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| A Entrevista | Crítica

Posted in Comédia, Críticas de 2014, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 25 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

TheInterview
James Franco descobre um novo lado de Kim Jong-un

Você provavelmente deve ter ouvido muito sobre A Entrevista, nova comédia de Seth Rogen e James Franco, nos últimos dias. O filme foi proibido, ameaçado de terrorismo, supostamente a causa de um cyberataque maciço e agora conseguiu voltar aos cinemas americanos e também disponível num eficaz serviço de video on demand pela internet. Muito barulho por uma com

Elaborada por Rogen e seu amigo Evan Goldenberg e roteiriziada por Dan Sterling, a trama gira em torno do apresentador de TV David Skylark (Franco), cuja audiência cresce graças à seu trabalho fútil de exposição do mundo das celebridades, num típico “TV Fama” ou “TMZ” da vida. Quando seu produtor, Aaron Rapaport (Rogen) descobre que Kim Jong-un (Randall Park) é um fã do programa, ele consegue uma entrevista exclusiva com o líder da Coréia do Norte. Porém, a CIA intervém e pede que a dupla use o evento como oportunidade para assassinar Kim Jong Un.

Da mesma forma como escrevi na minha crítica de Vizinhos, Seth Rogen é o cara com as ideias mais absurdas que entra no escritório do produtor e consegue persuadi-lo de qualquer coisa. Imagino ele entrando no escritório de Amy Pascal ou algum outro executivo da Sony e falando “um filme em que eu o James Franco vamos matar o ditador da Coréia do Norte!”. E aposto que Rogen está com ainda mais notoriedade por lá, dada a controvérsia global de seu A Entrevista. A verdade é que é uma comédia inofensiva que não precisava sofrer tudo o que sofreu, ainda que o roteiro da dupla traga sua dose de “seriedade” ao ridicularizar programas de tablóide e o governo de Kim Jong-un, mesmo que de forma morna.

Aliás, o personagem Kim Jong-un criado aqui é sensacional. Mesmo que Randall Park não seja exatamente parecido ou com um rosto engraçado como o do Un real, ele entrega uma performance divertidíssima como um jovem introvertido fã de Katy Perry que dispara mísseis nucleares para ser levado a sério. É também um manipulador nato, o que o coloca como bom antagonista para os “heróis” de Seth Rogen e James Franco, que repetem a mesma química bem-sucedida de Segurando as Pontas. O primeiro mantém sua áurea séria mas inadvertivelmente cômica, enquanto Franco se entrega completamente ao caricato na pele de Skylark, uma mistureba dos tipos mais escandalosos de apresentadores de TV. Aliás, não deixa de ser curioso como tanto A Entrevista quanto o thriller O Abutre discutam, de certa forma, a função do jornalismo.

E também como Segurando as Pontas, o filme faz um balanço eficiente entre as piadas e o humor. Num momento estamos vendo Franco soltar inúmeras referências ao Senhor dos Anéis (“Eu sou gollum, e você é o meu precioso”) e no outro temos um clímax gigantesco que envolve tanques de guerra, metralhadoras e ogivas nucleares. Goldenberg e Rogen evoluem muito como diretores depois do mediano É o Fim (sim, vocês bem sabem que sou um dos poucos que acho o filme só OK), e até aprendem um humor mais sutil ao fotografar a cena da entrevista do título da mesma forma como no ótimo Frost/Nixon (“Daqui a 10 anos, Ron Howard vai fazer um filme sobre nós!”).

A Entrevista é uma comédia divertidíssima que certamente vai agradar aos fãs do humor de Seth Rogen e companhia. Foi injustamente afetado por uma polêmica exagerada, mas não tira o fato de ser uma obra eficiente. Se Kim Jong-un não gostar, problema dele.

Obs: O filme está disponível em VOD em diversos serviços de streaming, mas a estreia no Brasil ainda não definida.

Obs II: Temos algumas participações especiais muito divertidas.

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| Vizinhos | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

Neighbors
Zac Efron e Seth Rogen na pista de dança

Acho muito satisfatório quando uma comédia consegue ser bem atual, adotando as inovações culturais/tecnológicas da sociedade em suas dezenas de piadas. Judd Apatow (O Virgem de 40 AnosLigeiramente Grávidos, entre outros) é um especialista nesse quesito, e mesmo que seu dedo não esteja presente em Vizinhos, não é difícil encontrar influências do diretor/roteirista. Ainda que escrachada, vulgar e essencialmente um longa com propósito para fazer rir, é possível encontrar um inesperado subtexto sobre justamente isso: inovação.

A trama começa quando uma república de estudantes, liderada por Teddy (Zac Efron), se muda para a casa vizinha à do casal Radner (Seth Rogen e Rose Byrne), que vai lidando com os desafios iniciais de serem pais. Com as constantes e barulhentas festas promovidas pelo grupo, o casal logo inicia uma guerra contra os universitários.

Ao pensar nessa premissa, só imagino os roteiristas estreantes Andrew J. Cohen e Brandon O’Brien pelos corredores da Universal vendendo a ideia de um filme sobre “um casal vizinho de uma fraternidade universitária”, e como a amizade com Seth Rogen deve ter ajudado. É uma boa ideia no papel, mas difícil de se fazer um longa que se sustente em aproximadamente 90 minutos, que é justamente onde Vizinhos patina: estrutura. O roteiro da dupla é problemático ao fornecer uma narrativa fluente, dado que em certo momento da trama o casal “vence” a fraternidade, mas resolve voltar a atacá-los simplesmente pelo ócio. Não faz sentido também a briga que o casal tem durante outro ponto da história, que não leva a absolutamente lugar algum e é resolvida sem grande dificuldade.

Mas tudo bem, já que Vizinhos tem muito mais qualidades que o redimem. Falar sobre comédia sempre é uma tarefa engrata, já que é o gênero mais relativo de todos: uns vão rir horrores com frases do tipo “ele parece uma estátua esculpida por cientistas gays”, já outros vão ficar completamente enojados com a rápida imagem de um pênis enorme enrolado no pescoço de uma mulher ou uma bizarra cena de ordenha. Saiba o tipo de filme em que está entrando, é uma comédia suja. Vizinhos me arrancou muitas risadas, especialmente pela facilidade do roteiro em capturar em cheio o período atual, sobrando referências para séries como Breaking Bad (“Sorria, bebê Heisenberg”) e Game of Thrones, a maciça inclusão digital como artifício narrativo e momentos de puro nonsense, como a luta entre Rogen e Zac Efron.

Aliás, como antigo hater do ator marcado por High School Musical, reconheço sua ótima performance como o presidente da fraternidade Delta Psi. Não só é um completo maluco e marginal quando a trama o requer assim, mas também carrega uma faceta dramática escondida – que traz à tona o embate novo/velho e o futuro incerto em um interessante diálogo – que ajuda a tornar seu personagem crível, ao invés de simplesmente um antagonista unidimensional. Ao seu lado temos o cada vez mais carismático Dave Franco como um de seus amigos, o sempre hilário Seth Rogen e a revelação cômica na forma de Rose Byrne, que simplesmente rouba todas as cenas com um brilhante sotaque australiano. E o diretor Nicholas Stoller (Ressaca de Amor e O Pior Trabalho do Mundo) é inteligente ao fornecer bastante espaço para improvisos, além de comandar bem as sequências envolvendo baladas e suas luzes coloridas, e até brincar com diferentes formatos de vídeo em alguns rápidos flashbacks sobre a origem da fraternidade: anos 30, filme mudo; anos 70, razão de super 8; anos 80, VHS.

No fim, Vizinhos é uma experiência divertida e que certamente vai arrancar risadas se você curtir esse tipo de humor, e também surpreende com seu esperto e inesperado subtexto. Considerando que este é um filme onde a ereção é usada como golpe de luta, é no mínimo surpreendente.

Obs: Alguém dê um biscoito para quem teve a ideia de uma festa temática Robert De Niro.