes aqui? Então – é uma repetição de toda a fórmula do primeiro filme. Desde o maravilhamento inicial, passando pelas crianças em perigo até o status icônico garantido ao T-Rex, não é difícil encontrar referências gritantes, perdidas em meio às diversas subtramas que o roteiro tenta comportar, resultando em uma misturânea que acaba desencontrada e sem um foco específico – militarismo, natureza vs homem, guerra dos sexos (brega, brega), aproximamento entre irmãos… Uma enxurrada de elementos possíveis de se sentir na arrastada projeção de 124 minutos.

E Colin Trevorrow (do eficiente indie Sem Segurança Nenhuma) passa longe de ser um Steven Spielberg. As sequências de tensão pecam pela repetição; pelo menos três vezes temos uma situação em que algum personagem fica imóvel e escondido enquanto algum dinossauro o procura, e a ação é pouco imaginativa (o elemento da girosfera é uma exceção) e danificada por um excesso de CGI notável. Por incrível que pareça, a combinação de animatronics de Stan Winston com efeitos digitais no filme de 1993 surge muito mais verossímel do que as criaturas vistas em Jurassic World. E outra: não sei qual dos 5 roteiristas achou que domesticar e “fofotizar” velociraptors era uma boa ideia, muito menos transformá-los nos bichinhos de estimação de Chris Pratt, além de uma inesperada reviravolta no finalzinho que remete bastante à proposta do último Godzilla.

De dinossauros novos, o aquático Mosassauro impressiona pelo tamanho e sua relevância divertida para o clímax, enquanto o mutante Indominus Rex parece mais uma versão genérica do T-Rex (até o Espinossauro do terceiro filme tinha mais “carisma”), ainda que seu modus operandi seja interessante. Já o lado humano fica preso à estereótipos forçados, que incluem o caçador machão/afetivo de Chris Pratt (que o ator consegue tornar interessante, graças à boa performance) a executiva fria e altamente sexualizada de Bryce Dallas Howard e o militar inescrupuloso de Vincent D’Onofrio.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros é uma triste decepção que se perde num roteiro ruim e na ausência do encantamento que marcou o original de Steven Spielberg, destacando-se como o pior filme da série.

Digo, como reagir quando um dos próprios personagens quebra a quarta parede em uma piadinha ao dizer como “o primeiro parque era irado de verdade” e que “não precisava de híbridos genéticos”?