Archive for the Animação Category

| O Pequeno Príncipe | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , on 24 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

Prince
O Pequeno Príncipe da Árábia

Certamente sou um caso à parte, mas eu nunca tinha lido ou pesquisado a respeito de O Pequeno Príncipe, clássico infantil do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry. Só quando sentei para assistir a esta adaptação em forma de animação que de fato entrei em contato com as inúmeras lições e mensagens que a história transmite em seus complexos 108 minutos. Ainda

A trama é esperta por se ambientar num mundo no qual O Pequeno Príncipe existe, sendo o elo de ligação de uma Jovem Menina (Clara Poincaré, no original em francês) com um velho Aviador (André Dussolier) que teria encontrado o Príncipe do título em uma de suas viagens. Uma improvável amizade nasce entre os dois, enquanto o mais velho tenta ensinar as lições de sua história enquanto procuram uma forma de reencontrar o enigmático Príncipe.

Até onde histórias infantis vão, O Pequeno Príncipe é incrivelmente maduro. Em seu núcleo, temos uma história repleta de importantes mensagens de vida, que vão desde o amadurecimento humano até a responsabilidade por atos individuais e valorização de um por certo momento, todas envoltas numa prosa requintada e rodeada de simbolismos. Quando o filme de Mark Osborne (responsável também por Kung Fu Panda) mergulha na historia de Saint-Laurent, a animação assume um lindíssima técnica stop motion ultrarrealista, conferindo no processo uma áurea quase mística para o Príncipe, que quase hipnotiza o espectador com seu olhar escuro e, ao mesmo tempo, curioso.

Na narrativa principal, a (inferior) animação 3D assume uma estética quase simétrica e com paletas cinzentas a fim de representar um mundo burocrático e obcecado com organização. A exceção fica com a casa do Aviador, marcada por cores mais vivas e um colorido quintal, que logo enfeitiçam a Jovem Menina para se libertar do mundo quase autoritário no qual habita. Quando esta parte para encontrar o Príncipe, é transportada para um mundo sombrio e que exacerba todas as características de seu próprio cotidiano, além de misturar-se elegantemente com as ideias de Saint-Laurent: mostrar as consequências da história do livro é uma decisão ousada, e que funciona bem dentro da diegética de Osborne. A imagem da Jovem Menina sendo acorrentada por grandes empresários engravatados em uma carteira escolar é provavelmente a mais icônica do longa, sendo poderosa o bastante para lembrar o clássico The Wall, do Pink Floyd.

O Pequeno Príncipe é uma delicada e inteligente adaptação do clássico de Saint-Exupéry contando com lindíssimas técnicas de animação stop motion e um roteiro forte que certamente deve agradar aos fãs.

Anúncios

| Divertida Mente | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

InsideOut
Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza

Ao escrever sobre Universidade Monstros em 2013, discorri sobre como a Pixar manteve uma inacreditável série de sucessos consecutivos que caiam nas graças do público e da crítica – geralmente com uma vitória no Oscar como último estágio. Sem entregar algo realmente digno de sua qualidade habitual desde Toy Story 3, em 2010, o estúdio de volta à boa forma com aquele que pode muito bem ser seu melhor trabalho: Divertida Mente.

A trama é concentrada nas emoções da jovem Riley: Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Nojinho (Mindy Kalling), Medo (Bill Hader) e Raiva (Lewis Black). Estas são responsáveis por controlar o humor, as memórias e a personalidade da garota, dentro de sua mente. Quando Riley enfrenta uma dura fase com uma mudança de cidade, nova escola e colegas, o grupo precisa evitar que esta sucumba a uma depressão.

Só pela premissa já é possível prever que a Pixar almeja por temas mais maduros aqui. Pete Docter (Monstros S.A. e Up: Altas Aventuras) e o co-diretor Ronaldo Del Carmen optam por uma animação com traços mais realistas e orgânicos para suas criações humanas (bem diferentes daqueles vistos em Os Incríveis, por exemplo), e o roteiro assinado por Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley mergulha fundo na psique humana e cria um universo riquíssimo e original, onde ideias e memórias são representadas visualmente através de ilhas, labirintos e grandes desfiladeiros – trazendo à memória os trabalhos de David Lynch (como a brilhante sequência do pensamento abstrato), Tudo o que Você Sempre quis Saber sobre Sexo E tinha Medo de Perguntar (na própria representação de elementos emotivos como figuras físicas) e até A Origem (os labirintos, as grandes construções e o onírico).

Todo o sistema no qual os personagens interagem e se manifestam (até na distribuição de cores, com Raiva assumindo o vermelho e Alegria um forte tom de amarelo) funciona sem se perder na complexidade que certamente deixaria algumas crianças mais confusas. Logo na memorável primeira cena, aprendemos sem nenhuma linha de diálogo como cada emoção reveza a função na “Sala de Comando” e como os elementos inconscientes podem ser afetados por, por exemplo, a protagonista cair no sono – como o Trem do Pensamento. Também encontramos divertidas soluções dos roteiristas para fenômenos comum, tal como uma vinheta antiga que subitamente invade a memória e não sai dali ou a brilhante abordagem à produção de sonhos.

Mesmo que mais maduro do que poderíamos esperar, o filme ainda é uma aventura empolgante com emoções genuínas. É hilário quando necessita (muito se deve a um personagem colorido que prefiro deixar como surpresa) e também emocionante e catártico quando a história avança por terrenos mais complexos, de uma forma que há tempos o estúdio não era capaz de entregar. O inteligente roteiro também é ousado por manter Alegria e Tristeza juntos a maior parte do tempo, ilustrando de uma forma honesta e simples como as duas precisam uma da outra para coexistir, e não numa relação de antagonismo; residindo aí o grande trunfo da produção. E vale apontar que, depois do razoável Tomorrowland e do esquecível Jurassic World, Michael Giacchino enfim traz um grande trabalho este ano com a maravilhosa trilha sonora.

Engraçado, poderoso e completamente imaginativo, Divertida Mente representa o renascimento da Pixar de suas cinzas, finalmente recuperando seu alto posto com uma narrativa corajosa e envolvente. Ah, como é bom estar de volta…

Obs: Fique durante os créditos finais, vale muito a pena.

| Operação Big Hero | Crítica

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

BigHero6
Hiro e o robô Baymax

Com a compra da Marvel pela Disney, a empresa de Mickey Mouse assumiu controle até das mais distintas obras da editora. No mercado japonês, as histórias do grupo Big Hero 6 são bem populares, mas confesso que nunca tinha ouvido falar desta até o lançamento desta nova divertida animação do estúdio, Operação Big Hero.

Escrita por Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird, a trama é ambientada numa sociedade futurista que atende pelo nome de San Fransokyo (união entre a cidade californiana americana e a capital japonesa), apresentando-nos ao jovem Hiro (voz de Ryan Potter no original), menino prodígio que tenta escolher o que fazer com seu imenso potencial. Após a repentina morte de seu irmão em um incêndio, ele descobre seu robô Baymax (voz de Scott Adsit), que o ajudará a encontrar um misterioso mascarado que estaria envolvido na tragédia.

As animações da Walt Disney andam muito bem, ainda mais se compararmos com as da Pixar. Com John Lasseter atuando pesadamente como produtor de alguns projetos do estúdio, tivemos obras do calibre de Detona Ralph e o superpoderoso Frozen: Uma Aventura Congelante. Operação Big Hero continua esse strike bem-sucedido de sucessos, e se a animação anterior virava os contos de princesa de ponta cabeça, esta mergulha no gênero dos super-heróis. Visualmente, é um grande feito ao elaborar designs criativos para seus personagens e locações, especialmente ao observarmos as influências futuristas na elegante junção da arquitetura americana com a japonesa (a ponte Golden Gate, por exemplo, fascinante com telhados típicos da cultura oriental).

Mas se há um fator que faz a diferença aqui é Baymax, o adorável robô inflável. Sua expressão minimalista e quase imutável garante ao personagem uma ingenuidade divertida e tocante, que logo caminha para um bem colocado senso de humor, provocando risadas de forma sutil; como os movimentos delicados e outrora desajeitados de Baymax. Os demais personagens também são muito bem trabalhados e diferentes entre si, especialmente na forma como os animadores ilustram suas distintas habilidades. O vilão mascarado, dentre todos, é o que mais chama a atenção, graças a seu visual amedrontador e sua locomoção através de milhares de nanobots – elemento que rende ótimas cenas de ação.

O que realmente não me agradou em Big Hero foram algumas soluções de roteiro. A identidade e motivações do vilão mascarado (como em Frozen, o filme tenta ocultar o real antagonista da história) surgem meio deslocadas da trama central, trazendo elementos de Contato e Os Vingadores. Sem falar que o filme peca ao se mostrar mais um exemplar da escola Marvel de “Ninguém está realmente morto”, principalmente por garantir uma grande cena emocional para algo… Irrelevante. Sinto que é um artifício barato para trapacear o espectador.

Operação Big Hero é uma animação eficiente e empolgante, capaz de entreter e divertir graças a seus personagens ecléticos. Pode não ter uma história ou apego emocional fortes como em Os Incríveis, já que também é uma aventura de super-heróis, mas vale a visita. E Baymax já merece entrar pra História como um dos robôs mais memoráveis dos últimos tempos.

Obs: Há uma ótima cena após os créditos.

| Uma Aventura LEGO | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Comédia, Críticas de 2014, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 27 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

TheLEGOMovie
E você achando que só em 2016 veríamos um novo filme com Batman…

Quando criança, brincar com as famosas peças de LEGO era como uma experiência religiosa. Aliada à paixão de cinema, o “ritual” muitas vezes dava a origem a pequenas (e tolas, exageradas) narrativas se desenrolando sobre meus dedos, e a brincadeira já até rendeu alguns curtas em stop motion, mas enfim… Só parei agora para assistir a Uma Aventura LEGO, e me surpreendi com um dos filmes mais leves, honestos e divertidos de 2014.

A trama é ambientada em um mundo formado de peças de LEGO, onde diversas linhas do produto convivem em harmonia (linhas de corrida, faroeste, astronautas, tudo o que você via nas prateleiras), na verdade uma mera fachada para o regime ditatorial do Lord Business (voz de Will Ferrell). A situação muda quando o pacato e ordinário funcionário público Emmet (voz de Chris Pratt) encontra uma peça mítica que o transforma em uma espécie de messias e o coloca de frente com diversas figuras populares em uma missão para derrubar a tirania de Business.

LEGO é um filme muito curioso. Ao mesmo tempo é inevitável que o filme pareça uma peça publicitária para a vendedora de brinquedos: desde imagens das próprias caixas dos blocos de montar até a suposição de que as vendas do produto devem ter aumentado estratosfericamente após o lançamento do filme. Mas aí, nos deparamos com uma trama em que o antagonista é justamente um sujeito que, não por coincidência, atende pelo nome de “Negócio” e representa basicamente a ideologia megalomaníaca de poderosas empresas capitalistas. Ah, sim e eu estou falando sobre um filme onde bonequinhos de montar andam e falam…

Metalinguagem é um dos grandes pontos da produção, o que é curioso já que o filme anterior dos diretores Phil Lord e Chris Miller era justamente sobre isso – no caso, a brilhante comédia policial Anjos da Lei. Responsável também pelo roteiro, a dupla nitidamente se diverte ao bolar as piadas e referências mais inusitadas possíveis, desde a narração clichê do personagem de Morgan Freeman até as sensacionais participações especiais. Colocar Batman (dublado no original por Will Arnett em sua melhor imitação de Christian Bale) como um sidekick do protagonista é uma sábia decisão, dada a força de presença do personagem e a oportunidade de ver situações que raramente encontraríamos em um filme de franquia, por exemplo. Não vou entrar em detalhes para preservar o fator surpresa de alguns “convidados”, mas é demais a sutil piada que Lord e Miller fazem com o Lanterna Verde (dublado por Jonah Hill), em um claro puxão de orelha ao fiasco produzido pela Warner em 2011.

Nesse turbilhão de referências pop, é como se os personagens tivessem a consciência de que fazem parte de um mundo de brinquedo. A animação que remete diretamente à técnica de stop-motion quase faz parecer que estamos diante de algum ser humano brincando com suas pecinhas, e ganha ainda mais força quando o roteiro nos revela o que é esse universo. É uma das revelações mais interessantes e surpreendentemente belas da produção, que consegue encontrar uma interessante mensagem em meio ao caos e anarquia de suas cenas de ação e múltiplas locações.

Seja lá adulto ou criança, Uma Aventura LEGO é incrível.

EVERYTHING IS AWESOME!!!!!!!!!!!!!!

| Batman – O Cavaleiro das Trevas | Animação adulta dá movimentos à obra-prima de Frank Miller

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Animação, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , on 11 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

batman
Um Batman idoso e violento: a HQ de Frank Miller ganha vida

Em 1986, a DC comics publicou uma das melhores graphic novels da história da indústria: Batman – O Cavaleiro das Trevas, escrita e ilustrada por Frank Miller (com co-ilustrações de Klaus Jason). Quase três décadas depois e o material continua sendo reverenciado e, aos olhos de Hollywood, uma obra “infilmável” – ainda que adaptações ao cinema do personagem tragam diversos elementos da narrativa. Em 2012 e 2013, Jay Oliva dirige uma animação que adapta toda a obra de Miller, e o resultado é bem decente.

A trama, caso não conheça, é ambientada em um futuro sombrio onde não existem mais super-heróis (um universo bem parecido com aquele visto em Watchmen, de Alan Moore) e o crime domina as ruas de Gotham City. Não suportando o nível de violência alcançado pela cidade, o Batman (voz do RoboCop, Peter Weller) abandona a aposentadoria e retorna mais violento e com a ajuda de um novo Robin (uma menina, dublada por Ariel Winter). Na saga para retomar o controle da cidade, o Cavaleiro das Trevas reencontrará velhos inimigos, aliados e até sairá na mão com o Superman |(Mark Valley).

Esta adaptação foi lançada diretamente para DVD, em dois volumes (o primeiro no final de 2012, e o segundo no começo deste ano), pela DC Universe Animated, que também já havia cuidado de uma versão animada para Batman – Ano Um. Em termos de fidelidade, o roteiro de Bob Goodman transpõe toda a genial história de Frank Miller em 2h40 em uma narrativa empolgante e que mantém o tom pesado da HQ. Todos os momentos icônicos estão aqui e alguns deles, graças a recursos que apenas o audiovisual é capaz de oferecer, ganham ainda mais impacto do que no papel: o homérico confronto entre o Morcego e o Superman é um deles, que fica mais longo e impressiona pela ação, e também deve-se créditos ao compositor Christopher Drake, que elabora temas eficientes e que permeiam a história com perfeição – vide sua abordagem minimalista (algo também explorado por Hans Zimmer na trilogia de Christopher Nolan) para o Coringa homicida de Michael Emerson, uma decisão que só ajuda a tornar o personagem mais assustador.

O grande problema reside na técnica de animação. Ainda que a equipe do diretor Jay Oliva tenha conseguido preservar o traço animalesco de Miller, os desenhos ganham vida de forma robótica e quase amadora; reparem que, muitas vezes, os personagens “congelam” e até perdem a habilidade de piscar. Os movimentos labiais também pecam pela artificialidade e quase transformam a produção em experimento desengonçado de dublagem.

É bem improvável que vejamos uma adaptação cinematográfica integral de Batman – O Cavaleiro das Trevas nos cinemas (o confronto com o Homem de Aço está chegando, mas…), pelo menos não num futuro próximo. Até o dia chegar, esta animação faz jus ao clássico dos quadrinhos.

Obs: As animações só encontram-se à venda separadamente.

| Universidade Monstros | Primeiro prelúdio do estúdio fica aquém de sua gloriosa reputação

Posted in Animação, Cinema, Críticas de 2013 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

mu
Toga! Toga! Mike e Sully nos tempos de faculdade

A Pixar teve um período espetacular nos cinemas. De 2005 até 2010, o estúdio filiado pela Walt Disney foi responsável por alguns dos melhores filmes de animação de todos os tempos: Os Incríveis, Ratatouille, Wall-E, Up – Altas Aventuras e Toy Story 3 conquistaram não só o público infantil, mas também fez muitos adultos chorarem (eu ainda apanho dos 10 minutos iniciais de Up) e refletirem sobre os temas contidos nesses trabalhos – quase todos indicados ao Oscar, dois deles ao de Melhor Filme. A Era de Ouro da Pixar acabou com Carros 2 e Valente, filmes que- mesmo tendo sido bem recebidos – careciam do valor sentimental/maduro encontrado em seus trabalhos anteriores. Universidade Monstros chega para tentar reafirmar o posto absoluto do estúdio, mas não é nada além de um filme divertido.

A trama serve como prelúdio para o genial Monstros S.A., mostrando Mike Wazowski (voz de Billy Cristal na versão original) e James P. Sullivan (voz de John Goodman) se conhecendo na Universidade Monstros, uma faculdade especializada no ensino dos sustos e formadora de funcionários para a famosa empresa do filme anterior. Aqui, a dupla se alia a um grupo ridicularizado a fim de ganhar um torneio essencial para o curso de Assustadores.

Comandado pelo estreante Dan Scanlon (que também assina o roteiro ao lado de Robert L. Baird e Daniel Gerson), Universidade Monstros é eficiente ao trabalhar alguns elementos de sua empolgante proposta: como funcionaria uma instituição de ensino de monstros? Daí entra a esperteza do texto ao transportar todos os estereótipos de universidades norte-americanas (os esportistas, os nerds, os hippies e toda aquela divisão de fraternidades) ao universo de monstros nada assustadores, mas que continuam surpreendendo por suas composições inventivas (a personagem dublada por Helen Mirren, uma mistura de inseto com dragão, é particularmente interesssante). As melhores piadas funcionam pelos pequenos detalhes.

O que nos leva ao grande problema do filme. A história aqui é pautada em uma estrutura formulaica, prevísivel e que não parece ter nada muito significativo a dizer (além de uma óbvia valorização do trabalho em equipe). Claro, o público-alvo nesse tipo de produção é a faixa etária dos 10 anos, mas a Pixar sempre conseguia trazer algo além. Não temos aqui uma história emocionante como a do velhinho Carl, um amadurecimento profundo como o de Andy ou um antagonista complexo como o crítico gastronômico Ego. O prelúdio se sai bem como uma animação divertida e que entretém, mas não parece demonstrar a ambição por temas mais elaborados. Como fã de Monstros S.A., fico decepcionado por não ter sido bem explorada a relação entre Mike e a salamandra Randy Boggs (voz de Steve Buscemi); é revelado aqui que os dois eram amigos, mas o desmantelamento dessa amizade se dá por motivos rasos, jamais ganhando o foco necessário para justificar a vilania do personagem no primeiro filme.

Ainda estou esperando que a Pixar volte a me estapear com suas incríveis doses de sentimento e humor. Universidade Monstros é um bom filme, mas o estúdio pode (e está devendo) fazer muito melhor.

Obs: Há uma engraçadíssima cena pós-créditos.

Obs II: Como de costume nos filmes da Pixar, é exibido um curta-metragem antes do início do filme. “O Guarda-Chuva Azul” é bonitinho, mas nada espetacular.

| Uma História de Amor e Fúria | Animação nacional não faz total uso de sua ambiciosa proposta

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , on 4 de abril de 2013 by Lucas Nascimento

2.5

UmaHistoriadeAmoreFuria
Mesmo em forma animada, Camila Pitanga mantém seus belos traços

É sempre bom ver o cinema nacional se arriscando em novos gêneros. Em tempos em que o circuito é dominado por comédias escrachadas, thrillers policiais contra traficantes, longas espíritas e algumas raras exceções (como o ótimo O Palhaço e a divertida ficção científica O Homem do Futuro), eis que chega Uma História de Amor e Fúria com uma proposta ousada e estimulante, mas que que acaba presa no lugar-comum.

Remetendo ligeiramente ao Cloud Atlas (A Viagem, como preferir…) de Tom Tykwer e dos irmãos Wachowski, a trama nos apresenta a um sujeito (voz de Selton Mello) que já viveu por 600 anos. Começando como um índio tupinambá no período da colonização, ele avança os séculos em busca de sua amada Janaína (Camilla Pitanga), passando também pela revolta de escravos da Balaida no século XIX, o ápice da ditadura militar na década de 60 e um futuro distópico em 2096.

Dirigida e escrita por Luiz Bolognesi (que estreia na direção após assinar roteiros como Terra Vermelha e As Melhores Coisas do Mundo), a animação é muito informativa. Considerando que Bolognesi fora jornalista anteriormente, seus relatos sobre alguns períodos históricos e hipóteticas previsões são eficientes e dramatizados de forma a entreter o espectador. O segmento futurista é de longe o mais empolgante, porque abraça conceitos cyber punks dos mais interessantes – algo que não vemos como muita frequência no cinema nacional – e lança diversas ideias com cunho político, como a sutil referência a um líder religioso que teria tornado-se presidente.

Tamanha é a qualidade do último ato do filme, que os demais empalidecem. É triste ver que os demais segmentos sejam compostos por clichês e sigam uma estrutura episódica que impede o desenvolvimento do protagonista – que ainda sofre com um trabalho vocal inexpressivo de seu intérprete (reparem, por exemplo, como o ator adota um senso de “pânico controlado” em um momento nada apropriado). O guerreiro de Mello pula de épocas e sempre trilha um caminho semelhante com o anterior: luta pelos mais fracos e acaba falhando, procura uma forma de se unir a sua amada, e a perde. A repetição é o grande problema de Uma História de Amor e Fúria, que ainda desacredita na inteligência do espectador e insiste em martelar constantemente sua mensagem de que “não conhecer o passado, é viver no escuro”. Depois de ouvir umas três variações dessa frase (que estampa, também, os cartazes do longa)  já pensava comigo mesmo: “tudo bem Bolognesi, já entendi…”

Com uma animação que soa retrógrada em sua forma e execução (os movimentos são lentos, meio “travados”), Uma História de Amor e Fúria é incapaz de se aproveitar de sua ambiciosa proposta – e recorre a um didatismo forçado para transmitir sua nada complicada mensagem. Mas ainda assim, valeu pela intenção e que sirva de exemplo para outros cineastas brasileiros. Já é hora de sair do básico.

Observação: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme, em 1 de Abril.