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| No Coração do Mar | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 2 de dezembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

IntheHeartoftheSea
Chris Hemsworth é Owen Chase

É fascinante, e até um pouco assustador, quando paramos para pensar que o oceano é menos mapeado do que Marte. Sabemos que o planeta vermelho pode não ter nada de muito chamativo em sua superfície deserta, mas alguns biólogos não fazem ideia do tipo de biosfera que podemos encontrar nas profundezas marítimas, e isso é empolgante. Quando No Coração do Mar tem início, com uma narração tematicamente similar, fica a promessa de algo que explorará o místico com um delicioso senso de mistério. Só que não.

A trama é adaptada do livro “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”, de Nathaniel Philbrick, que, por sua vez, é a fonte de inspiração de Herman Melville para o clássico Moby Dick. Aqui, acompanhamos a tripulação do navio baleeiro Essex, liderado pelo capitão George Pillard (Benjamin Walker) e seu primeiro imediato, Owen Chase (Chris Hemsworth). Ao descobrirem uma região distante que pode revelar-se absurdamente lucrativa, são atacados por uma gigantesca baleia branca que os coloca em perigo.

De cara, já é admirável notar a versatilidade de Ron Howard: saído das pistas de fórmula 1 com o excelente Rush: No Limite da Emoção, o diretor já traz Chris Hemsworth e seu diretor de fotografia Anthony Dod Mantle para uma aventura em alto mar sobre pesca de baleias. Infelizmente esse novo filme não alcança o mesmo nível de qualidade do anterior, principalmente não saber exatamente o que quer ser. O marketing nos prometia uma história de homem vs natureza no espírito de Moby Dick, mas a gigantesca baleia antagonista não aparece tanto aqui, e Howard falha ao não apostar em um suspense a lá Tubarão para revelar o grande mamífero; ainda que seja realmente belíssimo quando vemos sua colossal calda emergindo do oceano.

Após um ataque que destroi o navio por completo, o longa entra em um ritmo monótono para acompanhar os sobreviventes lutando para permanecerem vivos em alto mar, remetendo à As Aventuras de Pi e até Náufrago quando os personagens encontram uma ilha remota. Tudo isso é retratado com um certo tom de punição, já que a primeira cena de pesca às baleias é dirigida com tristeza, acompanhada por uma trágica trilha sonora de Roque Baños, como se fosse uma coisa terrível que esses homens fazem, e que sua subsequente perdição no mar é um castigo.

O elenco também mostra-se favorável a esse retrato. Hemsworth é carismático o bastante para segurar o papel de protagonista, criando uma figura esperta e moralmente correta com seu Owen Chase; ainda que sua tão divulgada perda de peso no filme não seja tão bem explorada ou aproveitada pela equipe. Tom Holland, prestes a ganhar as telas como o novo Homem-Aranha, também se sai bem ao lado de Hemsworth, mas é mesmo Brendan Gleeson (que interpreta o mesmo personagem envelhecido) quem tem a oportunidade de compor um trabalho mais complexo, já que recusa-se a contar a história de início, apenas para uma revelação chocante e que rende uma reação emocionante do ator.

Visualmente, também é um resultado agridoce. O trabalho mediano de efeitos visuais para criação das baleias e ambientes realmente não casou com o estilo de Anthony Dod Mantle, particularmente no uso de seus filtos e o trabalho de correção de cor na pós-produção; dando a estranha impressão de o elenco estar “descolado” do ambiente, e um brilho atípico para as ondas. O uso constante de Howard das go pros também incomoda, a não ser por momentos mais sutis; como a reação de Chase ao se dar conta de que perdeu o colar dado por sua esposa.

No Coração do Mar é um longa eficiente, mas que encontra problemas quanto ao tipo de história que quer contar, e onde realmente quer estabelecer seu foco: um filme sobre homem vs animal? A vingança da natureza? A ambição do homem? A criação de uma obra-prima? São muitos filmes presos em um fiapo que ocasionalmente revela-se frágil.

| Aliança do Crime | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 14 de novembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

BlackMass
Johnny Depp é Whitey Bulger

Quem não adora um bom filme de máfia? Talvez seja, junto com o western, um dos mais característicos gêneros do cinema americano, que já nos rendeu obras como a trilogia Poderoso ChefãoOs Bons Companheiros, ScarfaceEra uma Vez na América,Os Intocáveis e obras recentes como Os Infiltrados, O Gângster, O Homem da MáfiaO Ano Mais Violento e tantas outras. É sempre bom entretenimento observar sagas criminosas de figuras detestáveis que podem – ou não – criar curiosa empatia com o público. Quando anunciado que Johnny Depp largaria a excentricidade irritante de seus trabalhos com Tim Burton em Aliança do Crime, a empolgação é grande.

A trama é inspirada na história real do gângster Jimmy “Whitey” Bulger (Depp) e sua controversa aliança com o FBI, representado na forma do ambicioso John Connolly (Joel Edgerton) nas décadas de 70 e 80. Enquanto Bulger expande seu pequeno império no sul de Boston, é protegido por seu irmão senador (Benedict Cumberbatch) e ganha imunidade do FBI por entregar seus competidores.

É um material excelente para se trabalhar, e o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth consegue comportar uma vasta quantidade de eventos em uma narrativa concisa e que usa da função de flashfoward de maneira orgânica; com os antigos comparsas de Bulger prestando depoimento à polícia de forma que avance a trama sem exposição gritante.

O problema é que Aliança do Crime não é exatamente empolgante.

Tem todos os ingredientes e jogadores muito habilidosos, mas o diretor Scott Cooper realmente não consegue encontrar uma identidade para o longa. Não tem o carinho familiar que marcou O Poderoso Chefão (ainda que a história tente criar uma relação afetiva entre Bulger e seu filho pequeno), nem o humor ácido de Os Bons Companheiros, infelizmente limitando-se a uma experiência burocrática. Cooper até consegue compor bons enquadradamentos (é curiosa a rima com o plongée do carro de Bulger com a visão de Connolly e sua esposa vistos atrás de uma porta) e o diretor de fotografia Masanobu Takayanagi utiliza bem das cores e do granulado para compor uma imagem que teria saído dos anos 70, mas não há nada de realmente memorável como cinema. Nem as súbitas explosões de violência impactam como deveriam.

Muitos irão assistir por Johnny Depp, e depois de ver o talentoso ator ser desperdiçado em tantas atrocidades, é confortante vê-lo bem encaixado na pele de Bulger. Sua fala mansa que logo revela-se ameaçadora é cativante, assim como o sutil trabalho do ator com os olhos, dominando todas as cenas em que aparece. É uma construção que felizmente não soa espalhafatosa, podendo muito bem ser posta lado a lado com seu ótimo trabalho em Inimigos Públicos, onde também deu vida a mais um notório criminoso da história dos EUA: John Dillinger. Porém, sua maquiagem excessivamente caricata o destoa de todo o restante da produção, como se fosse uma figura que, visualmente, não pertencesse àquele universo.

E mesmo com um elenco estelar em mãos, Cooper nunca consegue aproveitá-los. Joel Edgerton está excelente como Connolly, e sua jornada de corrupção é certamente o ponto mais interessante da narrativa (ainda que a transição de lado jamais seja verdadeiramente explorada, tendo uma cena de balada aqui e pronto), mas quando temos Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Corey Stoll, Peter Sarsgaard, Juno Temple e Jesse Plemons todos reduzidos a participações especiais, é frustrante.

Aliança do Crime jamais atinge o grandioso status que poderia ter alcançado, limitando-se a uma narrativa mais segura e com medo de encontrar sua identidade. Funciona pontualmente pelo elenco e a progressão da história, mas é realmente um longa que não será muito lembrado.

| Sicario: Terra de Ninguém | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de outubro de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

Sicario
Emily Blunt é Kate Macer

No cinema americano, o gênero de guerra sempre precisou de um conflito chave para gerar boas narrativas. Nada a ver com ideologia ou ufanismo (na maioria dos casos, claro), mas uma situação em que humanos se viram uns contra os outros para derramamento de sangue oferece um olhar reflexivo e por vezes fascinantes sobre o Homem. Ainda que não seja uma guerra propriamente dita, o narcotráfico têm se tornado um tema popular nos últimos anos, tendo em Sicario: Terra de Ninguém, mais uma adição digna.

Estreia do ator Taylor Sheridan (Sons of Anarchy) como roteirista, a trama nos apresenta à agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt), que é designada para um divisão especial na luta contra um notório cartel de drogas mexicano. Sob a conduta do nebuloso Matt Graver (Josh Brolin) e auxílio do misterioso Alejandro (Benicio Del Toro), Kate mergulha fundo na perigosa atmosfera do México e a luta por respostas.

É muito simples o texto de Sheridan, e não vai muito além do familiar. Afinal, depois do sucesso avassalador de Breaking Bad, qualquer produto audiovisual sobre o tema tem uma grande dificuldade em destacar-se (saindo novamente do cinema, é o caso da série Narcos, que é eficiente mas nada original). Sicario faz o básico e traz personagens interessantes, especialmente o agente irrotulável que Benicio Del Toro vive de forma soturna e imprevisível; não sendo nenhuma surpresa que este roube totalmente o filme da protagonista de Blunt. O que é uma pena, dado que havia aqui a oportunidade de criar uma protagonista feminina forte aos moldes da Maya de A Hora Mais Escura, e a atriz se sai bem ao questionar as ações de seus superiores e demonstrar muita fragilidade – a cena de abertura é matadora. Só fico decepcionado que uma personagem que prometesse tanto, acabasse em um arco dramático tão frustrante; mesmo sendo uma consequência natural de suas escolhas e do universo cruel no qual habita.

Mas o que torna o filme realmente memorável é seu diretor. Denis Villeneuve. Vindo de uma carreira forte marcada por IncêndiosOs SuspeitosO Homem Duplicado, o franco-canadense explora aqui sua habilidade de criar tensão, sendo capaz de nos deixar preocupados com seus personagens mesmo com pouco tempo de filme. A crueldade da descoberta feita na primeira cena já é o primeiro indício da violência que encontraremos, e a antecipação por esta é muitíssimo bem salientada pelos planos bem abertos – monstrualizando as áridas paisagens mexicanas – e a excelente trilha sonora de Jóhann Johánssonn, capaz de provocar com as notas mais simples possíveis.

Vale apontar também a condução de Villeneuve durante as tensas sequências envolvendo uma possível emboscada na fronteira entre EUA e México e a invasão da equipe em um túnel que exige que o sempre brilhante diretor de fotografia Roger Deakins troque suas ensolaradas lentes para uma visão noturna/infravermelha, garantindo uma solução dinâmica e imersiva.

 Sicario: Terra de Ninguém continua solidificando a carreira e comprovando o talento de Denis Villeneuve, rendendo um filme intenso e que se beneficia de uma condução impecável, capaz de invalidar a estrutura batida do roteiro e sua falta de originalidade.

| Perdido em Marte | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de outubro de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

TheMartian
Matt Damon é Mark Watney

No início de sua carreira, Ridley Scott fez duas das maiores contribuições para o gênero da ficção científica, além de permanecerem como seus melhores trabalhos: Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner: O Caçador de Andróides. Scott só retornou ao espaço com Prometheus, e agora com Perdido em Marte, filme que definitivamente não vai mudar o gênero ou o mundo, mas vai garantir entretenimento de primeira.

Adaptada do livro homônimo de Andy Weir, a trama começa com uma missão tripulada para o planeta Marte, contando com os astronautas Mark Watney (Matt Damon), Melissa Lewis (Jessica Chastain), Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Alex Vogel (Aksel Hennie) e Chris Beck (Sebastian Stan). Após uma violenta tempestade, Watney é deixado para trás e dado como morto, enquanto a tripulação retorna para a Terra. Bom, surpresa, Watney está vivo e precisará encontrar um jeito de sobreviver sozinho no planeta até que a NASA possa resgatá-lo.

É mais uma história solitária e desesperada de sobrevivência, só que não. O roteiro de Drew Goddard não foca-se apenas na situação de Mark, e este não é o sujeito mais desesperado que estamos acostumado. Watney é um botanista otimista e que procura manter o bom humor (ainda que em diversos momentos, o desespero bata à porta), e Goddard traz soluções críveis para as muitas adversidades enfrentadas pelo protagonista, desde uma improvisada plantação de batatas com um fertilizante naturalíssimo ou o uso de um alfabeto nerd para estabelecer uma lenta comunicação. Claro, a narrativa depende de muitos Deus Ex Machina para funcionar, principalmente quanto à aparição quase súbita de sondas e módulos terrestres que já estavam em Marte, mas a boa atuação de Damon faz valer os eventuais exageros.

As cenas na Terra não têm o mesmo ânimo das do protagonista marciano, mas funcionam pela abordagem delicada dos cientistas e executivos. Jeff Daniels se sai bem como o diretor da NASA, sujeito linha dura e que não se incomoda em mentir a fim de alcançar um objetivo (como ocultar da tripulação a notícia da sobrevivência de Mark), mas que revela um limite moral ao se recusar a arriscar a segurança da tripulação, quando lhe é proposto que esta retorne para salvar Mark. O elenco estelar desempenha bem seus papéis, ainda que poucos tenham a chance de realmente se destacar a nível de prêmios, com Donald Glover e Chiwetel Ejifor tendo os personagens mais adoráveis. A tripulação não tem muita personalidade, com Michael Peña fazendo o obrigatório alívio cômico e Jessica Chastain cria uma comandante forte, mas não muito desenvolvida. E me disseram que Kristen Wiig estava no filme, mas só a vi umas duas vezes…

Tecnicamente, é um longa impecável. A fotografia de Darius Wolski captura a beleza das paisagens marcianas, fazendo também um belo uso do 3D, graças a planos bem abertos que garantem profundidade e um uso acertado dos efeitos visuais: a tempestade que assola os personagens no primeiro ato fornece uma imersão impressionante. E ainda que o filme tenha um ritmo divertido e vívido (benefícios da ótima montagem de Pietro Scalia e da trilha musical com disco music), Scott nos lembra dos velhos tempos ao trazer um ou outro momento mais intenso, como uma auto-cirurgia e o espetacular clímax. E que coma a primeira batata marciana quem não se arrepiou quando as letras do título sumiram ao estilo Alien…

Perdido em Marte é um filme que surpreende pelo otimismo e o bom humor, e que deve despertar o interesse de muitos em exploração espacial. Ridley Scott pode errar bastante, mas compensa esperar por um projeto certeiro como este.

Obs: Reforço, o 3D vale muito a pena. 

| Evereste | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , on 26 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

Everest
JJJ: Jake Gyllenhaal, Josh Brolin e Jason Clarke enfrentam a natureza

No vasto gênero de homem versus natureza, o diretor que se arrisca a contribuir com este encara o desafio de tentar superar uma fórmula batida e formada por um verdadeiro campo minado de clichês. Filmes como Vivos127 HorasAté o Fim impressionam por seus diferentes estilos, elenco e linguagem, mesmo seguindo uma fórmula batida, o que nos sugere que uma boa direção é capaz de salvar qualquer filme. Infelizmente, Evereste se arrisca pouco e fica na linha do aceitável, ainda que seu elenco valha a presença.

O roteiro assinado por William Nicholson e Simon Beaufoy é inspirado em uma deasastrosa expedição real que ocorreu em 1996, na qual diferentes grupos de alpinistas foram vítimas de uma violenta tempestade de neve que os deixou presos no Monte Evereste.

Talvez o principal problema esteja na distribuição de personagens. O ótimo elenco é carregado de grandes nomes, mas que infelizmente se perdem na montagem desequilibrada de Mick Audsley, que transita a atenção para um personagem ou outro de forma descontrolada: ora ficamos mais ao lado do personagem de Jason Clarke (de longe, a figura mais agradável da produção), ora acompanhamos o esforço de Josh Brolin para sobreviver, invalidando uma noção clara de protagonista e também a chance de desenvolvê-los apropriadamente. Digo, alguém me explica o que aconteceu com Jake Gyllenhaal? Porque o filme praticamente o abandona depois de certo ponto, e prefiro nem comentar sobre a triste queda na promissora carreira de Sam Worthigton, que é reduzido para coadjuvante do coadjuvante sem dó. Há pouco espaço para as personagens femininas também, com Robin Wright desperdiçada e Keira Knightley não fazendo nada muito além de chorar, sobrando para Emily Watson segurar alguns momentos mais emocionantes.

Como experiência, Evereste se sai um pouco melhor. O diretor islandês Baltasar Kormákur sabe como valorizar o ambiente e transformá-lo ao mesmo tempo em algo belo e assustador, com sua câmera aproveitando movimentos digitais que circulam o topo do monte e seus arredores; ainda que isso revele a artificialidade de suas tomadas. Os momentos mais intensos de nevascas e condições brutais representam o ponto alto, ainda mais considerando que a primeira metade peca pela sonolência e o inevitável clichê de “introduzir todos os personagens e seus dilemas”, não conseguindo algo realmente original ou digno de nota. Triste, dado a quantidade de talento envolvido.

Ao menos não temos um melodrama irritante, mesmo que o filme caia nessa área diversas vezes. A química entre Clarke e Knightley funciona mais pelo contexto de suas situações, enquanto a bela trilha sonora de Dario Marianelli constrói uma tragédia de forma nada apelativa. Os últimos minutos do filme funcionam bem como uma facada emocional, sem forçar a barra na catarse ou no sensacionalismo, apenas pela objetividade.

Evereste é um filme competente que acaba prejudicado pelo excesso de personagens e uma narrativa inconstante que se entrega aos clichês do gênero.

| Blade Runner: O Caçador de Andróides | Crítica

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 9 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

BladeRunner
Harrison Ford é Rick Deckard

São poucos os filmes realmente capazes de fazer o espectador se sentir dentro de seu universo. Seja através da fotografia, do design de produção ou do figurino de seus personagens, essa sensação de imersão é essencial para qualquer história, independente do gênero ou temática. Com Blade Runner: Caçador de Andróides, não só Ridley Scott talvez tenha concebido o filme mais atmosférico de todos os tempos, mas também um dos exemplares mais desafiadores, belos e poéticos do rico âmbito da ficção científica.

Baseado no conto Do Androids Dream of Electric Sheeps?, de Philip K. Dick, a trama se ambienta na Los Angeles de 2019, tendo início quando um grupo de Replicantes (máquinas virtualmente idênticas a humanos) escapa de uma colônia de escravos atrás da companhia que os criou, a fim de garantir um tempo de vida maior. Evitando criar pânico na população, a polícia envia o blade runner – um caçador de andróides – Rick Deckard (Harrison Ford) para localizar e eliminar o grupo antes que atinjam seu objetivo.

Já havia assistido a Blade Runner umas duas vezes em casa, até enfim ter a oportunidade de contemplá-lo na tela grande, graças à sessão dos Clássicos da rede Cinemark. Talvez tenha sido a qualidade da projeção, ou mesmo a imperdoável chuva que vem encharcando as ruas de São Paulo, mas me senti compelido a escrever sobre esta obra que cada vez mais cresce no meu conceito. Pelo que li, o roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples passa longe do texto de Dick, adotando meramente termos e situações, partindo então para uma narrativa independente e que se beneficia imensamente de simbolismos e filosofia. O Replicante Roy Batty (o inesquecível Rutger Hauer) realmente é um sujeito mal apenas por desejar tempo a mais de vida, outrora limitada a meros 4 anos como um escravo numa colônia espacial? Não é irônico que Deckard lentamente começa a se apaixonar pela Replicante Rachael (Sean Young) mesmo tendo consciência de sua posição? Finalmente, não é a maior das hipocrisias se o grande caçador de andróides for, como apontam algumas hipóteses, um Replicante ele mesmo?

Todas essas questões Scott aborda com maestria, criando ao lado do diretor de fotografia Jordan Cronenweth (isso mesmo, pai do Jeff, habitual fotógrafo de David Fincher) algumas das mais lindas imagens já registradas no gênero. O visual da Los Angeles futurista, dominada por prédios faraônicos (o conglomerado da Tyrell é quase uma grande pirâmide, e faz sentido já que, se os Replicantes são escravos, seus fabricantes seriam os imperadores) e ruas com forte presença asiática, decadência e bueiros expelindo névoa constantemente é fortíssimo, sendo excepcional em criar um universo cyberpunk palpável e realista dentro de sua proposta de sci fi noir, além de fazer uso de todas as ferramentas que só o audiovisual é capaz de oferecer.

A cena em que Deckard persegue o primeiro andróide pela rua é um exemplo perfeito de elementos cinematográficos se combinando para criar algo realmente especial: a montagem de Marsha Nakashima e Terry Rawlings garante um ritmo de ação genuíno, enquanto a imperdoável chuva garante uma paleta fria pelas mãos de Cronenweth e, como poderia me esquecer, uma arrepiante música pelas mãos do compositor grego Vangelis, que rapidamente transforma a empolgante caçada numa tragédia catártica no momento em que Deckard dispara o primeiro tiro mortal. É altamente simbólico que a roupa de plástico da fugitiva pareça um par de asas enquanto corre, especialmente quando estraçalha uma vidraça, como uma espécie rara buscando a liberdade. E quando vemos a lágrima recém escorrida pelo rosto da Replicante sem vida? Gênio.

Mas entre inúmeros momentos memoráveis, aquele que certamente fixa-se na mente dos fãs é o diálogo final entre Deckard e Roy, o famoso monólogo de “Lágrimas na chuva”. Vale apontar que a direção de Scott ali é de um suspense de perseguição inigualável, fazendo jus aos tradicionais clímaxes de film noir, no qual o detetive durão persegue o vilão, mas o que Scott faz é reverter a situação: quando nosso blade runner está pendurado na beirada de um prédio, o andróide o resgata e compartilha seus pensamentos finais, onde entrega a constatação mais humana de toda a projeção, onde Roy deixa clara a tristeza que é a finitude da vida e a inevitabilidade do tempo. “Vi coisas que vocês… Nunca iriam acreditar” desabafa o robô moribundo sob a pesada chuva, numa amostra espetacular das habilidades cênicas de Hauer. E é ao mesmo tempo de partir o coração e empolgante, que nunca saibamos do que exatamente ele estava falando.

Bem, até a continuação chegar, mas algumas coisas são sagradas…

Blade Runner: O Caçador de Andróides é o impecável casamento entre ficção científica e film noir, que com tamanho apuro técnico, narrativo e cinematográfico, acaba rendendo uma obra que pode muito bem destacar-se como um dos melhores exemplares de ambos os gêneros. Um clássico que merece ser visto e revisto, para que nenhum momento seja perdido… Como lágrimas na chuva.

| Que Horas Ela Volta? | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , on 4 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

Quehoraselavolta
Regina Casé surpreende na pele da doméstica Val

 Quando começaram a sair as primeiras notícias de que um certo Que Horas ela volta? vinha colecionando prêmios em festivais estrangeiros como Sundance e Berlim, rapidamente minha atenção se voltou a este, ainda mais pela presença de Regina Casé no elenco que, para manter a educação, não é das minhas apresentadoras de TV preferidas. Que grata surpresa encontrar um filme delicado, esperto e que funciona bem dentro de seu gênero.

A trama é centrada na empregada doméstica Val (Casé), que trabalha para uma rica família do Morumbi, em São Paulo, mantendo uma fortíssima relação materna com o filho do casal, Fabinho (Michel Joelsas). Quando sua filha Jéssica (Camila Márdila) precisa sair de Recife para prestar o vestibular na capital paulista, ela volta a morar com a mãe, dez anos depois de sua ültima visita, na casa da família. Com a chegada da menina, os choques de interesses e classes sociais têm início.

Também roteirizada por Anna Muylaert, é uma história simples e direta, sem grandes pretensões ou ambições, satisfazendo pela simplicidade e habilidade com que conduz a história. Muitos pontos e viradas da história são previsíveis, mas Laerte é competente em sua prosa honesta e, principalmente, sua excepcional direção. Predominantemente estática e silenciosa, sua câmera captura planos bem abertos e adota movimentos sutis, sendo eficiente em criar uma atmosfera realista, que aliada à fotografia de Barbara Alvarez e a direção de arte de Marquinho Pedroso, é capaz de criar tanto um ambiente acolhedor quando sufocante, de acordo com a demanda narrativa.

Sufocante porque a chegada de Jéssica desestrutura tudo. Já era de esperar que a patroa Bárbara vivida por Karine Teles assumisse um forte papel antagonista aqui, entrando em conflito com o comportamento da filha de sua empregada. Jéssica simplesmente não aceita a função de filha da doméstica, logo se assumindo como uma convidada com direito aos mesmos luxos e mordomias da família, servindo como uma clara metáfora para as transformações socioeconômicas no Brasil. Muylaret é muito habilidosa ao conduzir a sensação de incômodo quando vemos os dois lados colidindo, especialmente em cenas como quando Jéssica toma escondida o sorvete de Fabinho, apenas para ser surpreendida pela aparição de Bárbara; capaz de amendrontar apenas com um olhar. Mas ainda assim, o roteiro é inteligente a ponto de trazer uma pequena cena que desmistifica a posição de monstro da patroa, quando nitidamente se entristece por ser incapaz de fornecer a seu filho o mesmo carinho que Val o faz tão bem.

Finalmente, temos a performance de Regina Casé. Adotando um pesadíssimo sotaque pernambucano, Casé transforma Val em uma figura amorosa e divertida, capaz de provocar riso com sua irreverência (como quando tenta espionar com uma colega o que sua filha estaria fazendo num dos quartos), e profunda admiração, dada sua íntima relação com Fabinho. A expressão de Casé no frame final é empolgante por finalmente atestar que Val, mais do que uma doméstica, é o que o título internacional acertadamente atesta: a segunda mãe.

Que Horas ela volta? é um eficiente e delicado drama, que se beneficia da elegante direção de Anna Muylaert e da afetuosa performance de Regina Casé; ambas reveladas como talento genuíno. É assim que se faz.