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| Django Livre | O divertido e sanguinário faroeste de Quentin Tarantino

Posted in Ação, Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Faroeste, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , on 9 de janeiro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

DJANGO UNCHAINED
Christoph Waltz é o Dr. King Schultz e Jamie Foxx é Django

Desde que estreiou na direção de longa-metragens em 1992 com Cães de Aluguel, Quentin Tarantino foi se mostrando um dos mais talentosos e influentes cineastas de seu tempo. Dono de um estilo único, seu currículo traz histórias de criminosos, noivas que lutam kung-fu e até um espetacular desvirtuamento da Segunda Guerra Mundial; e agora ele embarca no gênero com o qual vinha flertando há anos: o faroeste. E com Django Livre, adiciona mais uma pérola à sua filmografia.

Ambientado no sul dos EUA (por esse motivo, seria um equívoco classificar o longa como western) dois anos antes da Guerra Civil, a trama segue o recém-libertado escravo Django (Jamie Foxx) e o caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz) em uma série de caçadas por procurados pelo país. Posteriormente, a dupla deverá invadir a fazenda do desprezível Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) a fim de resgatar a esposa de Django, Bruhmilde (Kerry Washington).

Em todas as suas obras, Tarantino mostra o quão vasto é seu repertório cultural (fruto de seus anos como balconista de locadora) e estas sempre vêm recheadas de referências, especialmente em sua escolha musical. Logo em seus segundos iniciais (onde vale destacar o uso de um logo antigo da Columbia Pictures) acompanhamos uma marcha de escravos ao som do tema de Django, western spaghetti que serve como uma das muitas inspirações do filme e na metade da projeção, uma “participação amigável” de Franco Nero, astro do mesmo. E a escolha musical no restante da projeção é das mais inspiradas: de Ennio Morricone a Johnny Cash, até o estilo black e hip-hop, a trilha incidental é mais uma pérola do cineasta.

Trazendo também sutis referências temáticas (minha preferida envolve um dos personagens associando involuntariamente o sofrimento com uma música de Bethoveen, remetendo ao protagonista de Laranja Mecânica), a trama do longa começa a se desenrolar de forma simples. Não há um elemento estilístico agressivo como o de Pulp Fiction ou reviravoltas históricas como a de Bastardos Inglórios, mas a narrativa segue um rumo divertido e agradável (ainda que instável em alguns momentos, mas chegaremos a isso depois), graças à bem construída relação entre os dois protagonistas e a química de seus intérpretes.

Surgindo novamente impecável – e mostrando que Tarantino talvez seja o único capaz de explorar seu potencial ao máximo – Christoph Waltz faz de King Schultz uma figura memorável e é admirável a postura cortês que lhe é conferida (sua dicção ao proclamar as palavras de um vocabulário acertadíssimo, aliadas a expressões em alemão e francês, é espetacular), mantendo-a até mesmo quando a violência é a única alternativa restante; como fica claro na cena em que executa um sujeito ameaçador de forma controlada e ainda lhe explica o motivo de suas ações.

De forma similar, o Django de Jamie Foxx também surge como uma implacável máquina de matar, mas também é muito interessante observar como o ator constrói suas camadas mais suaves. Vítima da escravidão e obcecado em encontrar sua esposa Bruhmilde, percebe-se um silêncio nas atitudes do personagem e ainda assim, uma chama de esperança; reparem em como sua empolgação quase infantil (e também na forma como se senta) quando Schultz se prepara para contar-lhe uma história ou sua felicidade ao descobrir que poderá escolher suas próprias vestimentas. Mas não desconfiem das habilidades de Django como pistoleiro, ou de seu poder de persuasão.

DJANGO UNCHAINED
Leonardo DiCaprio é Calvin J. Candie

E é graças a essa dupla extremamente carismática que o longo primeiro ato do longa funciona, já que a primeira “missão” dos dois é simples e serve mais como apresentação de ambos, perdendo considerável parte do tempo em algumas sequências desnecessárias. Por exemplo, a cena em que um grupo Ku Klux Klan discute a ineficácia de suas máscaras é uma das mais engraçadas de todo o filme, mas não apresenta uma justificativa para estar aqui, já que tais personagens simplesmente aparecem e desaparecem da história sem propósito algum. Quando Django e Schultz partem para o resgate de Bruhmilde (e Tarantino faz belo uso de um letreiro retrô para ilustrar a passagem do tempo, logo seguido de outro que traz a localização da dupla com letras grandes e ameaçadoras, enfatizando o perigo que enfrentarão), a trama encontra seu principal objetivo e encontra um antagonista marcante na forma de Leonardo DiCaprio.

Vivido pelo ator de forma brilhantemente repulsiva, Calvin Candie é mais uma personagem que surpreende com suas explosões de violência (a cena do martelo, preparem-se para a fúria!), fruto de um aborrecido narcisismo que por sua vez pode ser consequência da bajulação que este teve em toda sua vida (observe como um de seus empregados o parabeniza pelo simples fato de este ter conseguido assinar uma carta sozinho), mas também podendo ser facilmente repreendido por sua irmã, uma das únicas figuras que este claramente respeita. A outra seria Stephen, seu ajudante pessoal, vivido por Samuel L. Jackson de uma forma que nunca o havíamos visto: extremamente caricato, mas muito (muito) engraçado.

E ainda que Django Livre seja um filme muito divertido, ele tem a capacidade de chocar com suas fortes cenas que retratam a opressão a escravos. A cena em que uma personagem é retirada de uma “hot box” é particularmente difícil de se assistir, principalmente por acompanharmos a reação de outros envolvidos na cena e pela direção segura de Tarantino, que retrata o momento sem maneirismos ou efeitos cômicos (algo raro em sua carreira): real e cru. Nesse sentido, é importante ressaltar também o uso excessivo da palavra “nigger” (traduzida pela legenda como “crioulo”) um termo pejorativo, mas cuja presença é necessária para retratar o fluxo do racismo presente na época em questão.

Movendo-se com um bom ritmo até uma conclusão um tanto exagerada, Django Livre é mais um ótimo trabalho de Quentin Tarantino, e ainda que não alcance a perfeição de Bastardos Inglórios ou Pulp Fiction, comprova a facilidade do diretor em navegar com seu estilo através de diferentes gêneros. Vejamos o que ele vai aprontar a seguir…

Obs: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme, realizada no dia 8 de Janeiro no shopping Pátio Paulista.

Obs II: Há uma curta, porém divertida, cena após os créditos finais.

Obs III: Como de costume, Tarantino participa do filme. E por um bom tempo, até.

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